V de Vingança
(V for Vendetta, EUA/Alemanha, 2005)
Mas Moore não se contentou em trabalhar apenas com os simplórios personagens do mainstream estadunidense. Em seus trabalhos para a legendária revista inglesa 2000 AD, em sua obra prima Watchmen e em tantas outras histórias ele criou personagens complexos e brilhantes, dotados de divina humanidade. Uma destas histórias começou a ser publicada em 1982 na revista Warrior: V de Vingança (V for Vendetta), em parceria com David Lloyd.
Escrita por um ainda jovem Alan Moore e totalmente conectada com seu momento histórico, V de Vingança não está entre seus trabalhos mais geniais, mas a notícia de que seria produzida sua versão cinematográfica pelos irmãos Wachowski (Matrix) deixou os fãs eufóricos, mesmo que outras adaptações da obra de Moore (“A Liga Extraordinária”, “Do Inferno”) tenham sido retumbantes fracassos.Acabo de assistir a tão esperada adaptação e posso dizer que V de Vingança não é um grande filme. Pode até ser bom entretenimento descompromissado, mas está longe de ser o filme que poderia ser. O primeiro problema está na história em si. As aventuras de um terrorista/ anarquista (“V”) que enfrenta o governo fascista em uma Inglaterra do futuro já não têm o mesmo efeito que tinham em 1983. No início dos anos 80 ainda havia a Guerra Fria e a Inglaterra vivia o choque econômico e social causado pela política da “Dama de Ferro”, a conservadora Margareth Thatcher. Apenas alguns anos antes os Sex Pistols haviam feito uma “homenagem” bastante interessante para a Rainha em seu jubileu (God Save The Queen), ao mesmo tempo em que faziam uma ode ao Anarquismo. V de Vingança só poderia ter surgido deste caldo, neste momento. Hoje o idealismo de “V” é no mínimo anacrônico. Óbvio que já não sou o garoto de 15 anos que ficou fascinado com a primeira leitura de V de Vingança (Editora Globo, 1989), mas o mundo também mudou.
No "pós-WTC" o terrorismo é “banal” e não combina com qualquer tipo de idealismo. O mundo já não é tão “preto no branco” quanto costumava ser, e os fascistas estão mais do que nunca disfarçados de defensores da liberdade. Já não somos inocentes, sabemos disso, e não dá para olhar o universo retratado em V de Vingança sem ver uma grande caricatura, uma metáfora óbvia que não se sustenta.Poderia ser diferente se toda a complexidade dos personagens de Moore fosse levada às telas, mas como era de se esperar isso não aconteceu. Frank Miller tem um ritmo que casa muito bem com a estética adotada hoje por Hollywood, mas com Alan Moore parece acontecer o contrário. Além disso, os irmãos Wachowski optaram pelo “auto plágio” seguro que é perpetuar aquilo que foi feito em Matrix, e a história de V tornou-se superficial, para dizer o mínimo. Sua motivação foi apenas parcialmente explicada, e de maneira errada, já que seu aspecto mais pessoal foi supervalorizado.
Citando Frank Miller novamente, assisti estupefato a obra prima que é a violência estilizada “aparentemente” gratuita do Noir futurista Sin City, mas tive que lutar bravamente contra o sono assistindo V de Vingança. Miller teve sua obra respeitada e bem adaptada, mas Moore não teve a mesma sorte - tanto foi assim que pediu para retirar qualquer menção de seu nome dos créditos do filme.Apesar de tudo, vale ver V de Vingança ao menos pela atuação mais uma vez fantástica da mulher da minha vida desta semana Natalie Portman. Além do mais, se a Revista Veja diz que o filme é uma bobagem, algum mérito com certeza ele deve ter.
Originalmente publicado no dia 03 de julho de 2006.
A hipocrisia do Dia Internacional da Mulher
Antes que alguma leitora desmaie diante de tanta falta de sensibilidade deste Neanderthal que vos escreve é necessário deixar claro que gosto sim de homenagear a mulher, e que não pegarei aqui o caminho simplório, bobo e superficial do “se existe um dia internacional da mulher deveria haver também o dia internacional do homem”. Na verdade, não tenho a menor dúvida de que os idealizadores da data tiveram as melhores intenções ao adotar o dia 8 de março de 1857 como um marco.
