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Hora do recreio

Sabe esses vídeos bonitinhos de filhotes fofinhos, de bebês dormindo entre girassóis, de paisagens exuberantes? Eu detesto. Morro de tédio. Eu sei, é deselegante. Dá pêlos na mão. Devo ter o coração amargo, deve ser isso.

Mais chato que esses videozinhos edificantes, só os descaradamente não edificantes. Se tiver gente rebolando, cachorro de roupa, torta na cara ou qualquer outra pagação de mico, tô fora. Cada um no seu quadrado.

Masssss... no meio de tanta pieguice e baixaria, há vídeos incríveis. Deixo quatro dos meus preferidos por aqui:

Oktapodi - alunos da Gobelins

Coitados desses enamorados... Repare no barulhinho do polvo no limpa-brisa: é tudibão! E o que dizer da cena da tinta? Amo! Se tiver tempo e saco, fuce bem o site da Gobelins. Lá tem um monte de animações de tirar o fôlego.

Au Bout Du Monde - Konstantin Bronzit

Adoro situações non sense – mas esta é tão surreal que só pode ser resultado de viagem de ácido. E a vaca quadrada com as tetas arrastando no chão? E o gato!!! Não dá para entender nada do que eles falam, mas é engraçadíssimo! Ge-ni-al.

Father and Daughter – Michael Dudok de Wit

Sutil e minimalista como uma ilustração do Odilon Moraes, é praticamente só sépia, música e emoção. Observe as lindas sombras que ele faz no chão. Ainda não parou de chorar? Assista The Monk and the Fish, do mesmo autor.

A quoi ça sert l'amour? – Luis Clichy

Qualquer coisa ao som de Edith Piaf fica linda, mas essa animação conseguiu ir bem além da mera figuração para a música francesa. Quem nunca se descabelou por um amor não sabe o que está perdendo!


Cenas do próximo capítulo

Seis da tarde, no plim-plim: “Frau Herta arma vingança contra Laura”. Às 19h, “Guilherme pede Sônia em namoro, mas ela fica indecisa”. E, no horário nobre, “Cilene acusa Donatela de assassinato”. A concorrência chia, esperneia e faz o que pode. Logo vem a resposta da Record: “Juli confessa que veio de Marte”. Sen-sa-ci-o-nal!

Meu amigo Hermínio é fissurado em novelas. Curiosamente, seus personagens preferidos nunca são o mocinho e a mocinha da trama. “Ah, pára de se lamentar e se joga nos braços dele logo!”, reclama ele com o aparelho de televisão. Hermínio perde a paciência com galãs problemáticos, adolescentes rebeldes e vilões inescrupulosos. Às vezes, me liga dizendo coisas como “você não sabe o que aquela vaca da Céu fez!” ou “sacanagem a Irene ter largado do Copola, né?”. Eu preciso de uns segundos até meu cérebro se lembrar de que não conheço nenhuma Céu, Irene ou Copola.

Fico imaginando a reação do Hermínio se assistisse à novela dos mutantes, da Record. Pessoas voando, chupando sangue ou se transformando em cobras e lobisomens... Pelo menos, eu teria certeza de que ele não está falando de ninguém que eu conheço quando me ligasse para dizer “você viu que absurdo a Janete virar vampira?”.

Categoria: Cotidiano, Televisão

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Primeiro, foi uma amiga que ofereceu. Eu, que sempre fui careta, virei alvo de olhares maldosos quando disse não. "Larga de ser boba, experimenta." Resisti. Logo, em qualquer lugar que eu fosse, encontrava viciados, sempre com aquele ar cool de quem acha que pode parar quando quiser. "Pelo menos eu vou ter algo para contar para meus netos", comentou um amigo, no auge do delírio. Meses depois, cansada de fugir das rodinhas, acabei experimentando. E, claro, também fiquei viciada em Lost.

O problema com o vício não é só que ele te come por dentro. Maconha broxa, cocaína torra neurônio, heroína é tão rápida que mal dá para anotar a placa do que te atropelou. Tudo isso é mais que sabido. Mas nunca vi nenhum maconheiro conseguir droga de graça, muito menos pela internet. Não conheço cocainômano que passe a noite em claro elaborando teorias a respeito do Lostzilla, nem viciado que tenha tremedeiras só de ouvir falar em greve de roteiristas.

