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Uma garota entre 62.999 metaleiros

Eu sabia que tinha falado demais assim que terminei a frase, mas meu irmão já pulava e dava socos no ar, então, não havia mais nada a fazer a não ser levar o moleque no bendito show. Sobrevivi a três meses de preparativos, com um adolescente fanático me mandando a lista completa de músicas, com letras que variavam de temas macabros a, bem, temas macabros. Era só o começo.

No fatídico dia, quando os portões do inferno deveriam ter se aberto às 14h, eu amargava cinco horas de fila e tudo o que podia ver eram mais e mais penetras na minha frente. O coro dos descontentes virou horda incontrolável e, no meio do empurra-empurra, enfim, conseguimos entrar no autódromo. Com a pancada de chuva que me pegou desprevenida na fila, o gramado era um barro só — que eu, mais míope que nunca, só notei depois de enfiar até o tornozelo na lama. Ainda bem que meu irmão me impediu de ir de sandália.

Em minutos, tudo deu errado: as pessoas se atropelavam, gente caía no chão e a massa de garotos cabeludos vestidos de preto ia se espalhando pelo lugar. Agarrei meu irmão pelo pulso e escalei uma rampa protegida por pilhas de pneus – um lugar de visibilidade

E foi assim que eu, com toda essa minha postura heavy metal de ser, assisti ao show que entraria para a história do Iron Maiden: cansada, com fome, suja e tiritando de frio, passei três horas com as pernas abertas sob uma pilha de pneus, sem saber um refrão sequer — e me divertindo como nunca!

Categoria: Culinária, Música

Herminices*

Eu nunca tinha tido um amigo poeta até conhecer Hermínio. E, por mais que tivesse uma idéia prévia de como se dá uma relação dessas — quem sabe permeada por rimas sinuosas e mudanças repentinas de humor —, nossa amizade nunca foi um clichê.

Ainda que sejamos próximos, Hermínio nunca me mandou uma rima sequer. Sua poesia está nas pequenas coisas. Quando o conheci, ele usava um pijama de inverno azul cheio de listinhas coloridas — bem o tipo de roupa que um artista vestiria para receber alguém em casa pela primeira vez. Anos mais tarde, comentei do tal pijama. “Foi presente de um casal de amigos”, ele respondeu. Uma semana depois, recebi uma caixa com o pijama dentro — não um pijama igual, novo ou do meu tamanho, e sim O pijama do Hermínio, lavado, passado e uns cinco números maior do que eu usaria.

Hermínio adora dar presentes. De outra feita, me mandou um sedex com sapatilhas de balé surradas e um pé só de uma bota de cano curto. Dourada. Masculina. “Vi num brechó e achei a sua cara”, escreveu ele, num bilhete maroto.

Este Hermínio, dado a repentes e presentinhos malucos, só existe entre amigos. Mas todos os outros Hermínios Bello de Carvalho podem ser conhecidos no Acervo HBC, um site que acaba de lançar na net toda obra do compositor, produtor cultural e homem de muitas graças. Passei uma tarde inteira fuçando nas gavetinhas de lá e, enfim, encontrei o Poeta.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


Diagnóstico e cura

Só quando uma mulher passou rindo é que me dei conta de que eu estava um pouco fora de mim. Com meu dedo-batuta, eu regia uma orquestra invisível e cantava e balançava a cabeça e fechava os olhos enquanto cantava. Puro êxtase.

É que, dias atrás, fuçando meus CDs, lembrei do arrebatamento que Edith Piaf me causava quando adolescente. Época em que ainda não existia o contador de reproduções do iTunes. Esse, sim, eu descobri recentemente: o programa sabe direitinho quantas vezes você ouviu as músicas que estão armazenadas nele. Cada uma! Que computador mais esperto, sô! Deve ser treinado...

O contador serviu para me mostrar que sou oficialmente obsessiva. Sou capaz de passar uma tarde inteira ouvindo a mesma música, baixá-la no celular e ouvi-la enquanto caminho e ainda sonhar com ela. Senão, vejamos. Sous Le Ciel de Paris eu já ouvi 97 vezes. Milord, 78, empatada com Padam. La Foule vem logo atrás, com 75 reproduções. Isso porque eu encontrei os CDs há dois dias. Se continuar nesse ritmo, chego aos quatro dígitos em uma semana.

