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No ventre da baleia

Jonas quer ser uma baleia. “Ela não é presa de ninguém, não mata nenhum bicho, não precisa de sangue. Tubarão não chega nem perto.” Ele se cala e mergulha num trabalho silencioso. Suas mãos seguram com destreza uma tesourinha de unha onde mal passam seus dedos, feridos pela lida diária com o metal. Está entretido em transformar uma latinha de Skol num pedaço de alumínio de dois centímetros, parte da reluzente armadura de São Jorge.

Jonas Santos Francisco de Camargo, 29, é um homem alto, esquálido e de poucas palavras. Foi abandonado pela mãe aos 6 anos, começou a fumar aos 7 e a beber aos 9. Levou uma vida de andarilho, mudando de cidade assim que acabava o trabalho nas oficinas mecânicas. Viveu entre soldas, fios e latas de graxa até o dia em que seu pai passou a fazer velas artesanais usando latinhas de refrigerante como fôrmas. Jonas olhava preocupado para a pilha de alumínio descartado tão logo a parafina secava. Não pensava em reciclagem, meio ambiente, calota polar. Não pensava nas baleias. Queria algo que pudesse vender para pagar uma refeição, um produto que fosse resistente e agüentasse ficar sob sol, chuva ou vento – como Jonas. Começou a fazer carrinhos e bonecos com o alumínio das latinhas.

Hoje, três anos depois, seu trabalho continua exigindo a mesma dedicação de antes: as partes são recortadas com uma tesourinha e modeladas com ferramentas muito rudimentares que ele mesmo criou. Das mãos calejadas do artesão saem miniaturas de porsches, fósseis de tiranossauros, diligências, motos, samurais, foguetes, roqueiros, motos, santos. Baleias. Jonas é capaz de produzir qualquer coisa que possa observar por uns vinte minutos. Foi assim com um submarino que atracou na praia. Já a encomenda de “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli, lhe abriu as portas para o mundo da proporção grega. “É tudo medidinho, né? Vi num livro.”

É nesse ponto que aparecem os irmãos Airton e Marcia Grenci. O artista plástico Airton levou o computador a uma assistência técnica em Mongaguá (SP) e, enquanto esperava ser atendido, reparou num homenzinho feito de latinhas que estava sobre o balcão. O dono da loja comentou que guardava peças de computador para um andarilho. Airton quis conhecer o autor do trabalho e, naquele momento, quando artista plástico e artesão se encontraram, surgiu uma grande idéia.

O Design Animado vende peças de fornecedores preocupados com reciclagem, reutilização, camada de ozônio. Gente como Airton e Marcia, que se interessa pelo destino das baleias. Ao tomarem conhecimento de que Jonas morava na rua, os irmãos Grenci alugaram uma quitinete para o rapaz e seu pai – que, em menos de um mês, devolveram as chaves. “Me senti preso.” Airton e Marcia insistiram e, por fim, conseguiram convencê-los a morar numa barraca de camping na rua. Pelo menos, diminuiriam os roubos de ferramentas.

Hoje, as prateleiras do Design Animado estão repletas de peças de Jonas. Da vitrine, é possível ver um Homem-Aranha em tamanho natural – 800 latinhas de alumínio a menos nos aterros da cidade. Nossa Senhora acompanhada por dois anjinhos é uma das peças mais populares. E os heróis de quadrinhos, claro, com quem Jonas treinou as primeiras letras e rebeldias; mas não só eles, também Dom Quixote e Sancho Pança, São Jorge e seu cavalo, robôs.

As peças custam R$ 30 em média, o suficiente para Jonas sair das ruas e sustentar a mulher Adriana e o filho Joade, de 11 meses. “Ele já brinca com minhas ferramentas; outro dia, estava com um alicate na boca”, diz o pai, orgulhoso.

