A era dos pensamentinhos micros
"Tem gente que pensa que está no armário, mas está numa cristaleira: tá todo mundo vendo..."
Imagine alguém que acaba de descobrir que existe celular, orkut ou, sei lá, TV em cores. Me sinto assim desde que fui apresentada ao Twitter.
"Primeira tarefa ao chegar em casa: molhar as plantas. É o que você ganha quando passa dos 100 vasos. Agora já são 51 orquídeas!"
Tá bom, é mais um site para ver e ser visto. Verdade. Mas o narcisismo tem limite: 140 toques. Só valem pensamentinhos curtos. Como estes.
"Com uma unha de cada cor porque as meninas da redação resolveram testar em mim os lançamentos de esmaltes que acabaram de chegar..."
É como se misturassem o Orkut com o msn e botassem tudo em pílulas. E, como muitos comprimidos, é completamente viciante. Adorei!
"Os pernilongos não me deixam continuar. 34 comentários terão de esperar até amanhã. Licença que eu vou comer founde de queijo no friozinho."
E adoro o potencial que tem: subo links de posts e de comentários respondidos, que encaminho aos autores. Me sinto tão perto das pessoas!
"Acordei com um barulho na varanda. Fui seca achando que era sanhaço e acabei espantando a primeira maritaca visitante. Como é verde, nossa."
Se quiser papear, estou aqui. E já aviso: a próxima Promoção do Post Laranja será maquiavelicamente arquitetada por lá. Me aguarde...
"De tanto jogar Lara Croft com o iTunes no repeat, não posso ouvir Wagner Tiso que fico com vontade de botar shortinho e sair dando tiro..."
A revelação
Tenho um irmão que acabou de chegar na idade do armário, aquela em que os pais têm ganas de trancar seus filhos no guarda-roupas e só tirar depois de acabada a adolescência. No caso dele, esse isolamento nem precisaria ser imposto: ele é um garoto franzino, introvertido, que passa mais tempo na frente do computador do que brincando na rua, o tipo de pessoa com quem você pode conversar sobre Second Life, RPG e DHTML.
Não é que ele não goste da vida em sociedade. Estive em sua cidade recentemente e ele até se sentou conosco para jantar – o que foi muito gratificante para mim, mas não para ele, uma vez que fui eu a cozinheira da noite. A questão é que pouca coisa surpreende um garoto de 16 anos acostumado a viver numa família cheia de mulheres malucas. Se já tiver passado por sua cabeça algo como "será que todas as garotas são que nem a minha irmã", creio que ele terá bons motivos para optar pelo celibato.
Em épocas diferentes de sua vida, meu irmão me viu encher o sutiãn de papel higiênico amassado para ficar mais velha ou usar saia plissada para parecer menininha; implorar de joelhos para um carinha sair comigo e, dias depois, esnobar solenemente o mesmo rapaz; andar de mãos dadas com as amigas e dar risadinhas quando dois homens passavam abraçados; prender a respiração para entrar num jeans apertado, reclamar que não tenho roupas e comprar um jeans menor ainda; chorar de raiva por ter de cuidar do irmão menor, mas liberar o videogame quando ele estava de castigo; entre tantas outras coisas paradoxais e estranhas que as mulheres vivem fazendo.
E, agora, ele sempre está quieto, passa horas no Orkut e no msn e cabula a aula para ir aos cybers cafés. Por tudo isso, como irmã mais velha, estou preparando minha mãe psicologicamente para o dia da revelação, quando, entre uma garfada de frango e uma porção de batatas, ele vai pedir o sal enquanto diz: "MãE, eU Xô MiGuxU".

Fora do ar
– Carol, você ainda tem o contato daquela comunidade que procura mortos na internet?
– Está falando do Profiles de Gente Morta?
– Credo, é assim que chama?
– Ou PGM.
– Que seja.
– Eles estão levantando os perfis das vítimas desde a madrugada de ontem.
– Tem o contato de algum deles?
– Tenho o e-mail do Guilherme Dorta, o garoto que criou a comunidade.
– Coisa mais bizarra, uma comunidade para achar o orkut de quem morreu... Sabe se algum participante é parente das vítimas?
– Não faço idéia, mas uma vez que são 34 mil, deve ter alguém que conhecesse um dos mortos.
– Eu preciso de familiares. Se não botar ninguém chorando no ar, vou acabar sendo demitido.
Ok, essa última frase fui eu que inventei, mas bem que poderia ter sido dita por qualquer um dos jornalistas que me procuraram hoje pela manhã. Quando trabalhei em TV, cansei de ouvir isso cada vez que um repórter era mandado para um velório. Foi por situações como essa e por me negar a incomodar familiares em enterros que eu acabei pedindo demissão. Cansei de ver sensacionalismo render mais audiência que um programa de cultura ou uma reportagem sobre educação.
A primeira coisa que fiz quando soube que o vôo JJ 3054 da TAM estava ardendo em chamas foi ligar a televisão. Se tragédias como essas desestabilizam até mesmo quem nunca pisou num aeroporto, imagine o estrago que são capazes de causar numa redação de TV. São os telejornais os primeiros a passar informações de impacto. E são também eles os que abrem a temporada de caça a familiares, a busca por testemunhas e o leilão por cenas feitas por amadores – ainda que os parentes estejam em choque, as testemunhas falem bobagem e as imagens não acrescentem nenhuma informação relevante, só mais dor e desespero.
Numa hora dessas, todas as equipes de reportagem que deveriam estar gravando outras matérias – o quadro de medalhas do Pan, a campanha de vacinação de idosos, um acidente envolvendo uma carreta tombada na Marginal, uma padaria que faz bolos para cães – foram deslocadas para os aeroportos. Uma área destinada às TVs foi aberta em Congonhas, Cumbica, Santos Dumont e Salgado Filho para que as emissoras estacionem seus caminhões de link e transmitam ao vivo. A repórter retoca a maquiagem. Vai ficar em pé, olhando fixo para a câmera, microfone a postos, até que alguém na redação lhe avise pelo ponto que ela vai entrar em uma hora, meia hora, quinze minutos, faltam cinco, três, dois, um. “É grande a confusão aqui no aeroporto...” São 17h e aposto que ninguém almoçou. Um garoto entra na redação com uma pilha de fitas que lhe cobre o rosto. Alguém na chefia de produção tenta ser atendido pela assessoria da Infraero enquanto segura outro telefone com o ombro e berra instruções com um repórter pelo rádio. Outros três telefones tocam sem cessar. Na pauta, a situação é ainda mais aflitiva. Cada produtor coordena cinco ramais diferentes e todos tocam juntos. Três jornalistas dividem a lista de mortos e começam a busca pelos sobrenomes mais incomuns, os mais fáceis de terem parentes localizados. Por telefone, um pauteiro tenta convencer uma amiga de um amigo do primo de um dos passageiros a passar o endereço da casa do morto. “Pense como se fosse uma homenagem a ele.” Não vai tardar até que as emissoras estejam disputando a tapa um espaço em frente à casa de uma vítima. Já vi repórteres passarem a mão num entrevistado particularmente assediado, enfiarem o rapaz no carro e sumirem com ele para um hotel, até que ele estivesse pronto para sair e ir direto para o estúdio de um programa qualquer. Esse tipo de postura é mais comum do que você imagina.
Para mim, nada disso se parece nem de longe com jornalismo, tampouco com humanidade. Quando for zapear novamente em busca de mais informações sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM, pense no circo que você alimenta pelo simples fato de estar com a TV ligada. Às vezes, sentir-se impotente é a única coisa digna a fazer.

