Janela verde
Esqueça aquela imagem de passarinhos namorando ou esvoaçando alegremente na primavera: na minha varanda, não tem nada desse negócio de pombinha branca da paz. Desde que as maritacas resolveram bater ponto diariamente à partir das 6h, o que mais vejo são os bicudos brigando.
Num desses perrengues, três maritacas monopolizaram a latinha de sementes de girassol e não deixavam uma quarta nem chegar perto. A loser tentava por um lado, tentava por outro, mas era sempre rechaçada. Resolvi bolar um comedouro maior, de preferência raso e bem comprido para abrigar garras e bicos afiados bem distantes uns dos outros.
Improvisei com um suporte de ferro para floreiras: ele segura um grande prato retangular de jardineira, que, por sorte, coube certinho na parte inferior. Com isso, consigo puxá-lo do suporte como se fosse uma gaveta, para limpar as casquinhas de sementes antes de reabastecer o restaurante. A novidade foi recebi com euforia pelas verdinhas, como se vê neste sem-fim de asas e rabos.
Hoje, no meio do pegapracapá, vi uma cabecinha desmilinguida disputando as sementes no grito. Corri para avisar Omblogsman: "Temos uma maritaca-bebê!". Ainda sonado, ele checou o bicudo e disse, espantado, que já tinha visto um desses na nossa varanda. "Achei que era uma maritaca doente... Parece meio leprosa, né?".
De fato, a coisa parece ter saído andando de uma macumba: as asas já estão verdes, mas o peito e a cabeça ainda têm aquela plumagem indecisa de quem mal saiu do ovo. E, com uma olhada mais atenta, descobri que há outro bebê, digamos, mais bem acabado.
A julgar pelo ritmo da renovação, minha janela ficará cada dia mais verde...
Notícias da varanda
Eu esperei o final de semana chegar para aproveitar a boa previsão do tempo e fazer fotos melhores dos passarinhos da varanda. São Pedro se redimiu dos sábados chuvosos e domingos melancólicos mandando dois dias lindos, de céu azul e muito calor. Coloquei mamão, caprichei na banana, enchi potinhos de alpiste e sementes de girassol, até os bebedouros deixei com água fresquinha. E esperei, a câmera à mão para pegar o primeiro farfalhar de asas. Passou a manhã do sábado, a tarde foi baixando e as frutas permaneceram intocadas. Domingo só não foi mais broxante porque o passaredo deu os bicos no final da tarde, mas a luz já estava sumindo e lá se foram minhas fotos com céu azul...
Tudo isso para explicar porque estão tão fraquinhas as fotos que posto aqui. Mas a culpa nem sempre é do tempo: alguns passarinhos são tão ariscos que não consigo nem fazer foco e eles já se foram, caso deste simpático bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) se refestelando no mamão.
Maritacas (Brotogeris tirica) também não gostam de muita proximidade, mas como estão sempre em bandos barulhentos, consigo ouvi-las a tempo de preparar o flash. Quem adivinhar quantas maritacas têm na foto abaixo ganha um girassol!
Outro que avisa antes de aparecer é o sanhaço (Thraupis sayaca), este simpático passarinho azul (o macho tem penas azuis e a fêmea, acinzentadas). Ele dá uns gritinhos de alegria quando vê a comida, faz uma festa. Mas come pouquinho e zarpa logo, detesta a muvuca das rolinhas.
Já esta minusculeza atende pelo nome de papa-banana (Coereba flaveola), a versão nano quase perfeita do bem-te-vi. Apesar do nome, nunca o vi comendo fruta: ele só quer saber de néctar, inclusive das flores que tenho na varanda. Tem um trinadinho que parece um "tik", igualquenem os indianos faziam na novela.
Este mocinho com pinta de valente se chama pássaro preto (Gnorimopsar chopi). Começou a aparecer sozinho, xeretando a comida das rolinhas, e agora vem em gangue, já vi até cinco deles juntos.
Um dos pássaros-preto costuma ficar na grade, fiscalizando a movimentação na avenida. Deve ser o bedel da molecada. Saem altos paus entre eles e as rolinhas (apesar de parecerem mais bravas, quem sai perdendo são sempre elas...).
