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Uma garota entre 62.999 metaleiros

Eu sabia que tinha falado demais assim que terminei a frase, mas meu irmão já pulava e dava socos no ar, então, não havia mais nada a fazer a não ser levar o moleque no bendito show. Sobrevivi a três meses de preparativos, com um adolescente fanático me mandando a lista completa de músicas, com letras que variavam de temas macabros a, bem, temas macabros. Era só o começo.

No fatídico dia, quando os portões do inferno deveriam ter se aberto às 14h, eu amargava cinco horas de fila e tudo o que podia ver eram mais e mais penetras na minha frente. O coro dos descontentes virou horda incontrolável e, no meio do empurra-empurra, enfim, conseguimos entrar no autódromo. Com a pancada de chuva que me pegou desprevenida na fila, o gramado era um barro só — que eu, mais míope que nunca, só notei depois de enfiar até o tornozelo na lama. Ainda bem que meu irmão me impediu de ir de sandália.

Em minutos, tudo deu errado: as pessoas se atropelavam, gente caía no chão e a massa de garotos cabeludos vestidos de preto ia se espalhando pelo lugar. Agarrei meu irmão pelo pulso e escalei uma rampa protegida por pilhas de pneus – um lugar de visibilidade

E foi assim que eu, com toda essa minha postura heavy metal de ser, assisti ao show que entraria para a história do Iron Maiden: cansada, com fome, suja e tiritando de frio, passei três horas com as pernas abertas sob uma pilha de pneus, sem saber um refrão sequer — e me divertindo como nunca!

Categoria: Culinária, Música

Pedir, repetir, tripetir

Durante toda minha infância, a frase que mais ouvi foi: “Come mais um pouquinho, filha...”. A despeito da comida perfumada e saborosa de minha mãe, eu e meus irmãos demos muito trabalho para comer. Tive uma fase pró-feijão; aí, mudei, só queria saber do caldo; meses depois, comia os grãos bem escorridos e deixava no prato várias cascas sem feijão, rabinhos de feijão e outras espécimes que não passassem por meu controle de qualidade. Minha frescura durou até que minha mãe se enchesse e passasse a bater o feijão no liquidificador.

Por conta disso, cada vez que eu ou meus irmãos repetíamos um prato, minha mãe faltava só estourar rojão. Com o tempo, aprendi a preparar minha própria comida e deixei de nove-horas — afinal, um cozinheiro valoriza o que preparou porque sabe a trabalheira que deu para fazer.

As coisas iam bem, comigo repetindo pratos ao menos uma vez por semana, até que levei um namorado para comer em casa. Para quem comia dois Big Mac no café da manhã e tomava gemada antes de dormir, repetir era a coisa mais óbvia do mundo. Vi o moço encher o prato de arroz, feijão, brajolas e fritas, numa dimensão jamais experimentada em casa. Do outro lado da mesa, a montanha de pedreiro escondia o rapaz, que só abria a boca para enfiar o garfo. Quando minha mãe preparava seu bordão do “come mais um pouqui...”, ele já estava no segundo prato. Eu e minha irmã nos entreolhamos em silêncio enquanto observávamos o segundo prato sumir e dar lugar a um terceiro prato.

Do que concluo duas coisas: a) repetir é um elogio, mas tripetir exige preparo psicológico; e b) namorados precisam descobrir que facas têm utilidade, sob o risco de acabar o relacionamento. O meu não chegou à sobremesa.


Trocar o prato

Eu mal tinha acabado de comer a entrada, o garçom já estava com as mãos no meu prato.

– Ei!
– Vou trocar o prato, senhora.
– Mas eu não quero que troque.
– Por quê?
– Eu é que pergunto: por quê tenho de trocar o prato?

Pela cara de surpresa dele, era a primeira vez que alguém lhe fazia aquela pergunta.

– Um minuto que eu vou perguntar ao maitre.
– Mas deixe meu prato aqui!
– Sim, senhora.
...
– O maitre mandou dizer que trocamos o prato para que a senhora possa comer num prato limpo.
– Eu não quero prato limpo.
– Não?!?
– Não. Quer dizer, eu queria, quando comecei a comer. Mas você vai gastar água e detergente para lavar um prato que ainda está em uso.
– Mas a senhora acabou de comer.
– A salada! Está vendo o caldinho? Você já comeu arroz por cima do caldinho da salada?
– Não, senhora.
– Por favor, pare de me chamar de senhora. Pois então, arroz com caldinho fica uma delícia!
– Então, a senhora, quer dizer, você quer que eu sirva a guarnição nesse prato sujo?
– Veja bem, ele não está sujo. Está com caldinho, o que é bem diferente.
– Entendi.
– Não, você não entendeu.
– Não?
– Não. Vamos colocar a coisa assim: quando você vai comer na casa da sua mãe. Sua mãe cozinha bem?
– Muito bem.
– O que ela faz melhor?
– Ah, de tudo... Feijoada. Macarronada. Buchada...
– OK. Digamos que você vai comer uma macarronada na casa da sua mãe. Domingão, família reunida em volta da mesa, aquela macarronada linda. Você troca o prato?
– Que prato?
– O prato que você usou para comer a salada. Quando você passa para a macarronada, troca o prato?
– Como assim?
– Você não come salada?
– Como.
– Depois, não se serve de macarronada?
– Não.
– Como não?!? Você acabou de falar que sua mãe faz macarronada!
– Ela faz. Eu é que não como tudo separadinho, que nem fazem aqui no restaurante.
– Tudo separadinho?
– É. Primeiro, uma torradinha, depois, uma saladica de nada, depois, uma sopinha sem gosto, depois um bife que mal tapa o buraco da cárie...
– ...
– Minha mãe faz comida reforçada.
– “Reforçada”?
– É. Não tem essa coisa de vir tudo pouquinho. Vem um monte de comida. E a gente faz aquele pratão gostoso, com salada, arroz, macarrão, pão...
– Wow. Tudo junto?
– Tudo junto.
– Ahhhh, por isso você não troca o prato...
– Isso. Mais uma garrafa de vinho?
– Por favor. Na MESMA taça.