O que não pode deixar de ser comentado é o que aconteceu desde então com esta “boa intenção”. Durante o dia de amanhã muitas rádios vão tocar John Lennon ou Erasmo Carlos; blogs farão textos emocionados sobre a força e a beleza de toda mulher e muitos dirão que devemos dar os parabéns às mulheres que amamos. Algumas vão encontrar flores em suas mesas de trabalho e outras, com certeza, receberão mensagens de gosto duvidoso, daqueles serviços horríveis de telemensagem. “Não há nada de errado nisso, é muito importante oferecermos homenagens e todo o nosso carinho a quem amamos, numa data tão importante, não é?”
Não! Pode até ser que não seja má fé, mas se você é um gerente que parabeniza sua funcionária pelo dia dela e depois oferece aquela promoção ao funcionário menos capacitado, que acompanha com você os jogos do seu time (já vi isso acontecer), você é um hipócrita! Se você parabeniza sua esposa pelo dia dela, mas chega em casa e se esparrama no sofá enquanto ela cumpre sua jornada tripla de trabalho, você é um hipócrita! Se você cumprimenta todas as suas amigas, mas passa o restante do ano tendo o mesmo comportamento machista e sexista de sempre, você é um hipócrita! O homem que não se posiciona de verdade, com sinceridade e desprendimento, frente a questões importantes da feminilidade e da relação entre os sexos deveria ter ao menos a dignidade de não ficar repetindo o clichê de “parabéns pelo seu dia”.
“É isso aí! O Dia Internacional da Mulher deve ser mesmo para refletirmos sobre as conquistas da mulher, e para reivindicar nossos direitos, lutar por maiores conquistas!”
Por incrível que pareça, não também! Eu sei, parece estranho que eu seja contra essa comemoração, mesmo que ela seja encarada de forma séria, mas posso explicar. Essa data comemorativa não é hipócrita só porque os homens agem assim. Ela é hipócrita em si, assim como todas as datas do gênero. Existe um mecanismo sutil e ao mesmo tempo cruel pelo qual a sociedade perpetua seu status quo. Se não houver uma reflexão crítica a respeito do significado de cada ato, mesmo o mais bem intencionado militante torna-se engrenagem que ajuda a mover o próprio sistema que combate. As mais justas reivindicações são absorvidas pela ordem social vigente, e nada muda. O problema? Datas assim limitam essa reflexão. Vou chamar isso de “vacina ideológica”. Para compreender, vamos pensar em como uma vacina funciona: para que o corpo se mantenha saudável (ou inalterado, no nosso caso), uma versão enfraquecida do vírus X é ministrada, mas de forma que fique sob controle dos mecanismos de defesa do corpo, que estarão prontos para combater qualquer manifestação real do vírus.
No caso da sociedade, a data comemorativa das minorias (as mulheres são tratadas como tal) é esse vírus X enfraquecido. Salvo exceções, a reflexão que poderia levar à mudança fica restrita a um dia pré-determinado, fica encaixotada. Todas as reivindicações são feitas com maior intensidade na data estipulada, existem os discursos e discussões, mas no dia 9 de março as mulheres continuam sujeitas a jornadas triplas de trabalho; continuam trabalhando 50% mais que homens, na mesma função, para ganhar 50% menos; continuam objeto de valores ditatoriais (da beleza, por exemplo); continuam vítimas de violência, sofrendo todo tipo de intimidação.
Sinceramente, o dia internacional da mulher, tal qual é hoje, é irrelevante e desnecessário. As necessidades das mulheres, de igualdade e dignidade, além das econômicas, são muito maiores do que uma data pode comportar, e de nada adianta discutirmos isso amanhã e ficarmos anestesiados até o próximo mês de março. Se for para citar Lennon, prefiro dizer que infelizmente a mulher continua sendo “the nigger of the world”, e que para mudar isso precisamos de menos simbolismo e mais ação.
