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É sopa!

Calvin e Mafalda se tornaram célebres pelo show que dão à mesa: Calvin acredita piamente que sua comida verde – sempre verde – pode se insurgir a qualquer minuto, enquanto Mafalda chama de “formação de quadrilha” o que todos nós conhecemos por sopa. Depois de ler “Arte de Cozinha”, da jornalista especializada em gastronomia Cristiana Couto, só posso imaginar que os dois personagens de HQ estão reclamando literalmente de barriga cheia.

Se vivesse no Brasil em 1840, ano de publicação do primeiro livro de cozinha por estas bandas, Mafalda teria muito mais com que se preocupar do que com a reunião de legumes, água e temperos. O livro “Cozinheiro Imperial”, por exemplo, traz 111 tipos de caldos, com nomes realmente inspirados. Fico imaginando como seria a consistência do Caldo para Defluxos Catarrais. Que cor teria o Caldo Amargoso para Todas as Moléstias do Peito e Vômitos? E o que dizer do Caldo para Vapores e Flatos que Sobem à Cabeça? De uma coisa eu tenho certeza: nem Calvin em seus melhores momentos gastronômicos seria capaz de imaginar um Caldo de Rãs e Caracóis para Tosses Secas. Esse deve ser verde MESMO.

Falando sério: há anos, Cris Couto vem se debruçando nos livros de receitas portugueses e brasileiros dos últimos três séculos. Graças a esse trabalho minucioso, hoje, temos um vislumbre de como eram os cardápios das elites, como os temperos foram introduzidos na nossa alimentação e quais as grandes descobertas que as viagens científicas fizeram, ao entrar em contato com a culinária nativa. O tema, que foi sua tese de mestrado, agora é transformado no livro "Arte de Cozinha", da editora Senac. O lançamento é hoje, na Livraria da Vila (al. Lorena, 1.731, São Paulo), a partir das 19h. Será que vão servir caldos?

três quadrinhos de Calvin, em pé de guerra com seu prato de comida verde


As armadilhas do Tóbe

Por mais que os departamentos de RH alardeiem vagas ao sol apenas para quem domina o idioma do tio Sam, passei por poucas situações em que não saber inglês tenha me enchido de raiva ou vergonha. Até já havia me acostumado ao fato de que eu e Tóbe nunca nos entenderíamos. Depois de nove anos de insistência, como explicar que eu continuasse sem entender por que raios I am, you are e he is se, afinal, o verbo é be? Tente dizer a um americano I be a god person e vai sentir na pele o que estou falando. Anybody be coisa nenhuma.

Nos últimos dez anos, venho me especializando em escapar ilesa de armadilhas cada vez mais ardilosas para pegar monolíngües. Numa revista de educação em que trabalhei, volta e meia eu precisava do depoimento de um professor da mais importante escola estrangeira da atualidade. Tinha de pedir autorização para três chefes diferentes, assinar cinco protocolos e fazer ligações internacionais sofisticadíssimas, mas esse era todo o trabalho que tinha, porque a escola fica no único outro país cujo idioma eu domino perfeitamente bem. Portugal.

Não vou me estender e falar das incontáveis vezes em que fiz cara de paisagem quando um editor me pedia para “pegar umas aspas” com determinado entrevistado e eu descobria, com antecipada auto-comiseração, que o e-mail do sujeito não tinha br no final.

Até hoje, a situação mais constrangedora que vivi foi ter sido editora da Folha sem saber um quarto idioma – porque inglês e espanhol, francamente, era o mínimo que esperavam de mim. Cada vez que encontrava um colega de redação disposto a me encaminhar um artigo, eu suava frio imaginando se o texto viria em esloveno, iídiche ou mandarim arcaico. Por sorte, pude contar com subeditores bonzinhos e pacientes o bastante para me ouvirem ler uma frase inteirinha do tal artigo, isso sem rir nem implorar para que eu parasse.

E, agora, dois acontecimentos abalam meu patriotismo e me fazem lamentar cada past continuos não conjugado. É que acabo de receber a décima primeira edição de “Bone”, a deliciosa saga das criaturinhas brancas, fruto da mente ensandecida de Jeff Smith. Eu deveria ficar feliz em saber que a Via Lettera está empenhada em traduzir todos os 55 livros da série, mas isso me faz lembrar da dinheirama que eu gastei importando o “Bone – On Edition”, na ingênua esperança de que seria capaz de ler meia dúzia de frases em inglês enfiadas em balõezinhos e acompanhadas de milhares de desenhos.