Uma piada, por favor!
Em resposta a um leitor particularmente desprovido de inteligência, O Pasquim publicou: "Por que você escreve tanto pra gente, hem? És uma anta!". Isso em 1972, em plena ditadura militar. Trinta e cinco anos depois, quem esperava mais liberdade de imprensa após os anos de chumbo se lascou – taí o Roberto Carlos, que não me deixa mentir. A turma do politicamente correto vem patrulhando a internet em velocidade 2.0. Não demorou para virem parar por aqui.
Hoje pela manhã, alguém postou um link para um post velhérrimo que escrevi sobre gatos-vaquinhas, os gatos de pêlo preto e branco. Em poucas horas, recebi um comentário reclamando que o texto era de mau-gosto e, numa comunidade, passaram a discutir a validade ou não do post. Logo divulgaram meu profile no Orkut e, de lá para cá, a história vem se desdobrando com recadinhos acalorados no meu scrapbook.
Quanto mais o texto ganha essa tardia e surpreendente repercussão, mais eu acho que o mundo está realmente louco. No afã de serem politicamente corretas, as pessoas perdem o humor e cometem barbaridades, como chamar criança com Síndrome de Down de "aluno portador de necessidades especiais", termo que evoluiu para "aluno especial". Se fosse mãe, processava a escola que chamasse meus filhos de alunos não-especiais.
O mais engraçado da coisa é que ainda tem gente discutindo quais gatos podem entrar para o panteão dos cowcats. Uma participante da comunidade chegou a comentar que nem todo bichano preto-e-branco é vaquinha. "Os pretos/brancos com predominância de preto são frajolas." Ah, bom.
Saudade do tempo em que Coiote dinamitava Papa-Léguas, Pica-Pau fumava e Tom e Jerry viviam às turras. Nunca foi tão sério fazer humor.

O sacrifício de Knut
Ele é branco, fofinho e brincalhão, mas nenhum desses atributos parece ter comovido sua mãe: com apenas três meses, Knut foi rejeitado. Essa poderia ser uma das centenas de histórias que acontecem na vida selvagem, diariamente, não fosse o fato de Knut viver num zoológico de Berlim – e ser de um urso polar, espécie sempre no topo do ranking de animais ameaçados de extinção.
Não bastasse o fato de ser um enjeitado, Knut vem gerando uma impressionante polêmica. Quem atirou a primeira pedra foi o ativista de direitos dos animais Frank Albrecht, que em entrevista ao maior jornal alemão disse que “domesticar um urso polar não é apropriado” e que Knut ”deveria ter sido morto”. Estamos a poucos dias dessa declaração e já há 195 brasileiros em comunidades como Salvem o Knut ou NÃO ao Sacrifício de Knut.
Certa vez, perguntei ao oceanógrafo Hugo Gallo, do Aquário de Ubatuba, por que não eram devolvidos ao mar os pingüins-de-magalhães, espécie típica do Chile e da Argentina e que volta-e-meia aparece no litoral brasileiro. “Esses indivíduos são fracos, muito jovens, muito velhos ou doentes. Seriam excluídos da natureza de qualquer jeito. Por isso, não os devolvemos", ele me explicou. Só nos casos desencadeados pela ação do homem – como derramamento de óleo ou poluição das águas – é que esses animais são tratados e reintegrados à natureza. Alguns especialistas não concordam com essa postura, por isso, volta-e-meia os pingüins-de-magalhães são deportados para seus países de origem e pateticamente reintroduzidos na natureza.
Quando se trata de espécie ameaçada de extinção, no entanto, manter o patrimônio genético é mais importante. Concordo com o veterinário do zoológico de Berlim: Knut não pode ser sacrificado.









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