Janela verde
Esqueça aquela imagem de passarinhos namorando ou esvoaçando alegremente na primavera: na minha varanda, não tem nada desse negócio de pombinha branca da paz. Desde que as maritacas resolveram bater ponto diariamente à partir das 6h, o que mais vejo são os bicudos brigando.
Num desses perrengues, três maritacas monopolizaram a latinha de sementes de girassol e não deixavam uma quarta nem chegar perto. A loser tentava por um lado, tentava por outro, mas era sempre rechaçada. Resolvi bolar um comedouro maior, de preferência raso e bem comprido para abrigar garras e bicos afiados bem distantes uns dos outros.
Improvisei com um suporte de ferro para floreiras: ele segura um grande prato retangular de jardineira, que, por sorte, coube certinho na parte inferior. Com isso, consigo puxá-lo do suporte como se fosse uma gaveta, para limpar as casquinhas de sementes antes de reabastecer o restaurante. A novidade foi recebi com euforia pelas verdinhas, como se vê neste sem-fim de asas e rabos.
Hoje, no meio do pegapracapá, vi uma cabecinha desmilinguida disputando as sementes no grito. Corri para avisar Omblogsman: "Temos uma maritaca-bebê!". Ainda sonado, ele checou o bicudo e disse, espantado, que já tinha visto um desses na nossa varanda. "Achei que era uma maritaca doente... Parece meio leprosa, né?".
De fato, a coisa parece ter saído andando de uma macumba: as asas já estão verdes, mas o peito e a cabeça ainda têm aquela plumagem indecisa de quem mal saiu do ovo. E, com uma olhada mais atenta, descobri que há outro bebê, digamos, mais bem acabado.
A julgar pelo ritmo da renovação, minha janela ficará cada dia mais verde...
Na natureza selvagem*
— O que é que você tanto fotografa aí no chão?
Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma mancha na parede e que tirava fotos dela. “De uma mancha?”, ele disse, já me tendo por louca. Sorri de novo. “Elas ficam lindas numa tela, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.
Meu amigo Cárcamo é perito em fazer esse tipo de coisa aparentemente estranha. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele alimentou por meses: queria pintar uma natureza morta se inspirando nos tons da fruta em decomposição. Já vi aquarelas maravilhosas que ele produziu observando como a terra se infiltra pelas paredes e vai tingindo-as de limo.
Esse meu interesse nesses sinais do tempo é puramente estético. Gosto de fotografar a gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca a umidade deixa nas pedras, toda a paleta de verdes que tingem a ferrugem. Para mim, é como se a natureza deixasse claro que não é tão submissa assim à ação do homem e que, cedo ou tarde, cada carro, prédio e rua sucumbirá ao mato.
Ok, é um pouco assustador. Mas não deixa de ser lindo.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
A colecionadora*
Há três anos que eu coleciono portas e janelas. Como qualquer obsessão, essa também é cheia de restrições: só valem as coloniais, daquelas de ripa de madeira e maçaneta de ferro, adornadas por um batente colorido. Numa visita a Tiradentes, fiz tantas imagens que as pessoas começaram a me olhar estranho cada vez que eu me aproximava de uma casa. Devo ter virado atração turística.
Matinhos simpáticos também são tema de coleção. Sempre adorei a gana com que essas plantinhas se grudam às paredes, a astúcia que usam para forrar buracos e frestas, o desespero que têm ao surgir do meio de pedras, nos solos mais pobres e pisados. Minhas preferidas são aquelas samambainhas bem com cara de mato, as rainhas da resiliência, capazes de sobreviver a pisadas de vaca, dentadas de cavalos, falta ou excesso de água e a uma porção de pragas. Ô, plantinhas guerreiras, sô!
Passo tanto tempo fotografando o chão que, claro, volta e meia trombo em postes, erro a rua ou chego atrasada ao trabalho. Devo ser figurinha recorrente para quem coleciona pessoas distraídas.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
As roupas invisíveis
Da próxima vez em que estiver numa banca de jornal, pegue uma revista de moda aleatoriamente e folheie. A despeito das diferenças editoriais entre Elle, Vogue, Estilo e similares, é possível ver uma tendência única, presente dos bastidores dos desfiles aos ensaios badalados: as roupas invisíveis.
Pode olhar nas letrinhas pequenas que aparecem ao lado da modelo com olhar de paisagem – lá, no cantinho da página, no meio de um efeito de gelo seco ou dentro de um detalhe de cenário desfocado, sempre há uma peça ou acessório que exige um pouco da sua imaginação. É a “sandália de lezard, Louis Vuitton, R$ 2.900” escondida sob a barra da calça, o “cinto de couro, Verano, R$ 69” que não se vê debaixo da camisa ou a “microbolsa de couro e tachas, Jamin Puech, R$ 2.120”, macro só no preço, que não aparece na foto.
Os acessórios são os campeões de invisibilidade, o que é curioso, já que o mundo fashion vive pregando que eles são “poderosos” e dão um “up no seu look”. O que me impressiona é a riqueza de detaques com que alguns são descritos, numa tentativa de facilitar as coisas para a sua imaginação. Que tal escolher a “bolsa de jacquard, Christian Dior, R$ 2.940” pela alça? Ou perambular com uma “gola de pluma de cisne, Reinaldo Lourenço, R$ 493” semelhante a um borrão preto? De “ankle boots, Equus, R$ 200” de meio centímetro aparente a “brincos, Fiszpan, R$ 39” soterrados por esvoaçantes madeixas, peças inteiras de um figurino simplesmente somem.
Espero que a epidemia não chegue a meu guarda-roupa. Já é bem difícil decidir o que usar do pouco que consigo ver.
O rei dos xavecos

Você se machucou quando caiu do céu? Qual é o caminho mais curto para o seu coração? Essa calça é de astronauta? Não? Puxa, sua bundinha é de outro mundo. Pode esquecer esses xavecos baratos. Para ganhar um calendário do Genésio pin-ups em trajes mínimos, você vai ter que caprichar na cantada infame.
Até as 24 horas do dia 24, os xavequeiros de plantão podem arriscar uma cantada para uma das garotas do calendário. Os três piores xavecos – aqueles tão infames que você não teria coragem de fazer pessoalmente nem por decreto – ganham um calendário das pin-ups autografado. Mas atenção: só valem os xavecos deixados na caixa de comentários deste post.
Desta vez, os próprios leitores vão votar e escolher o pior dos piores. Eu e as outras pin-ups só entramos em caso de empate. Do jeito que tem mulher bonita nesse calendário – Bruna Caram, Verônica Ferriani, Elisa Paolucci, Beatriz Rivato, Thalma de Freitas, Bia Góes, Ailin Opitz, Marina Minervino e Luana Ozzetti –, vai ser difícil escolher quem xavecar.

Da esq. para a dir., de cima para baixo: Bruna, Verônica, eu, Elisa, Thalma e Bia Rivato

Da esq. para a dir., de cima para baixo: Guete, Marina, Ailin, Luana, Bia Góes e Piki
PS: Antes que as leitoras do Guindaste reclamem, ainda não fizeram uma versão masculina do calendário. Igualdade de direitos, já!








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