O corselete

Faz tempo que as Malditas não davam as caras por aqui. Bem, não só as caras, claro, porque isso, ao que parece, é o que menos importa nessas mocinhas assanhadas. Rabisquei esta meses atrás, consumida pela culpa de não estar atualizando o blog devidamente. Como todo fruto de autopunição, ela não se saiu lá muito bem.
Eu tentei fazê-la com um corselete – para mim, uma das peças mais sexy do vestiário feminino. Mas é claro que essa lingerie não se parece em nada com a rabisqueira preta que ficou em cima da coitada. Do que se conclui que esta pobre moça nasceu mesmo para a danação...
Muito além da latinha de alumínio*
Nove em cada 10 latinhas de alumínio são recicladas no Brasil, país onde o material é mais reaproveitado em todo o mundo. Por aqui, recicla-se mais o metal do que todos os países da Europa Ocidental somados – incluindo nações como Inglaterra, Portugal e Áustria, onde metade das latinhas são recicladas.
Em São Paulo, a Praça da República é um dos locais onde se encontra artesanato com latinhas de alumínio, ainda que a maioria das peças não vá além do banal. Ainda que pareça quase impossível fazer algo com latinhas que não seja um porta-lápis ou uma bolsinha de lacres, existem artesãos fazendo verdadeiras obras de arte usando esse metal tão nobre.
Engana-se quem acredita que só um designer ou artista plástico é capaz de produzir arte de qualidade usando sucatas metálicas. Basta uma olhada no trabalho de Jonas para se ter uma ideia de como a criatividade não exige diploma universitário.
Andarilho semi-analfabeto, Jonas usa latinhas de cerveja e refrigerante e fios de circuito elétrico para fazer milhares de sofisticadas esculturas: carroças com rodas e cavalos articulados, naves espaciais cheias de botõezinhos, super-heróis de 2 metros de altura. Depois de ter suas ferramentas de trabalho constantemente roubadas, usa apenas uma tesourinha de unhas de bebê para cortar o alumínio, que não recebe nenhum acabamento. Algumas de suas obras podem ser adquiridas na loja O Design Animado, em São Paulo.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
Na natureza selvagem*
— O que é que você tanto fotografa aí no chão?
Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma mancha na parede e que tirava fotos dela. “De uma mancha?”, ele disse, já me tendo por louca. Sorri de novo. “Elas ficam lindas numa tela, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.
Meu amigo Cárcamo é perito em fazer esse tipo de coisa aparentemente estranha. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele alimentou por meses: queria pintar uma natureza morta se inspirando nos tons da fruta em decomposição. Já vi aquarelas maravilhosas que ele produziu observando como a terra se infiltra pelas paredes e vai tingindo-as de limo.
Esse meu interesse nesses sinais do tempo é puramente estético. Gosto de fotografar a gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca a umidade deixa nas pedras, toda a paleta de verdes que tingem a ferrugem. Para mim, é como se a natureza deixasse claro que não é tão submissa assim à ação do homem e que, cedo ou tarde, cada carro, prédio e rua sucumbirá ao mato.
Ok, é um pouco assustador. Mas não deixa de ser lindo.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
O papelão como você nunca viu*
No Brasil, a caixa onde vem do sapato à geladeira costuma ter um bom destino graças à coleta seletiva e aos carroceiros. Com isso, reciclamos 77% do papelão ondulado produzido anualmente – índice equiparável ao da Europa e superior ao dos Estados Unidos.
Quem está de mudança e precisa de caixas para embalar os objetos sente isso na pele: é preciso implorar por uma mera caixa de 5 litros, porque o grosso do papelão já foi compactado e entregue aos catadores.
O design na reutilização do papelão avança ao ritmo da reciclagem. O material é a base das belas estantes moduláveis da Diefabrik, do incrível lustre de Anneke Jakobs e do simpático duplex para gatos da Caboodle. Bons exemplos de que é possível ir muito além do mero reaproveitamento do papelão.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
A vida secreta das garrafas PET*
Embalagem das mais abundantes no planeta, a garrafa PET é tão perene quanto facilmente reciclável pela indústria. Resistente, esse plástico deixou de se restringir ao setor alimentício e é cada vez mais usado na produção de roupas, objetos de decoração e acessórios. Não à toa o Brasil é um dos maiores recicladores de PET do mundo, recolocando no mercado 47% de sua produção anual dessas garrafas plásticas.
Um bom exemplo da versatilidade desse material é seu uso em mobiliário: dá para fazer mesas, cadeiras e sofás só com PET e fita adesiva. O pioneiro nessa utilização é Sebastião Feijó, professor de biologia da rede pública do Rio de Janeiro. Em 1997, ele desenvolveu com seus alunos alguns móveis feitos com garrafas plásticas e, desde então, vem aperfeiçoando seu projeto. Apesar de sua técnica ser patenteada, ele faz questão de compartilhá-la na internet.
Para fazer uma cadeira de PET, são usadas entre 200 e 250 garrafas de 2 litros. Ainda que beneficie o planeta, o resultado dificilmente estaria na sala de visitas de alguém. Isso porque falta um degrau para se chegar de fato à sustentabilidade: falta o desejo. Enquanto as pessoas olharem a peça como uma bizarrice de militante, ela será apenas uma boa idéia desperdiçada.
Usar a estrutura desenvolvida por Feijó para criar uma cadeira ou sofá tão bonitos quanto ecologicamente corretos é um desafio que qualquer um de nós pode se propor. Eu já comecei a juntar minhas 250 garrafas PET.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.








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