Originalmente publicado no dia 07 de março de 2008
Thirteen
Valquíria, Andréia, Ana, Bárbara, Lia, Samira... Todas meninas perfumadas, de olhos brilhantes, que fizeram meu coração bater mais forte antes dos 15 anos. Mas o primeiro contato real, ainda que tímido, foi com a Luciana. Naquela pequena sala de aula as cadeiras e mesas foram afastadas pela professora para dar lugar a um baile em que as crianças vestiam roupas de domingo (ela estava de vestido vermelho) e dançavam ao som de baladas "lentas" dos anos 70. Eu disse que não sabia dançar, e estava morrendo de medo de pisar nos pés dela, mas a resposta foi a prova de que as mulheres desde cedo já sabem lidar com determinadas situações: "relaxa, é só colocar as mãos na minha cintura, se aproximar e ouvir a música". Foi o momento mais feliz da minha vida até então, e passei uma semana inteira apaixonado por ela.
A paixão foi embora, mas continuei ouvindo a música, que com o tempo deixou de ser "lenta". Uns anos depois do primeiro baile eu continuava não sabendo como me comportar perto dessas mocinhas que mexiam tanto comigo e ficava horas trancado no quarto ouvindo Paint It Black; sonhando chegar na escola no dia seguinte e encontrar um sorriso no rosto da escolhida da vez. Imaginava situações em que eu vencia os valentões e conquistava o coração da menina que então toparia voltar para casa segurando minha mão, ou me deixando levar o material para ela. Eu a faria rir com minhas piadas inteligentes e falaríamos de música também. Eu apresentaria a ela os Rolling Stones, o Led Zeppelin e Os Mutantes, e naturalmente viveríamos o grande amor de nossas vidas.
O grande amor não veio, não assim e não naquela época, mas as músicas continuaram fazendo parte da história. Uma delas é Thirteen, do Big Star. O sucesso mais emblemático da banda precursora do power pop é considerado pela revista Rolling Stone "uma das mais belas celebrações da adolescência na história do Rock", e é verdade. O ano era 1972, e Alex Chilton, na época com 20 anos, ao contar a singela história de um jovem casal apaixonado que discutia Paint It Black enquanto voltava da escola, escreveu uma das canções definitivas sobre o amor, sobre um tipo de amor que talvez nem exista fora do cinema ou de nossas lembranças idealizadas. Não se deixe enganar pela simplicidade da letra e do arranjo composto em menos de 20 minutos. Thirteen está carregada de uma nostalgia triste que é alimentada por nossos sonhos, pela nossa busca eterna por amores simples e impossíveis. Toda canção deveria ser assim.
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Até Que Meus Olhos Te Escutem

Data: 27/11/2009
Local: Livraria da Vila - Lorena: Alameda Lorena, 1731 - Piso Superior
Horário: 19h00 às 22h00
Sarau: 20h00, com interpretações dos contos por Deborah Graça e Rosana Ray
Estacionamento na porta da Livraria.
Vamos?
O Par Perfeito
Leia qualquer revista feminina e você verá a mesma queixa várias e várias vezes: os homens - esses garotinhos com dez ou vinte ou trinta anos a mais - são um caso perdido na cama. Não estão interessados nas "preliminares"; não têm nenhum desejo de estimular as zonas erógenas do sexo oposto; são egoístas, ávidos, desajeitados, sem sofisticação. Essas queixas, você não pode deixar de perceber, são algo irônicas. Naquela época, tudo que nós queríamos eram as preliminares, e as garotas não estavam interessadas. Elas não queriam ser tocadas, acariciadas, estimuladas, excitadas: na verdade, costumavam nos bater se tentássemos fazer isso. Não é na realidade muito surpreendente, então, que não sejamos muito bons na coisa. Passamos dois ou três anos longos e importantes da nossa formação ouvindo dizer, com bastante ênfase, para nem pensarmos nisso. Entre as idades de catorze a vinte e quatro, as preliminares deixam de ser algo que os garotos querem e as garotas não, e passam a ser algo que as mulheres querem, mas para o qual os homens não têm tempo. (Ou pelo menos é o que eles dizem. No meu caso, eu gosto das preliminares - principalmente porque as ocasiões em que tudo que eu queria era tocar estão alarmantemente frescas na minha mente.) O par perfeito, na minha opinião, é aquele formado pela leitora de revistas femininas e um garoto de catorze anos.
- "Rob Fleming", Alta Fidelidade.
10 (ou mais) músicas que me fizeram ser.
Este pequeno romance que escrevemos todos os dias e chamamos de vida sempre tem uma trilha sonora. Mas, mais do que "acompanhar a ação", as músicas podem ser as grandes responsáveis por determinados turning points que, no fim das contas, nos fazem ser quem nós somos. Sim, eu acredito que a música tem todo esse poder.