Jonas termina o São Jorge quando uma cliente vem cumprimenta-lo pelo trabalho. “Adoro suas peças!” O rapaz faz um aceno com a cabeça. A moça vai embora. Jonas baixa os olhos, pega a tesourinha, procura uma latinha e volta para seu mundo abissal.

montagem de fotos com algumas das peças feitas pelo Jonas: um Homem-Aranha, uma nave espacial, uma diligência, o Homem-Pássaro, um anjinho e o 14-Bis; à direita, o autor
Em sentido horário: Homem-Aranha, nave espacial, diligência, Homem-Pássaro, Jonas com uma de suas peças, 14-Bis e anjo

PS: Essa matéria pode ser lida na íntegra na Carta Capital desta semana.
PS do PS: Prometi ajudar o Jonas a divulgar seu trabalho. Quem estiver interessado em conhecer suas peças pode dar uma passada no Design Animado (r. Fidalga, 182, Vila Madalena, São Paulo) ou ligar lá: (11) 3815-6841


Menina Má

Malditas, Malvadas e Outras Meninas Más. Guarde esse nome porque você ainda ouvirá muito sobre essa exposição que deve reunir uma porção de artistas plásticos, músicos e dançarinos, gente que vai se despir de pudores para falar de sexo, orgia e outras baixarias.

Essa sacanagem coletiva vai acontecer em breve, num dos espaço mais descolados de São Paulo. Entre os trabalhos expostos estarão as Malditas – sim, aquelas gostosas com quem você já cruzou por estas bandas vão dar as caras e bundas em nome da arte.

Entre as presenças confirmadas para a exposição está a Giselle Kenj, bailarina e estudiosa de dança do ventre que se apresenta com Thot, uma enorme cobra indiana branca. Vai ter tango, acrobacias, can can, gafieira, grafites, lingerie, pezinhos e outras barbaridades. Um escândalo. Ainda bem que minha reputação de jornalista séria já foi pro saco há tempos.

Foto: Angelo Pastorello
foto da dançarina Giselle Kenj abraçada à cobra Thot
Para quem não agüenta esperar até agosto, Giselle Kenj se apresenta com Thot no Tantra Restaurante, todos os sábados

Categoria: Artes, Sexo, Malditas, Galeria

Sergio Fabris - 3

quadro de Sergio Fabris em preto e branco, mostrando o Copan, o Círculo Italiano e o Teatro Municipal, entre outros prédios históricos da capital

– Se a gente passar látex nesse esqueleto, dá para fazer uma membrana. Vai parecer uma asa de morcego.

Sergio Fabris entende bem de gostos infantis. Para André, seu filho de cinco anos – verdadeira miniatura do artista –, ele já fez uma porção de brinquedos. O garoto delira cada vez que pode acompanhar o pai em seu ateliê e passa horas entretido em redecorar as paredes ou encher de borrões uma folha de papel.

O que mais impressiona em Sergio Fabris é sua versatilidade. Ele trabalha com óleo, acrílico e resina, faz luminárias em fibra de vidro, telas em silk-screen, esculturas e colagens. Quando ainda era criança, em Santos, aprendeu com o pai a lidar com artigos de couro e até hoje sabe fazer sapatos e bolsas. Na adolescência, a paixão pelo mar o levou a se interessar pela fabricação de pranchas – época que lhe custou muitos neurônios, derretidos pelo cheiro avassalador da resina acrílica e do poliuretano.

Boêmio inveterado, Sergio Fabris tem contribuído para deixar os barzinhos mais descolados. Os freqüentadores do Genésio, na Vila Madalena, só precisam levantar um pouco a cabeça para ver algumas das telas do artista. Também na Vila fica o Genial, que recebeu há poucas semanas dois grandes painéis ilustrados com gênios como Pixinguinha, Einstein e Villa-Lobos, entre outros. Na região da Augusta, outro barzinho exibe o trabalho do santista: trata-se do Barão da Itararé, cujos cardápios Sergio Fabris fez um a um, imitando serigrafia. Em frente ao Ecco, na rua Amauri, é possível ver um grande grafite, com mais de seis metros de altura. Obra de Sergio Fabris e do grafiteiro Eymard, devolvendo à cidade um pouco de sua beleza oculta.

