No farol, à direita
Dirijo consultando o guia a cada semáforo vermelho. “Hmmm, agora é só seguir reto que essa rua vai cair direto na Radial Leste...” Faz sol e eu tenho todo o tempo do mundo para cotar preços. As coisas começam a dar errado quando a rua que deveria cair na Radial não cai: vejo, com pesar, a tal da avenida ir ficando mais e mais alta, até que faz uma alça graciosa à esquerda e some de vista. Enquanto isso, a rua em que eu estou fez uma curva acentuada à direita e me manda para a Liberdade.
Andar de carro em São Paulo é coisa para profissionais. Sem o menor sentido de direção, uma motorista sem noção como eu se perde na primeira esquina. Decidida a não dar o braço a torcer, paro no primeiro posto que encontro. “A senhora precisa dobrar à direita no primeiro farol, à direita de novo e já vai ver placa para a Radial.” E é claro que eu faço tudo certinho, não vejo nenhum sinal de placa e acabo indo parar de novo na frente do posto. O frentista me olha desconfiado. Abro o vidro: “Não tem placa, moço!”.
Ele me explica tudo de novo, como se a repetição do trajeto fosse me fazer fixá-lo e acertar o caminho. “Direita, direita e segue placa. Não tem erro!” Agradeço e tento mais uma vez. Direita, direita, anda um pouco, nada de placa, bifurcação. E agora? Atrás de mim, o motorista do ônibus buzina impaciente. Dobro à direita e passo de novo em frente ao posto. O MESMO posto. O frentista conversa em pé com dois colegas. Me vê e acena de longe. Acho melhor não parar desta vez.
Quase duas horas e três tentativas frustradas depois, consigo pegar a Radial Leste e chegar à loja, para descobrir, em cinco minutos, que a viagem não serviu para nada. Na volta, me perco outras duas vezes e vou parar no Centro quando queria ir é para a Zona Oeste. Faz pocinha em volta dos olhos onde os óculos escuros encostam na pele. Minha blusa está encharcada de suor e meu desodorante não dá conta do vidro fechado sem ar condicionado. Um motoqueiro me xinga, putíssimo, nem sei que infração cometi.
Quero minha mãe!
Como num cartão-postal
Quem passa por ali logo cedo, não acredita que se trata da mesma praça dos casaizinhos apaixonados, das rodinhas ao redor do violão, dos fãs do pôr-do-sol. A paisagem matutina era tão diferente da que conheço ao final da tarde que pensei ter entrado na rua errada.
Na calçada, quarenta, cinqüenta rolinhas disputavam com três pombas perdidas as últimas migalhas de quirela de milho. Feliz da vida, um labrador segura sua própria guia na boca, o rabo oscilando de um lado para o outro como um pêndulo animado. Ao lado, o dono, trotando no ritmo dos atletas da terceira idade, com seu calção azul e o agasalho fechado até o pescoço. Mal avista os pássaros, o labrador desiste de se auto-conduzir e sai em desabalada carreira. As rolinhas voam todas para os fios elétricos.
Estou terrivelmente atrasada para o trabalho, mas não consigo recusar o convite de uma pausa. Desço do carro e quase sou atropelada por um grupo de crianças em uniforme escolar vermelho, correndo como uma manada em época de estiagem. Atrás, vem a esbaforida professora, praguejando enquanto sobe a ladeira, “Devagar, crianças! Devagar! Esperem a tia!”.
Uma senhora vestida de branco passa empurrando um carrinho e arrastando um beague cansado, as orelhas do cão envoltas numa toalha para não arrastarem no chão. A toalha está no avesso, aperto os olhos para ler “ossergorp e medro”. Nunca pensei nessa utilidade para a bandeira pátria. Os cachorros somem de vista, as crianças entram no ônibus – “Calma, meninos, calma! A tia vai contar vocês para ver se não esquecemos ninguém”. A praça fica imersa em silêncio. O sol brilha sobre os prédios, se reflete em carros e vidraças, o ar tem cheiro de grama cortada. É como um cartão-postal com cheiro, mas sem som nenhum.
Então, as maritacas resolvem descer das árvores...
Piquenique no Estilingão
Meu primeiro trabalho de faculdade foi fazer uma reportagem sobre o almoço na Paulista. Como o tema fosse tão abrangente quanto o recordista de redações escolares, "minhas férias", convidei alguns amigos para fazermos um piquenique no canteiro central da avenida, bem em frente ao prédio da Gazeta. Em minutos, nosso grupo inicial contava com um mendigo, duas meninas de rua, outros estudantes que passavam por ali e um bando de curiosos. Sobre a toalha estendida no chão, os clássicos bolo de chocolate e o suco de groselha Milani.