Abaixo, uma lista de "músicas que moldaram minha personalidade", que postei no meu twitter nesta madrugada. Resolvi copiar e colar a lista aqui (os links levam para os vídeos das músicas):
10 - John Lennon: Watching The Wheels [adolescente tímido compra 1º disco com seu 1° dinheiro] http://bit.ly/3EI4Jq
09 - Os Mutantes: Ainda vou transar com você [era apaixonado por ela no colegial, mas continuei virgem] http://bit.ly/3FN8hV
08 - Black Sabbath: The Wizard [ganhou a primeira guitarra e tocava alto pra irritar os evangélicos da rua] http://bit.ly/y3E2x
07 - Sonic Youth: The Diamond Sea [o primeiro pé na bunda, daqueles de fazer morrer um pouco] http://bit.ly/10jQqG
06 - Bauhaus: Ziggy Stardust [de gritar com a cabeça pra fora do carro, chorando] http://bit.ly/4bMC5T
05 - Portishead: Sour Times [dias de verão com o inverno n'alma] http://bit.ly/1toQ2D
04 - At The Drive In: One Armed Scissor [a trilha sonora de um grupo de amigos, e eu queria esse cabelo] http://bit.ly/2E0pJc
03 - Neil Young: Like A Hurricane [o maior delírio apaixonado da história da música. Só.] http://bit.ly/12QWtZ
02 - Pixies: Debaser [a primeira vez que minha cabeça explodiu de verdade] http://bit.ly/2dPNux
01 - The Rokes: Piangi Con Me [ Rock Italiano dos 60's, tocou em casa durante toda minha infância] http://bit.ly/1wL3wi
00 - Jane's Addiction: Mountain Song [eu não existiria sem esse vídeo. E sim, 11 músicas] http://bit.ly/4dFJNT
vale-tudo
Já perceberam que os melhores blogs são sempre os mesmos?
O vale-tudo está para o boxe assim como a dança da galinha está para o balé, como o Bonde do Tigrão está para Mozart — ou como a vulgaridade da Mulher Melancia está para a elegância de Márcia Haydée. Um arremedo de dança do acasalamento homossexual, o vale-tudo é o retrato de uma época em que o que importa é sempre, e apenas, o resultado. Não importa que para isso seja necessário dar uma cotovelada no rosto do oponente ou uma joelhada em seu estômago. Se o boxe tem a beleza estética que decorre da sistematização e da limitação das possibilidades da agressão, o vale-tudo é apenas violência rasteira. E feia. E completamente homossexual.
Badminton e peteca são esportes mais masculinos que esse vale-tudo. Até patinação no gelo é mais masculino, porque eventualmente o patinador com seus paetês e suas calças justas vai sentar a moça em seus ombros, os dois frente a frente, e vai lembrar a todos uma das melhores razões pelas quais é bom ser homem. Enquanto isso lutadores de vale-tudo fazem meia-noves intermináveis com a voracidade de um amor vespertino e urgente, cabeças enfiadas com sofreguidão nas virilhas dos seus parceiros, e na falta de outros fluidos se contentam com a urina em seus calções.
Vale-tudo é um sujeito dizendo para o outro “vem e me domina, meu homem”. Por baixo, o sujeito aperta com as pernas os quadris do seu amor com força, chama-o para si, e os abraços são fortes e esganados e desesperados, “diz que eu sou teu”. Não é à toa que um dos movimentos ali se chama submissão. É um sujeito meio depravado dizendo para o seu objeto de desejo “vem, cachorro, eu sou o teu senhor, faz a minha vontade”, variação sado-masoquista de uma relação de domínio. Vale-tudo é sexo selvagem, sem limites, em que o cheiro do sangue se torna o maior afrodisíaco imaginável. É por nunca ter conseguido enxergar o vale-tudo de outra forma que durante muito tempo brinquei com a idéia de fazer um curta-metragem sobre essa coisa bizarra a que chamam “esporte”, mostrando as cenas desses lutadores atracados em suas lides de amor enquanto, em BG, ouviríamos Serge Gainsbourg e Jane Birkin cantando Je t’Aime (Moi Non Plus). Mas uma moça já fez esse filme.
- Leia Rafael Galvão em Sobre o Boxe







