O aspirador de pó
O trator da limpeza de 1,50 m irrompe no escritório rumo à varanda, com balde, vassoura, rodo, pano, escovão, aspirador de pó e... Êpa, aspirador de pó? Fui pé ante pé ver o que a Val estava aprontando quando a flagro, bravíssima, em cima do bebedouro dos passarinhos, dando golpes no ar com a mangueira do aspirador de pó.
– Val?
– ...
– Val! Vaaaaaal!!!
– Chamou, Carol?
– Deeeesliiiiga o aspiradoooor, Vaaaaal!
– Ah, é!
– Val, o que raios você está fazendo com o aspirador, mulher?
– Chupando as abelhas, Carol.
– !
– Você não disse que o beija-flor morre se for picado por abelha? Tô vendo o bichim na maior agonia, voando aqui e ali, mas ele não consegue chegar perto do bebedor porque tá com abelha.
– Val, não vá me dizer que você está chupando as abelhas com o aspirador de pó...
– Ah, tô sim, e já faço isso desde a semana passada. Não reparou que as abelhas deram uma sumida?
A impostora
– Você é virginiana?
– Sou. Você também?
– É. De que dia?
– 12.
– Ulha, eu também! É virgem beeeem virgem, né? Revistas organizadas por ordem de tamanho, livros com lombadas alinhadas...
– Embalagens com o rótulo para a frente, guarda-roupa dividido por cor. Vem ver minhas meias.
– Wow! Nunca pensei em usar a palheta de Newton para organizar as cores... Muito científica sua gaveta de meias. As minhas estão na ordem do arco-íris.
– E como você resolveu o lugar das pretas e brancas?
– Não compro.
– Boa.
– E sei onde está cada peça de roupa, grampo de cabelo ou remédio.
– Ah, eu também. Consigo fazer minha mala de viagem ditando para alguém pelo telefone: "Pega o pente na segunda gaveta do banheiro, do lado esquerdo, atrás da caixinha de elásticos; o biquini na terceira gaveta da cômoda, no meio, entre a canga e os cachecóis..." e assim vai.
– E a carteira?
– Arrumo por valor.
– Notas maiores atrás, certo?
– Ah, lógico. E bichos virados pra frente.
– Bichos virados pra frente?
– É. Do maior pro menor, com bichos virados pra frente.
– Impostora!
Na torcida inimiga
— Filha, você ainda está com aquela coisa da carne?
— Tô, mãe. Ainda sou vegetariana.
— Ah...
— Por quê?
— É que eu fiz umas brajolas para te levar. Lembra, filha, aqueles bifes a rolê que você adorava? Que vivia pedindo para eu fazer?
— Sei.
— Aqueles bifes cheirosos, que você ainda fazia questão que eu enchesse com bacon, lembra?
— Hã-hã.
— Que eu passava a tarde toda enchendo para você e depois tirando a linha, para eles não se desembrulharem enquanto cozinhavam...
— Para, mãe! Isso é golpe baixo! Por que você está me dizendo isso?
— É que eu anotei aqui no meu calendário que hoje faz um ano que você parou de comer carne.
— Sério? Pra quê?
— Ah, filha, é que eu me importo muito com suas conquistas.
— Faz de conta que eu caio nessa.
— Ok, eu e sua irmã fizemos uma aposta de que você não aguentaria um ano. Quer dizer, ela apostou um mês, mas como eu sei que você é cabeça-dura, chutei um ano.
— Sabia! E se ferraram, porque eu continuo tão vegetariana quanto no dia 2 de abril de 2008, lálálálálááááá!
— Não seja infantil, Carolina.
— EU? Vocês duas jogam baixo nas minhas costas, tramam contra meus esforços, boicotam a natureza e ainda tenho de ouvir que eu sou criança?!?
— Vai dizer que não ficou com água na boca?
— Sacanagem, mãe!
— Eu só penso no seu bem, filha! Vai acabar com anemia desse jeito!
— Olha aqui, dona Maria: eu nunca estive tão saudável em toda minha vida. Me sinto disposta, estou com todos os exames de sangue em dia e minha digestão nunca foi tão maravilhosa, tá?
— Você morre de saudades, né?
— Morro.
— Eu sabia. Mas não vai comer mais, né? Hoje, por exemplo, é um bom dia para se comer um bife a rolê da mamãe.
— Não.
— Droga, perdi mesmo a aposta...
PS: Post em homenagem à Denise Rangel, que vai experimentar 30 dias como vegetariana. Está no quarto dia e quase pulou no pescoço de um aluno. Dê, há vida após o bife, eu juro!
O bebê lindo da Filó
Antes que você pense coisas erradas a meu respeito, saiba que não, eu não sou uma pessoa que fala com plantas. Aliás, nem com bichos, exceto quando a criatura é um gato gordo e teimoso que insiste em me acordar de madrugada. Eu e os outros seres vivos não humanos nos comunicamos até que bem – mas sem palavras.
Quando a Filomena chegou, achei que as coisas continuariam como sempre foram. Mas, depois de duas semanas se preparando para sua estréia no mundo, um botão da orquídea finalmente abriu. Assim, bem na minha cara. Foi como se eu fosse a única testemunha de um milagrinho banal da natureza.
Peguei o vaso da Filó e levei a mocinha para uma ducha caprichada, com direito a lavar até atrás das orelhas, er, digo, folhas. E foi nessa empolgação que fui descoberta, de repente, pela moça do café.
– Você estava falando com a planta?
– Eu?
– É. Entrei e ouvi alguma coisa sobre "o bebê lindo da Filó"...
- Filó? Que Filó?
– Ahhhh, ficou com vergonha! Não precisa, eu também falo com as plantas.
– Não conta pra ninguém?
– Fica fria.
– Ai, que bom... Então, vamos embora, Filó. Diz tchau pra moça.
Chacoalhei a ponta de uma folhinha e fomos embora.
Galináceos - 2
Enquanto percorria as gôndolas do pet shop, vislumbrei algo ligeiramente estranho no final de um corredor. Era um grande galo branco, com penas até as patas e crista púrpura. Estava empoleirado na barra de um carrinho de compras, mexendo a cabeça daquele jeito puladinho das pombas.
Um senhor apareceu de trás de um grande saco de ração para pássaros. Soltou um grunhido mau-humorado. Perguntei se o bicho era bravo, mas assim que ele respondeu “é”, a mulher dele apareceu fazendo carinhos no galo, que se esforçava para não cair do carrinho.
– Imagina se o Ferdinando é bravo, né, meu amor?
– Ulha, e ele tem nome!
– Tem sim, é um galo muito educado. As crianças ganharam na escola, ainda pintinho. Achei que ia morrer, mas ele cresceu e ficou super apegado à gente...
– E não faz sujeira?
– Faz! – resmungou o marido.
– Não! – respondeu a senhora, ao mesmo tempo. – O Ferdinando é bem limpinho, né, Fê? E adora meus filhos: quando eles se trancam no banheiro, o Fê fica na porta, arranhando com o pé. Se deixar, ele toma banho junto com as crianças!








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