Onze anos depois, um dos amigos do piquenique na Paulista me convida para participar de um novo piquenique. Desta vez, precedido por uma bicicletada, hoje, às 9h, na Ponte Estaiada — aquele trambolho que botaram em cima do rio Pinheiros para deixar a Marginal ainda mais assustadora. "Será embaixo do Estilingão", diverte-se ele. Debaixo? Isso mesmo. A ponte que custou R$ 275 milhões não é para o bico de pedestres e ciclistas. Aliás, nem ônibus poderão circular nela.
E ainda dizem que é uma obra de arte da engenharia. Para mim, está mais para instalação, isso sim.
Checklist brazuca
– Manda Tang. Se achar de limão, melhor. Tenho um amigo que mora em Boston e chora quando recebe meus malotes com Tang dentro.
Nunca estive fora do Brasil tempo suficiente para suspirar por Tang de limão, mas não sobreviveria nem um mês num país que não tivesse brigadeiro. Minha amiga Tati, há três meses na Itália, me ligou desesperada, dia desses. A vida em Modena vai bem, os vinhos são ótimos e as paisagens maravilhosas, mas ela anda infeliz porque não encontra leite condensado em canto nenhum. “Ai, Cá, você não pode me mandar um pouquinho, tipo, umas 197 latas?”, disse ela, em desespero.
Brazucas espalhados por esse mundão levam uma dura vida alimentar. Meu professor de espanhol, que comentava comigo sobre o Tang de limão, me disse que ainda abandona as aulas para abrir uma exportadora de feijão preto. “É um pertence de feijoada difícil de encontrar, mais até do que a carne seca”, exagera.
E eu, que sonho em morar um tempo em Barcelona, vou começar já meu estoque de Chicabon, garapa, Sete Bello, goiabada, Toddy, jujuba, Guaraná Jesus, pastel de feira, manteiga Aviação...
Risolis, mocotó e outras tosqueiras
Mal entro no posto, vejo uma prateleira repleta de pesadas flores de pano, coloridas e sorridentes. “Para quê serve isso?”, pergunto à mocinha atrás do balcão, visivelmente entediada. “Peso de porta.” Fico imaginando que tipo de avó vai achar o máximo ganhar uma margarida de pelúcia de 5 kg com os dizeres “Com essa vovó ninguém tira onda”.
Eu adoro posto de beira de estrada. Quanto menor o lugar e mais longe das capitais, melhor é o sortimento de compotas caseiras, bibelôs toscos e engenhocas absolutamente desnecessárias – por R$ 64, você leva para casa um açucareiro "automático", com um sensor que abre a tampa quando detecta um movimento.
Todo posto chinfrim que se preze tem uma boa oferta de cachaças, mas só é um autêntico pé sujo se tiver a tradicional garrafa de pinga com uma cobra dentro. Nunca vi ninguém pedir “por favor, me vê uma dessas com a cobra”, mas isso não tira o encanto da coisa. Ovo colorido, pizza ressecada e risolis brilhante são outros clássicos de beira de estrada.
Gosto particularmente da maneira como o tempo flui nesses lugares. É como se fossem portais do tempo, onde modismos só entram pela capa da Caras – sempre a antepenúltima edição. Sequilhos, pimenta caseira e geléia de cidra dividem as prateleiras com cestas de pedrinhas coloridas, miniaturas em vidro e camisetas com desenhos de coqueiros e um “Lembrei de Você!!!” estampado numa plaquinha. Enquanto caminhoneiros e famílias se acotovelam no balcão, crianças tiram fotos montadas em um boi feito de fibra de vidro em tamanho natural.
Da última vez em que estive num paraíso desses – numa estradinha poeirenta dos rincões de Minas Gerais –, quase levei um Doce de Mocotó Mocoforte. Era uma daquelas tranqueiras açucaradas que só criança consegue comer, cortada em pedaços tingidos de branco e pink. Custava R$ 2,90 e o pacote trazia um desenho de um homem bigodudo mostrando os músculos do braço. Já estava no caixa quando resolvi dar uma conferida nos ingredientes de tão nutritiva iguaria: açúcar, gelatina, corante artificial vermelho bordeaux S e aromas artificiais de toff, caramelo, baunilha, leite e morango. Até agora me arrependo por ter desistido da compra.
PS: Meu condomínio faz, hoje, um ano. Parabéns, Interney Blogs – e amém Edney!








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