O pecado é doce

Quando era criança, o maior castigo que minha mãe poderia me dar era me deixar sem sobremesa. Bastava a simples menção da palavra “pudim” para que eu irrompesse em lágrimas. Mas essa açucardependência vem de mais cedo ainda: quando comecei a comer papinha, só abria o hangar para doces. Minha mãe espertamente descobriu isso e colocava a pontinha da colher no açúcar, para me fazer engolir aviõezinhos de frango com brócolis.

Vinte e nove anos depois, é bem mais difícil ludibriar meu paladar.
Agora, caio em tentação por sobremesas mais elaboradas do que papinha de carne com goiabada (santodeus, mãe, como você pôde fazer isso com uma criança inofensiva?). E como pecar não é o bastante, aqui vai o mapa para as delícias da cidade:

Trufas Fritas — Casa Europa
Al. Gabriel Monteiro da Silva, 726, Jardim Paulistano, tel. (11) 3088-3044
Os caras são especialistas em gostosuras redondas: os bombons de mandioquinha servidos de entrada também são uma delícia. Mas as bolinhas mais cobiçadas são as trufas fritas de chocolate, acompanhadas de sorvete de café.

Carolinas de Taperebá — Genial
R. Girassol, 374, Vila Madalena, tel. (11) 3812-7442
Um dos mais famosos doces franceses ganha aqui uma versão brazuca, com sabor do Norte. O taperebá, uma fruta de polpa macia e gosto meio azedinho, combina perfeitamente com as carolinas crocantes e o chocolate morno que vem na calda. Para comer de joelhos.

Brigadeiro com morango — Brigadeiro
R. Padre Carvalho, 91, Pinheiros, tel. (11) 3813-6656
A casinha pequena esconde um balcão de delícias de tirar até monge do regime. O brigadeiro, que dá nome ao lugar, aparece em várias versões, mas não deixe de provar a que vem com um morango e-nor-me dentro. Bendito seja o cara que inventou essa combinação.

Tarte Tatin – Deli Paris
R. Harmonia, 484, Vila Madalena, tel. (11) 3816-5911
Nesta simpática padaria-bistrô, a torta de maçãs tipicamente francesa é uma das sobremesas mais pedidas. Longe daquele exagero de massa das american pies, a tatin é pura fruta e calda caramelizada.

Torrone de Chocolate — Genésio
R. Fidalga, 265, Vila Madalena, tel. (11) 38126252
A solução para a Lei Seca vem na forma de uma fatia de chocolate mole com amêndoas inteiras, acompanhada de uma bola de sorvete de creme e uma irresistível calda com damascos em pedaços. Acaba com a bebedeira em segundos.

Short Cake — Spot
Al. Ministro Rocha Azevedo, 72, Cerqueira Cesar, tel. (11) 3284-6131
É o requinte do exagero: não bastasse ser um mousse de chocolate, vem com chantilly, um biscoito fininho de amêndoas e, claro, calda de chocolate. Uma overdose e tanto, ideal para acabar com a TPM.

Categoria: Cotidiano, Culinária

Vai uma taça de curral?

Giz, talco, cânfora, tabaco, verniz, telhas: tem gente que sente esses e outros cheiros ainda mais estranhos ao fungar dentro de uma taça de Chardornay ou Malbec.

“Fresco, com muita evolução, aromas de carne crua, fumaça, carvão e mato molhado”, escreve o enólogo ao avaliar um Barbaresco de R$ 332. Um Barolo Ornato Pio Cesare ganha “toques de couro antigo, madeira antiga e herbáceos; final longo frutado”. Vai ver, foi o dono de um antiquário que entornou os canecos antes de descrever a bebida. E o meu preferido: “Elegante, aroma animal, curral, apimentado e carvão com retro-olfato de lápis”. Pérai, vinho com cheiro de lápis de cor já é demais. Aposto como a vinícola fica numa reserva florestal da Faber Castells.

Ok, eu posso entender que alguém seja surpreendido por aromas bizarros ao tomar um tinto, mas o que faria uma criatura desembolsar um salário mínimo para beber um troço que cheira a churrasco? Ou que lembra uma criação de porcos? Ou ainda que cheire a material escolar?

O que mais gosto ao ler os comentários dos críticos é das licenças poéticas – suspeito que fruto de umas doses a mais no sangue. Ou mais alguém acha que é possível um pouco de uva fermentada cheirar a pão-de-ló, maçã ao forno, brioche fresco, geléia de morango, caju doce, caramelo? E o que dizer de um vinho que é descrito como “divertido”? Você bebe e começa a fazer piadinhas sobre a safra, é isso?

E eu achando que vinho tem gosto de uva com álcool. Quanta ignorância.


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