Boterianas - 4

Ainda criança, aprendi com Ziraldo que bunda bonita tem que ser bem redondinha, daquelas de desenhar com compasso. Nada a ver com essas modelos magrelas, que de tanto comer só alface ficam com a bunda murcha. Já ouvi muito homem comentar que não troca por nada uma bundona com celulite por uma bundinha de tábua. "Mulher tem que ter curva!", me disse um amigo, protestando contra as desbundadas. Esta gordinha altiva aqui é uma homenagem às içás, tanajuras e outras bundudas de plantão. Agora, boa, mesmo, é essa pérola de cantada que aprendi dia desses: "Essa calça é de astronauta? Não? Puxa, mas sua bundinha é de outro mundo...".
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Boterianas - 3

Há anos sou amante da dança do ventre e de todos os apetrechos a ela relacionados, saias amplas e esvoaçantes, véus transparentes e ricamente bordados, instrumentos de percussão, serpentes, espadas. Para mim, trata-se de um banquete para os sentidos: o cheiro do insenso, a textura dos tecidos, o som dos derbaks e todos os movimentos sinuosos que a dançarina é capaz de fazer com os braços, aspernas e, claro, o abdômen. Uma lenda disseminada por leigos diz que a dança do ventre "dá barriga", uma bobagem reiterada pelo fato de muitas bailarinas serem gordinhas. O que pouca gente entende é que essa dança é um tributo à feminilidade, coisa que passa bem longe do padrão estético difundido pelas revistas de moda. Por isso, eis aqui minha mulher dançando e tocando snujs para mostrar que beleza não cabe só no manequim P.
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Boterianas - 2

Uma de minhas colegas de circo iniciação é uma jovem de coxas grossas e quadril largo. Quando ela entrou na minha turma, percebi alguns olhares indiscretos assim que o professor propôs exercícios acrobáticos em duplas. Normalmente, os mais fortes são os portôs, que ficam embaixo, agüentando o peso de quem está em cima, os volantes, mais leves e flexíveis. É só imaginar aquelas pirâmides humanas para ter uma idéia: os mais resistentes fazem a base para os mais magros se equilibrarem. A indisposição geral acabou assim que o primeiro rapaz segurou minha colega gordinha. Ela tem alongamento de iogue e equilíbrio de bailarina. Fez ginástica olímpica quando era criança e deve ter engordado por alguma sacanagem biológica. Quando faz uma acrobacia, parece uma folha no ar, leve e graciosa. Foi o que tentei reproduzir com mais esta boteriana aqui.
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Boterianas - 1

Estou preparando um arquivo dos textos do Guindaste agora que me aproximo dos 200 posts e, fuçando nas ilustrações, vi que não tenho nenhuma gordinha por aqui. Fui a uma exposição sobre o cineasta Federico Fellini no ano passado e fiquei encantada com um esboço bem simples que ele fez de uma mulher de costas: o desenho das ancas e da cintura lembrava uma ampulheta; os braços esticados davam equilíbrio ao conjunto. Fiquei um tempão olhando a composição, que representava uma mulher tão pesada e tão delicada ao mesmo tempo. Não era minha intenção colocar tantas séries aqui no blog num período tão curto, mas acho que já estou atrasada com a série Boterianas, que começa com este estudo felliniano, feito nesta madrugada. As magrelas que me desculpem, mas curvas nunca são demais.
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