Falando nas rolinhas (Columbina talpacoti), repare na cara de dó desta aqui. Fotografei num daqueles dias feios que não dá vontade de sair da cama. Ventava tanto que ela mal se mexia.
E como vida de passarinho não é moleza, nem na hora de comer as rolinhas têm trégua: quando não estão brigando entre si ou com outro bicudo, precisam ciscar com um olho no pires e outro na fotógrafa. Como esta aqui, o retrato da desconfiança.
Por fim, deixo aqui um beija-flor desconhecido. Folheei minha edição de Aves Brasileiras e Plantas que as Atraem, do Dalgas Frisch, mas não achei nem um pio sobre este discreto bicudo. Como ele não deixa chegar muito perto, nem tenho como saber se a plumagem é preta ou aquele esmeralda bem beijafloral que só aparece no sol.
Entende agora por que gasto 1 mamão formosa, 1,5 kg de sementes de girassol, 12 bananas e 10 kg de ração para canário por semana?
De castigo
Hoje acabou o castigo das rolinhas.
Depois de nove meses oferecendo quantidades cada vez maiores de alpiste, painço, niger, senha e outras sementes de nomes engraçados, vi que os passarinhos ficaram seletivos. Da misturinha que eu comprava pronta e acabava em segundos, os bicudos começaram a separar o painço.
Como todas as rações prontas têm painço, passei a comprar as sementes a granel. Dois dias depois, vejo as rolinhas jogando toda linhaça para fora. O canteiro ficou cheio de semente. Tanto passarinho passando fome na Praça da República e as rolinhas da minha varanda desperdiçando comida? Com o perdão do trocadilho infame, fiquei uma arara e suspendi o rango por duas semanas.
Dava dó ver as coitadas encolhidinhas na grade, esperando o PF. Resisti a pios e olhares pidões. Se estivessem com fome, que comessem linhaça. Às vezes, uma ciscava o chão, driblando estrategicamente as sementes. Quando encontrei uma orquídea revirada, resolvi ceder: a fome não as faria comer linhaça, mas perigava transformar em lanche os grãos de lesmicida que eu espalhei nos vasos.
Hoje, voltei à ração pronta. Enquanto escovava os dentes, ouvia o disque-disque do passaredo. Saí para dar uma olhada no refeitório e o chão era só pena. Eita, passarinhos barraqueiros, sô!
Polaroid doméstica
Você me pergunta se está tudo bem com minha "família que transcende espécie, filo, reino". Eustáquio está fazendo uma surpresa pra mamãe, mas como toda criança, não consegue fazer a coisa lá muito escondida: em breve, terei flores da minha planta carnívora primogênita.
Ronaldo, o gato temporário mais fixo de toda a história, ganhou uma dona, mas só deve voltar das férias na minha casa no ano que vem, quando está prevista a estréia da carreira extra-uterina de minha irmã. Até lá, tenho de amassar esse gato três vezes ao dia e esquentar suas orelhas a cada 12 horas. Prescrições médicas.
A prole residente está entrosada com o firangi – claro que isso não inclui Omblogsman, que adotou a técnica de invisibilidade do Ronaldo, método que tem se mostrado bem-sucedido até o momento.
Estou terminando os livrinhos prometidos aos ganhadores da última edição do Post Laranja. Nunca imaginei que doeria tanto reescrevê-los. Primeiro, tenho de driblar o momento não-acredito-que-escrevi-isso. Depois, preciso conter a gana tenho-de-corrigir-esse-texto. Vencidas essas etapas iniciais, há a fase putaqueopariu-que-letra-horrível e vou-amassar-isso-e-começar-de-novo, culminada pela crise existencial pare-de-gastar-papel-sua-irresponsável. No fim, tudo se resolve até que eu chegue ao momento final, quando meus dedos dóem tanto que a letra começa a ficar relaxada, me levando de volta à etapa três.
