Falha na CPU
Tenho uma memória notável para guardar informações inúteis. Aos seis anos, li num livro infantil – num livro infantil! – que os lemingues são os únicos roedores que cometem suicídio coletivo. Nunca mais esqueci, ainda que jamais tenha visto um lemingue sequer. Sei de cabeça pelo menos cinqüenta raças de cachorros, possivelmente, mais de cem. De gatos, decoro poucas raças, porque, afinal, siameses ou persas, eles vão me ignorar de qualquer jeito.
Também tenho um ouvido musical estranho, capaz de identificar trechos semelhantes de músicas diferentes, mesmo que uma seja uma sonata de Mozart e a outra, um chorinho de Maurício Tapajós. Só não posso me gabar da minha capacidade de guardar letras, afinal, ela não acontece sem dor: tenho que ouvir a música dezenas de vezes até decorar cada estrofe. Ainda bem que mp3 não fura.
Para quê serve uma memória dessas? Não tenho a menor idéia. Muito melhor seria decorar datas históricas, fórmulas químicas ou mesmo trechos inteiros de livros, o suprasumo da supermemória. Acontece que o cérebro que guarda nomes de flores de maneira tão prestativa é o mesmo que esquece capitais de países, teorias filosóficas, notações científicas, fórmulas químicas, expressões triviais em inglês. Nomes de pessoas que acabaram de se apresentar. Leiteiras no fogo.
Para se ter uma idéia do estado da minha CPU, por 15 anos consecutivos, eu esqueci o aniversário da Tati, amiga desde 1990 (ela fica doida comigo até hoje, mas eu lembro da data os outros 364 dias do ano, juro). Raramente recordo o que comi no almoço, mas decorei um jogo americano inteiro do Mc Donald´s que trazia 50 dicas sobre reciclagem e meio ambiente.
E tenho calafrios só de pensar no dia em que um detetive bater em minha porta e perguntar coisas como "O que você fez na madrugada de 06 de dezembro de 2001" ou "Onde você estava na noite passada". Minha memória será a culpada.

Flawed CPU
I have an incredible memory for useless information. When I was six years old, I read in a kid’s book – in a kid’s book! – that lemmings are the only rodents that commit collective suicide. Even though I’ve never even seen a lemur, I never forgot it. I know at least fifty breeds of dogs by heart, possibly, more than one hundred. Of cats, I know less because, after all, Siamese or Persian, they’ll ignore me anyway.
I also have a strange ear for music, capable of identifying similar parts of different songs, even if one is a sonata by Mozart and the other, a “chorinho” by Mauricio Tapajós. I cannot, however, brag about my lyric-memorizing abilities, for it’s never painless: I have to listen to the same song dozens of times until I can commit all the words to memory. Thank god Mp3s don’t wear out.
What is a memory like this for? I have no clue. It would be far better to be able to memorize historical dates, chemistry formulas or even whole excerpts from books, the cream of super memory. It just so happens that the brain that memorizes names of flowers in such a useful way is the same that forgets capital cities, philosophical theories, scientific notations, chemistry formulas, trivial expressions in English. Names of people I’ve just met. Milk warming on the stove.
An example of what my CPU is like: for 15 consecutive years I’ve forgotten Tati’s birthday, a friend I’ve had since 1990 (she still gets angry at me, but I swear I remember it the other 364 days of the year). I rarely remember what I had for lunch, but I memorized an entire Mc Donalds’s tray sheet, which had 50 tips on recycling and environment on it.
And it gives me the shivers just thinking about the day a detective is going to knock on my door and ask me things like “Where were you in the early hours of December 6, 2001?” or “Where were you last night?”
TPM - 3

Xí, a casa caiu de vez! Eu sei, você fez tudo o que era possível para evitar um confronto direto. Disse "sim, querida" no tom mais neutro possível, andou na ponta dos pés, até evitou respirar enquanto estava por perto dela. Mas você esqueceu de que pensamentos podem ser muito irritantes. Tem coisa que incomoda mais do que imaginar que a pessoa ao seu lado está pensando, assim, sem controle nenhum? Agora, ela está furiosa e você vai ter que ter MUITO jogo de cintura para desemburrar a menina. Você vai dizer "calma, meu bem", e ela vai dizer "quem está nervosa aqui" uns vinte decibéis mais alto que o permitido – em aeroportos. Vai dar uma canseira... Quer um conselho? Tranque a mocinha num caderno escuro, coloque o caderno numa caixa fechada com cadeado e só abra depois de dez anos. Quando ela sair do exílio, vai continuar puta da vida, claro. Mas agora ela, pelo menos, tem uma boa razão.
Mais mocinhas de TPM?
TPM - 2

Mais uma irritadinha da turma do não-me-toques-não-me-reles, esta de 1996. Quando era adolescente, éramos três mulheres com TPM sempre na mesma semana. Li que os ferormônios femininos se comunicam do além para coordenar um ataque em massa. Pegue dez mulheres que não se conhecem, junte-as uns três meses sob o mesmo teto e tenha a agradável sensação de viver num inferno quando elas estiverem "naqueles dias", porque vai calhar de todas menstruarem juntas. A sacanagem biológica remonta a nossos primórdios de fêmeas, quando fazíamos tudo em bando, incluindo produzir crias e cuidar delas. Hoje, depois de dez anos sob o império do anticoncepcional, sou uma criatura destepeemezada. Nunca mais tive crises de choro ou de súbito mau-humor porque levei ao pé da letra a tese da "sangria inútil": não menstruo mais. Nem por decreto. Rápido, simples e indolor. Ao menos para os pobres mortais que precisam conviver comigo.
Mais mocinhas de TPM?
TPM - 1

Não eram só Malditas que eu desenhava na adolescência. Ilustrei montes de mulheres mau-humoradas, irritadinhas ou mandonas, todas de saco cheio de serem sacaneadas. Putas da vida, mesmo. Essas mocinhas não tiravam a roupa por nada, pelo contrário, queriam ser levadas a sério, mas justo em seu pior dia: no auge da TPM. Esta aqui, de 1997, manda alguém chispar de algum lugar, dar o fora, tchau e bênção. Não me lembro o que a deixou tão brava, mas é melhor nem perguntar. Para mulheres à beira de um ataque de nervos, dizer "calma" é se dar um atestado de óbito.
Mais mocinhas de TPM?
Tá na corrida pelo pódium? Tomara que ainda dê tempo! Quer uma ajudinha? Aqui tem um atalho!








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