A tradicional família brasileira não está pronta para essas drogas modernas. Nenhum ser humano deveria ser submetido a doses periódicas de Jack Shephard e James "Saywer" Ford para, depois, ser obrigado a passar seis meses de abstinência compulsória. Porque não existem clínicas de reabilitação para viciados em seriados, passo horas vasculhando a internet em busca de "download de Lost", um tequinho de informação aqui – Evangeline Lilly (Kate) e Dominic Monaghan (Charlie) estão namorando na vida real –, uma ponta de fofoca ali (será que a série vai mesmo acabar na quarta temporada?). É degradante.

Só agora que a última temporada estreou nos Estados Unidos é que descobri como estou dependente. Para quem viu Lost em DVD, numa maratona que se estendeu por vários finais de semana, ter de esperar seis meses para o início da quarta temporada foi um suplício. Mas ter de esperar uma semana para ver cada um dos (ditos) últimos episódios, isso sim, é de enlouquecer.

Nunca ansiei tanto pelas sextas-feiras como neste mês: é quando meu fornecedor de episódios corsários gentilmente bota no ar mais uma leva de arquivos que, descompactados, se transformam na Ilha como que por encanto. E tudo legendado. Eu sei que é vício, mas posso parar quando eu quiser – embora algo me diga que só vou querer no final de maio.

E isso é tudo o que tenho para contar para meus netos.

Cena de Lost, com o símbolo da estação Dharma ao fundo

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First, it was a friend who offered. I, the one who's always been square, became the center of despising glares when I said NO. “ Stop being such a dork, try it.” I resisted. Soon, everywhere I went, I ran into junkies, all of them acting cool, as if they could kick the habit whenever they wanted to. “At least I'll have something to tell my grandchildren.”, remarked a friend at the height of his delusion. Months later, tired of avoiding the junkie gatherings, I tried it. And, of course, I'm now addicted to Lost.

The problem with addiction is not just that it eats you from the inside out. Pot brings you down, coke fries your brain cells, heroin is so fast you barely know what hit you. This is all well known. However, I've never seen any pot smoker score some ganja for free, much less over the internet. I don't know any cokehead that spends nights elaborating theories about Lostzilla, nor a junkie that gets the shakes from hearing about the screenwriter's strike.

The traditional, Brazilian family isn't ready for these new drugs. No human being should be submitted to periodic doses of Jack Shephard and James "Saywer" Ford, only to be submitted to six months of compulsory withdrawal. Because, there are no rehab clinics for series junkies. I spend hours on the web, searching for a “Lost download”, a piece of information here – Evangeline Lilly (Kate) and Dominic Monaghan (Charlie) are dating in real life - , a bit of gossip there (is the series really going to end in its fourth season?) It's degrading.

Only now that the last season has started in the US, have I discovered how hopelessly dependent I've become. For someone that has seen Lost on DVD, in a marathon that that spanned several weekends, waiting six months for the beginning of the fourth season was murder. But, having to wait a week to watch each one of the last (so they say) episodes... that's just too maddening for words.

I've never been so anxious about Fridays as I am this month: it's when my supplier of pirate episodes kindly airs a pack of files, which when dezipped, magically transform themselves into the Island; and with subtitles. I know it's a vice, but I can stop whenever I want to – although something tells me that I'm only gonna wanna stop at the end of May.

And that's all I have to tell my grandchildren.


Profissão: repórter

auto-retrato durante a fase de TV, segurando um microfone e um bloquinho de anotações
Minha temporada na televisão durou exatamente um ano, tempo suficiente para eu perceber que meu negócio é mesmo o jornalismo escrito e não o falado. Trabalhar num telejornal dá um pique alucinante. Você precisa inventar uma pauta boa, arranjar os personagens, entrevistar todo mundo e botar o link ao vivo em poucas horas. Hoje, é matéria sobre ataque de pitbull; amanhã, alagamento no viaduto; depois, coletiva com o presidente da Fiesp. A coisa não pára nem na madrugada. Fiquei besta em perceber que eu era a única incomodada por tirar as pessoas da cama às 6h ou ligar no celular de um especialista às 23h: de uma maneira geral, todos se prontificavam a falar rapidamente comigo, ainda mais se a matéria fosse ao vivo. Coisa espantosa. Também já fui corrida com minha equipe de um evento, me neguei a fazer entrevistas em velórios, participei de debates políticos. Este desenho, quase um auto-retrato, fiz depois de uma avaliação da fonoaudióloga. "Sua voz é ótima para TV, você precisa só perder o sotaque. Agora, se quiserem que você vire repórter, você vai passar por uma reformulação completa de imagem: alisar o cabelo, mudar essas roupas, mudar esses sapatos. Repórter é uma coisa mais clássica, sabe? Você é alternativa demais para a TV." Ainda bem que, ao menos aqui, posso ser quem eu sou.

