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Ninho vazio*

Este é meu último vôo de Voadeira. Achei que seria mais fácil escrevê-lo depois de uma fase de silêncio, mas passados dois meses de meu último post, continuo tão travada quanto antes.

Queria escrever algo tocante, capaz de transmitir a você o mesmo carinho que recebi de cada leitor ao longo destes ano de Voadeira. Um texto profundo, talvez poético, algo quente e doce como bolinho-de-chuva. Algo que lembrasse você de que, sim, nós podemos voar!

Mas eu detesto despedidas.

Então, só posso agradecer sua acolhida neste ninho tão gostoso que foi Voadeira. Continuo dando meus rasantes por aqui, ali, ali e acolá. Fico na torcida de que a gente se encontre e voe juntos, mais uma vez!

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


Na natureza selvagem*

— O que é que você tanto fotografa aí no chão?

Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma mancha na parede e que tirava fotos dela. “De uma mancha?”, ele disse, já me tendo por louca. Sorri de novo. “Elas ficam lindas numa tela, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.

Meu amigo Cárcamo é perito em fazer esse tipo de coisa aparentemente estranha. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele alimentou por meses: queria pintar uma natureza morta se inspirando nos tons da fruta em decomposição. Já vi aquarelas maravilhosas que ele produziu observando como a terra se infiltra pelas paredes e vai tingindo-as de limo.

Esse meu interesse nesses sinais do tempo é puramente estético. Gosto de fotografar a gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca a umidade deixa nas pedras, toda a paleta de verdes que tingem a ferrugem. Para mim, é como se a natureza deixasse claro que não é tão submissa assim à ação do homem e que, cedo ou tarde, cada carro, prédio e rua sucumbirá ao mato.

Ok, é um pouco assustador. Mas não deixa de ser lindo.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


Coluna do meio*

— Tem Lollo?
— Lollo?
— É. O chocolate da vaquinha.
— ...
— Da vaca amarela. Aquele de pacotinho azul, com uma vaca amarela.
— Moça, não tem nada com vaca aqui, não.
— Mas eu sempre compro aqui... Costuma ficar atrás de você, perto do Suflair... Ah, olha lá! É aquele azul!
— Esse? Milkbar?
— Ai, esqueci que agora ele chama assim...
— Agora? Ele sempre chamou assim. E não tem vaca, moça.
— É, né?
— É. Eu te disse que não tem chocolate com vaca.
— Mas tinha! Vinha uma vaquinha amarela nele, super fofa! Parecida com a zebrinha da Loteria.
— Zebrinha?
— Coluna do meio! Não lembra?
— ?
— Nossa, nunca me senti tão velha...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


Pano pra manga*

Desde criança que eu adoro um pano. Uma das lembranças mais antigas de minha infância é de quando minha mãe me levava com ela à modista — o nome vintage para costureiro, que é vintage de estilista.

Dona Odete morava num prédio com elevador pantográfico, o que já me garantia cinco minutos de alegria. Enquanto minha mãe conversava sobre cortes e prazos, eu me jogava nas pilhas de retalhos, me escondia no meio dos rolos de tecido e, não raras vezes, saía chorando, um alfinete espetado na perna.

O tempo passou, mas pouca coisa mudou na minha paixão por panos. Ultimamente, dei para encapar qualquer coisa com eles: caixas, molduras de espelho, fundos de gavetas, capas de cadernos. Sem ter o que presentear a uma amiga, forrei um vaso dos mais simplórios com um tecido lilás floridinho e plantei uma muda de arruda, erva que traz sorte e espanta mau-olhado. Enfeitei com uma larga fita de veludo verde pistache e fiz um cartãozinho à mão. Ela amou.

Com pano ou não, chique, hoje, é botar as mãos à obra e fazer um presente artesanal. No mínimo, você garante algumas horas longe do estresse e do consumismo. Experimente!

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


Invejinha básica*

Quando perguntadas sobre o que invejam nos homens, nove em cada 10 mulheres costuma dizer que é a mordomia de poder mijar em pé. Algumas comentam sobre utilidades mais nobres para o membro viril. Uma minoria responde que não há nada que gostaria de ter que já não tenha, como se vê, uma mentira descarada. Nada?!? Nem andar sem camisa em dia quente? Nem ter pêlos no buço e ser considerado sexy? Nem ser cuidado como bebê só por causa de uma gripe? Francamente, que falta de criatividade...

Eu adoro ser mulher, mas é claro que gostaria de curtir alguma vez uma dessas exclusividades masculinas. São características bacanas, mas ainda não valem à pena abrir mão de ser menina. O que me faz realmente fritar de inveja não é ter pêlos no rosto, peito liso ou algo balançando entre as pernas — é ter nascido sem um GPS natural.

Tem dúvida? Pegue uma mulher e um homem e mande-os a um lugar que eles não conhecem. Ela vai dirigir com prudência, parar a cada posto de gasolina para pedir informações e chegar direitinho no lugar. Já ele vai se perder pelo caminho porque não quis perguntar nada para ninguém, vai dar luz alta para o carro da frente “que não anda” e, em pouco tempo, chegará ao lugar. Peça que repitam a operação daqui um ano: ela fará tudo de novo, mas ele, não. Desta vez, ele acertará de primeira. E ainda chegará 15 minutos antes.

Esse mundo é muito injusto...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


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