Não sei o que desperta minha obsessão. Às vezes, é um bemol – adoro bemóis. Pode ser uma estrofe inspirada, como em Desconsolo (134 reproduções), na voz de Monica Salmaso, “E vou lastimar/ Lastimar profundamente/ Tudo que eu fui e não sou mais”. Ou como em Novamente (128 reproduções), de Nei Matogrosso “Não há limite no anormal/ É que nem sempre o amor/ É tão azul”. A questão é que não basta ouvir a música: tenho de botá-la no repeat dezenas de vezes até que letra, melodia e cada mínimo acorde grudem no córtex cerebral.

A psicanálise diz que reconhecer a psicose é o primeiro passo para a cura. O segundo é definir um limite máximo de reproduções de uma mesma música no iTunes: 157 num mesmo mês. E não se fala mais nisso.


Inclassificável

A cortina se abre e a luz vai surgindo lentamente, revelando os instrumentos, um a um, e um grande sofá pink. Uma sombra se levanta. É Ney Matogrosso. Com penas azuis grudadas a um macacão de paetês prateados. E um capacete. De lantejoulas. Não tenho palavras para descrever o que é ver, pela primeira vez ao vivo, um homem de 67 anos abanando os braços e mexendo o quadril enquanto canta "Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher/ Sou as mesas e as cadeiras desse cabaré".

Quatro músicas depois, ele troca o capacete por um capuz cheio de pedraria e tira a parte de cima do macacão justérrimo – deus sabe COMO ele conseguiu entrar naquilo sem a ajuda de umas três pessoas. O peito está tomado por pinturas tribais que devem dizer algo como "mim purpurina, você cara pálida". Mais algumas músicas e ele tira o macacão todo. Jisuis, a bunda do Ney Matogrosso é dura! E está mais em forma que a do Zé Celso.

Há anos eu aguardava para conhecer o que todos dizem ser Ney Matogrosso em uma fase bem Ney Matogrosso. Ao que parece, nas últimas turnês ele andavam comportado – ouvi rumores, até, de que cantava vestido. Essa gente invejosa, diz cada coisa...


Quando a sereia canta

Valendo um Dipn’Lik sabor uva: quem é a cantora que faz dueto com Helio Zinskind na “Marchinha da Sereia”, música que a TV Cultura eternizou no programa Glub-Glub, no final dos anos 90? Vale até buscar no libreto do CD “Meu Pé, Meu Querido Pé”, porque Tatiana de Souza – uma garotinha de nove anos, bochechuda e cheia de cachinhos –, hoje, atende por Tati Parra. O tempo passou, o cabelo alisou, mas a voz afinadíssima e clara continua a mesma.

Tati Parra é daquelas cantoras que, se não tivessem atendido ao chamado do talento, mereceriam uma surra. Ela até chegou a cursar três anos de psicologia, mas não nasceu com dom para ouvir badtrip alheia – já bastam as suas! – e logo mudou o repertório. Resolveu estudar piano e música. É bem verdade que ainda está se acostumando à carreira independente: depois de anos como backing vocal de Sandy & Junior, ela agora se dedica a projetos autorais e, para alegria da platéia, muito mais interessantes que os desenvolvidos pelos irmãos nhé-nhé-nhém.

Sua voz é tão límpida e versátil que permitiu que Tati participasse de trabalhos bem variados: além de fazer jingles para a TV, ela já gravou com Theo de Barros, Chico Pinheiro, Omara Portuondo, Dante Ozzetti e Toquinho.

Hoje, Tati Parra pisa no palco do Tom Jazz pela primeira vez com um show solo. Está confiante. E não é pra menos: além de levar consigo músicos de primeiro escalão – André Mehmari (piano), Conrado Goys (violão), Sergio Reze (bateria) e Neymar Dias (viola caipira e contrabaixo) –, ela vai cantar um repertório saboroso, que inclui Chico Buarque, Guinga, Radamés Gnattalli e Astor Piazolla, além de canções inéditas de Mehmari e Chico Pinheiro. A partir das 22h, você pode conferir como é o canto de uma sereia dona de suas próprias pernas.

De olhos fechados, Tati Parra solta a voz
Tati Parra solta a voz em foto de Pipo Gialluisi

Categoria: Música

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