As coisas pioraram ainda mais quando, no mesmo dia, passei os olhos pela seção de quadrinhos de uma livraria e vi, meu deus, foi demais para um só dia, vi a obra completa de Calvin e Haroldo numa edição de luxo. Custa R$ 415, mas eu roubaria e me prostituiria para pagar o triplo ou quádruplo – se estivesse em português, é claro. Já não basta para minha auto-estima em frangalhos ter de esperar 2028 para ler o último “Bone” e, agora, mais essa.

Não sei o que eu fiz de errado, mas o Tóbe me odeia.

capa do Bone 11, com a sombra do grande tigre Rojão e os personagens da saga em primeiro plano, escalando uma montanha


Quem vai ao cinema na faixa

Desde o último domingo, o Guindaste participa da promoção da Blogger's Cut para levar um leitor à pré-estréia do Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Ganhava quem fizesse a resposta mais criativa para a pergunta

QUAL SUPERPODER VOCÊ GOSTARIA DE TER PARA PEGAR A MULHER INVISÍVEL?
ou, na versão feminina
QUAL SUPERPODER VOCÊ GOSTARIA DE TER PARA PEGAR O TOCHA HUMANA?

Quem vai ao cinema de graça aqui no Guindaste é o Thiago, que apostou no "poder do abdomen sarado" para pegar a Mulher Invisível, encarnada pela ultra-malhada Jessica Alba: "Toda mulher sonha com isso!!! Somos homens objetos!!!". Thiago, dá uma conferida no seu e-mail para pegar as instruções para hoje à noite.

Alguns vizinhos de Interney Blogs também fizeram suas versões da promoção: no Bar do Edney, o desafio era inventar um superpoder para o próprio Interney, que seria um quinto Fantástico; no Hedonismos, os internautas criaram um superpoder para o Barba, mascote do blog; no Filmes do Chico, o lance era, a partir de uma foto, imaginar os superpoderes e a frase de ativação de mais um elemento; e no Enloucrescendo e no Virunduns, ganhou quem primeiro ofereceu uma carona pro Ian e pra Marina.

Marcolino, obrigada pela idéia para a promoção. Omblogsman, obrigada pela ajuda na escolha do vencedor. Leitor, participando ou não, valeu pela visita! Eu, que me diverti lendo as propostas e os comentários gerais, tenho só um pedido: temos que fazer isso mais vezes.


O saguão amazônico

ilustração em preto e branco, feita com lápis e nanquim com imagem de saguão de hotel, com duas grandes escadas de cada lado, que se encontram em arco nomezanino
Mais um pedacinho da HQ que não aconteceu, feita a quatro mãos com o Lucas Lima. Aos poucos vou lembrando da história que queríamos ilustrar: se passava na Amazônia, tinha algo a ver com Chico Mendes, não lembro bem o quê. Esta cena fazia parte do início da história, era o saguão do hotel. Adoro essas grandes escadarias em arco que o Lucas fez, ele é ótimo com cenários. Composições cheias de detalhes, como esta, nunca foram meu forte. Como a ilustração é grande, tive que escaneá-la em partes, por isso, há algumas falhas do lado esquerdo.

Categoria: Quadrinhos, Artes

A HQ que nunca aconteceu

ilustração com os personagens Sara Zimner, de taileur e bolsa, e o detetive Maurício, com um cigarro na boca e cara mau-humorada
Quando era adolescente, namorei um rapaz desenhista de mão cheia. Ele passava horas em frente ao portão da minha casa redecorando a calçada: ele me desenhava levando meu irmão para passear no carrinho de bebê, coisa que eu amava fazer. Adorava aquelas ilustrações-xaveco e deu no que deu, acabamos namorados. Foi o Lucas quem me ensinou que desenho tem que respeitar algumas proporções básicas, que traço precisa ter firmeza e que, sim, é possível receber por segundo (ao menos quem trabalha com animação). Achei esta ilustra nas minhas coisas e fiquei feliz em ter guardado um desenho feito a quatro mãos. Eram os personagens que tínhamos bolado para uma história em quadrinhos que nunca foi finalizada. Ele é o Maurício, um detetive experiente e mau-humorado; ela, a Sara Zimner, uma jornalista esperta e doida por um furo de reportagem.

Categoria: Quadrinhos, Artes

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