Categoria: Egotrip, Televisão, Artes

Fora do ar

– Carol, você ainda tem o contato daquela comunidade que procura mortos na internet?
– Está falando do Profiles de Gente Morta?
– Credo, é assim que chama?
– Ou PGM.
– Que seja.
– Eles estão levantando os perfis das vítimas desde a madrugada de ontem.
– Tem o contato de algum deles?
– Tenho o e-mail do Guilherme Dorta, o garoto que criou a comunidade.
– Coisa mais bizarra, uma comunidade para achar o orkut de quem morreu... Sabe se algum participante é parente das vítimas?
– Não faço idéia, mas uma vez que são 34 mil, deve ter alguém que conhecesse um dos mortos.
– Eu preciso de familiares. Se não botar ninguém chorando no ar, vou acabar sendo demitido.

Ok, essa última frase fui eu que inventei, mas bem que poderia ter sido dita por qualquer um dos jornalistas que me procuraram hoje pela manhã. Quando trabalhei em TV, cansei de ouvir isso cada vez que um repórter era mandado para um velório. Foi por situações como essa e por me negar a incomodar familiares em enterros que eu acabei pedindo demissão. Cansei de ver sensacionalismo render mais audiência que um programa de cultura ou uma reportagem sobre educação.

A primeira coisa que fiz quando soube que o vôo JJ 3054 da TAM estava ardendo em chamas foi ligar a televisão. Se tragédias como essas desestabilizam até mesmo quem nunca pisou num aeroporto, imagine o estrago que são capazes de causar numa redação de TV. São os telejornais os primeiros a passar informações de impacto. E são também eles os que abrem a temporada de caça a familiares, a busca por testemunhas e o leilão por cenas feitas por amadores – ainda que os parentes estejam em choque, as testemunhas falem bobagem e as imagens não acrescentem nenhuma informação relevante, só mais dor e desespero.

Numa hora dessas, todas as equipes de reportagem que deveriam estar gravando outras matérias – o quadro de medalhas do Pan, a campanha de vacinação de idosos, um acidente envolvendo uma carreta tombada na Marginal, uma padaria que faz bolos para cães – foram deslocadas para os aeroportos. Uma área destinada às TVs foi aberta em Congonhas, Cumbica, Santos Dumont e Salgado Filho para que as emissoras estacionem seus caminhões de link e transmitam ao vivo. A repórter retoca a maquiagem. Vai ficar em pé, olhando fixo para a câmera, microfone a postos, até que alguém na redação lhe avise pelo ponto que ela vai entrar em uma hora, meia hora, quinze minutos, faltam cinco, três, dois, um. “É grande a confusão aqui no aeroporto...” São 17h e aposto que ninguém almoçou. Um garoto entra na redação com uma pilha de fitas que lhe cobre o rosto. Alguém na chefia de produção tenta ser atendido pela assessoria da Infraero enquanto segura outro telefone com o ombro e berra instruções com um repórter pelo rádio. Outros três telefones tocam sem cessar. Na pauta, a situação é ainda mais aflitiva. Cada produtor coordena cinco ramais diferentes e todos tocam juntos. Três jornalistas dividem a lista de mortos e começam a busca pelos sobrenomes mais incomuns, os mais fáceis de terem parentes localizados. Por telefone, um pauteiro tenta convencer uma amiga de um amigo do primo de um dos passageiros a passar o endereço da casa do morto. “Pense como se fosse uma homenagem a ele.” Não vai tardar até que as emissoras estejam disputando a tapa um espaço em frente à casa de uma vítima. Já vi repórteres passarem a mão num entrevistado particularmente assediado, enfiarem o rapaz no carro e sumirem com ele para um hotel, até que ele estivesse pronto para sair e ir direto para o estúdio de um programa qualquer. Esse tipo de postura é mais comum do que você imagina.

Para mim, nada disso se parece nem de longe com jornalismo, tampouco com humanidade. Quando for zapear novamente em busca de mais informações sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM, pense no circo que você alimenta pelo simples fato de estar com a TV ligada. Às vezes, sentir-se impotente é a única coisa digna a fazer.

repórteres se acotovelam em busca de mais informações no balcão da TAM


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