quadro de Sergio Fabris retratando alguns prédios do centro de São Paulo

foto do artista plástico Sergio Fabris com o filho AndréCriador e criaturinha

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Categoria: Artes, Galeria

Sergio Fabris - 2

detalhe de quadro de Sergio Fabris, com uma estátua feminina segurando uma tocha e um ramo, monumento que fica no Pátio do Colégio, marco zero de São Paulo

Sergio Fabris vai até o quartinho entulhado de tranqueira e volta com um guarda-chuva estropiado. As hastes estão tortas e enferrujadas. Abre a porta novamente e retorna com uma caixa de ferramentas. Algo me diz que ele não tem a menor idéia de como se comportam os artistas plásticos. "Isso aqui deve dar."

Eu tinha ido até seu ateliê para pedir ajuda em uma encomenda especialíssima: meu irmão, então com 10 anos e apaixonado por RPG, queria que eu fizesse uma caixa com cadeado e um dragão em cima. "Para guardar minhas coisas de magia." O problema é que ele queria que o dragão tivesse asas – e que elas fossem articuladas. Se havia uma pessoa capaz de realizar um desejo desses, era Sergio Fabris.

Em poucos minutos, ele corta o tecido do guarda-chuva, lixa as dobradiças e serra as pontas, transformando aquele monte de metal enferrujado em... esqueletos de asas! Eu finalizo os últimos retoques na pintura do dragão e forro a caixa com veludo preto – achei que era a melhor cor para um aprendiz de mago.

Olho para as paredes do ateliê, cobertas pelas telas e esculturas do artista. Em suas obras, as ruas estão sempre desertas. Não há homens, carros, bancas de jornal, cães, paredes pichadas, mendigos. Não há flores. Ao desumanizar a cidade, Sergio Fabris revela uma São Paulo à sombra dos arranha-céus imortais.

quadro de Sergio Fabris com prédios em tom de sépia

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Sergio Fabris - 1

quadro de Sergio Fabris com fusão de prédios e viadutos e a imagem da cúpula da Sé ao fundo

Entro no pequeno ateliê na Vila Madalena e encontro um homem alto e magro, sem fôlego, encharcado de suor e coberto por uma nuvem de poeira. No lugar de palheta e pincel, ele empunha uma marreta e investe com raiva contra uma parede. “Preciso de mais espaço!” Se fosse outro artista plástico, teria ficado preocupada com a cena. Em se tratando de Sergio Fabris, nada mais me espanta.

Seu ateliê mais parece um depósito de tralhas do que o local de trabalho de um artista. Logo na entrada, é possível ver as ripas de sinteco que ele encontrou numa caçamba e com as quais fez, sozinho, o revestimento do lugar. Um pequeno quartinho reúne todo tipo de entulho que se possa imaginar: latas velhas, rolos de arame, tubos de spray, sacos de gesso, pedaços de circuitos eletrônicos, peças de pebolim e uma infinidade de outros cacarecos. Sua mesa de trabalho também não foge à regra – cada centímetro quadrado dela está desenhado, rabiscado e manchado ou tem restos de cola, poliuretano, araldite, argila. Na pequena bancada onde ele prepara suas tintas, há sobras de resina acrílica grudadas em copos descartáveis e jarras plásticas, compondo uma involuntária instalação.

Apesar de ter nascido em Santos, Sergio Fabris é um dos artistas plásticos que melhor representa São Paulo. Viadutos, monumentos, prédios, postes e fios elétricos – os maiores vilões da paisagem urbana – se transformam em obras de arte em suas mãos. É como se a cidade fosse vista através de um caleidoscópio, com vigas, colunas e fachadas compondo um cenário uniforme, distorcido e belo. Seu traçado quase arquitetônico remete ao trabalho de Gregório Gruber, mas enquanto o segundo retrata uma São Paulo chuvosa e iluminada, Sergio Fabris parece buscar ângulos desconhecidos em escadarias, janelas, marquises.

quadro de Sergio Fabris mostrando fios emaranhados em postes de luz
PS: Esta exposição virtual inaugura a Galeria Guindaste. Ao longo do dia, colocarei outras obras de Sergio Fabris.

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