Junto com isso tudo, tem o trabalho na revista, os amigos velhos e os recém-adquiridos, gafieira, salsa, crises de enxaqueca cada vez mais frequentes e a contagem regressiva para viajar. Ah, claro, e a megasurpresa que estou preparando para o aniversário do Guindaste. Opa. Isso não era pra falar. Melhor eu parar por aqui.
Beijo,
Carol
PS: Quem disse que e-mail não pode virar post? Valeu pela ajuda, João Veiga!
Carta a um adotante
Você viu a foto do Ronaldo e deu um suspiro, "puxa, ele seria perfeito para minha casa". Aí, leu sobre o pisão do cavalo e a outra vida que ele perdeu e me escreveu pedindo mais informações. E eu, que não li seu e-mail, recomendo: não adote o Ronaldo.
É isso mesmo. Você não está preparado para ele. Não agora, que sua casa está do jeito que sempre sonhou, com os móveis garimpados pouco a pouco e as estantes decoradas por bibelôs de viagem. Tudo o que você não precisa é de um gato adolescente, de pernas longas, rabo inquieto e bigodes curiosos, metendo-se em tudo que é vão de móvel, caixa aberta e fresta de porta.
Não, ninguém merece abrir a porta para pegar o jornal e ter de buscar seu pet dois andares abaixo, enchendo o roupão de pêlos enquanto a criatura possuída protesta para descer. Aliás, você não vai querer encontrar pêlos em suas roupas, nem um fio desavisado apontando na borda da xícara de leite. Nem tomar o café da manhã com unhas cutucando sua coxa insistentemente, até que se pegue o demônio no colo. Falaí, comer com um gato amassando pão no seu colo é horrível. Quem precisa passar por isso todas as manhãs?
E o que dizer de ver TV? Porque bastará você se sentar no sofá para a peste subir na mesinha de centro e desfilar com o rabo em pé, na frente das legendas. Já vou dizendo: não vai adiantar nada tirar o gato da mesinha. Porque ele vai escalar o aparador, subir no seu toca-discos que é relíquia de família, pular no aparelho de som e de lá, para a TV, onde um rabo repentinamente aparecerá sobre a tela. Não, é melhor não adotar o Ronaldo.
Se ele fosse um bom gato, tudo bem. Mas que bicho de boa índole já teria gasto duas vidas em apenas cinco meses? Está claro que ele exigirá grandes esforços para não ir parar debaixo de um carro, do outro lado do muro ou em cima da árvore do vizinho. Sem falar que ele necessita de três amassadas bem dadas por dia, com cafunés no pescoço e aquecimento total de orelhas — gasta-se mais de quinze minutos só para esquentar aquelas orelhas!
Ninguém suporta uma praga bulindo com suas pernas, passando o focinho úmido nos tornozelos e dando uma lambida, língua de lixa, no vão recém-descoberto entre os sapatos e a calça. Você vai acabar tropeçando nele quando se virar bruscamente. E terá de desviar para não tropeçar de novo na próxima virada. Porque ele o seguirá como sombra: estará à porta quando você chegar podre do trabalho ou se levantar ainda sonolento para mais um dia cheio. E não lhe receberá com festinhas, porque isso é coisa de cão, e você, justo você, se interessou por um gato.
Quando estiver triste e quiser abraçá-lo, será rechaçado. E ficará sentado no chão, chorando baixinho porque nem seu bicho de estimação quis saber de suas lamúrias. Ele lhe ignorará quando você buscar sua companhia e lhe dará as costas quando chamá-lo pelo nome. Só se aproximará quando tiver vontade e escolherá a parte mais desconfortável para deitar, sobre seus joelhos, quiçá em cima de um estômago cheio. Você tentará mudar de posição, mas, num golpe baixo, ele ronronará e se espreguiçará, as costas em arco, para depois recolher lentamente a cauda e voltar ao sono. Já imaginou passar uma hora com um gato quente, pesado e ronronante sobre sua barriga? Posso atestar, é insuportável.
Então, pense bem. Não adote o Ronaldo. Depois que você se apaixonar será muito mais difícil mudar de ideia.









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