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Ela só quer, só pensa em namorar - 1/2*

Mal entrou na puberdade, ela só pensa naquilo. Uns argumentam que ainda é jovem, um botão em flor, mas isso nunca foi um grande problema para ela, que vem se preparando para desabrochar desde que era um brotinho. Apesar de ter criado raízes junto aos pais, ela sente que é hora de formar sua própria família e gerar seus rebentos. Para conceber as sementes dessa transformação silenciosa, a moça se insinua aos quatro ventos, ludibria os varões, lhes cria sugestivas armadilhas sexuais, promete um frenesi luxuriante, a dança do acasalamento. Se preciso, ela se vestirá de forma voluptuosa e se cobrirá com enganosos perfumes, tudo para deixar sua herança na terra – e, com sorte, gerar bons frutos no futuro.

Sob a ótica de uma flor, um jardim é uma grande bacanal. Cactos e ipês fazem. Trepadeiras, claro, fazem. A mais prosaica violeta e a rosa caríssima, fazem. Até mesmo as carnívoras, essas sádicas, fazem. De fato, assim que provaram o gostinho da coisa pela primeira vez, cerca de 145 milhões de anos atrás, 415 milhões de anos depois de a primeira alga verde galgar terra firme, as plantas logo perceberam que o sexo poderia lhes trazer benefícios sobre suas irmãs virginais. E, desde então, se tornaram verdadeiras profissionais do ramo.

À primeira vista, pode parecer desnecessário que uma flor se transforme em uma rameira assim, a olhos vistos. Isso porque, como acontece com a maioria das plantas, as flores costumam ser hermafroditas: um mesmo indivíduo tem tanto um ovário, sua porção feminina, quanto grãos de pólen, pequenas estruturas que encerram os gametas masculinos. A reprodução sexuada, que leva o pólen até o ovário, não deveria, portanto, demandar tanta energia sexual. No entanto, uma flor só se entregará ao solitário prazer da autofecundação se estiver, digamos, muito necessitada.

A explicação para essa quedinha pela safadeza é bem simples. Um vegetal que se autofecunda cria descendentes geneticamente idênticos à mãe, perdendo a variedade genética que o ajudará a viver num mundo competitivo e hostil. Portanto, como não podem sair do lugar para um troca-troca, as flores recorrem à ajuda de aves, insetos ou pequenos mamíferos — os polinizadores — para misturar seu material genético ao de outra flor.

O mais cândido vasinho de orquídeas esconde um arsenal de estratégias libertinas dignas de constar não de um compêndio de botânica, mas, sim, das páginas de Os 120 Dias de Sodoma. Com algo entre 24 mil e 35 mil espécies espalhadas por todas as partes do mundo, com a exceção da Antártida, as orquídeas são a mais numerosa família de floríferas e as maiores peritas em dissimulações em busca de favores sexuais. Para atrair o polinizador certo, uma orquídea é capaz de se tornar irresistível, perfumada e saborosa para um bicho enquanto para todos os outros animais não passa de uma planta sem graça, às vezes até mesmo repulsiva.

Cymbidium serratum e Rattus fulvescens
O Cymbidium serratum, uma orquídea nativa da China, tem cor e sabor absolutamente inexpressivos — a menos que você seja um camundongo da espécie Rattus fulvescens, que se alimenta de pétalas da flor em troca de arrastar seus grãos de pólen de um lado para o outro. O que parece um ato masoquista à primeira vista é, na verdade, uma sofisticada estratégia de reprodução, que garante ao Cymbidium serratum trocar material genético de duas plantas diferentes, às vezes situadas a quilômetros de distância uma da outra.

Bulbophyllum e Aristolochia grandiflora
Para alegria de botânicos e jardineiros, essas estratégias sexuais podem ser muito menos sacrificantes para a planta — ainda que frustrem o polinizador na maior parte das vezes. Conhecido por suas flores de aspecto bizarro, que cheiram a carniça, o gênero Bulbophyllum oferece às moscas-varejeiras a ilusão de que encontrarão ali um pouco de matéria orgânica em decomposição onde elas possam depositar seus preciosos ovos. Atraídos pelo cheiro, os insetos pousam na flor só para notarem, surpresos, que sofreram um embuste. Enquanto passeiam aturdidos pelas pétalas da orquídea, eles acabam esbarrando nos grãos de pólen, que se aderem às suas patas, prontos para ganhar os céus em busca de outro sagaz Bulbophyllum. O mesmo faz a flor-pelicano, Aristolochia grandiflora, uma prima da magnólia e do abacateiro, com o requinte de prender o polinizador curioso em uma armadilha de pelos e só soltá-lo após satisfazer seus desejos libidinosos.

Coryanthes speciosa
As orquídeas do gênero Coryanthes vão ainda mais longe. Usando apenas a luz do sol, um pouco de água e nutrientes dispersos no ar e no solo, as flores da Coryanthes criam engenhosas armadilhas para os machos da abelha Euglossini, seus insaciáveis visitantes. Uma pétala foi modificada para ficar lisa e côncava como um copo de vidro. Para impedir a abelha de voar, a flor tem glândulas que secretam água e óleos para dentro do copo, formando uma “piscininha” na qual os insetos, invariavelmente, acabam caindo. Com as asas encharcadas e sem poder escalar a flor internamente, as Euglossini são obrigadas a fugir da morte pela única parte seca acessível da planta — exatamente o canal que leva aos grãos de pólen.

Ophrys insictifera
Mecanismo ainda mais sofisticado usam as Ophrys, conhecidas popularmente por erva-mosca, orquídeas-abelhas ou orquídeas-aranha, dependendo da espécie. As flores desse gênero europeu surgem no alto de longas e finas hastes, que as destacam da mata rasteira em redor. Com uma penugem negra ou castanha que imita os padrões gráficos do abdômen das abelhas ou vespas que as polinizam, as flores de Ophrys, não satisfeitas em simplesmente parecer um inseto, ainda produzem ferormônios idênticos aos exalados pelas fêmeas de seus polinizadores. Balançando suavemente ao vento, elas praticamente acendem a luz vermelha e abrem a porta da alcova para os machos excitados. Eles rapidamente se atracam com as flores, mas seu frenesi dura poucos segundos, até que os desolados insetos notem o engano e desapareçam — levando consigo os ladinos grãos de pólen.

violeta-africana
Apesar de todas essas ardilosas estratégias para evitar a autopolinização, não trocar material genético com outra planta pode ser muito útil. Em um ambiente com quantidades ideais de luz e clima, uma violeta-africana produz flores no alto de hastes longas, boas para atrair a atenção de insetos. Curiosamente, se notar que as condições para florescer estão prejudicadas — o clima ficou frio ou quente demais, por exemplo —, a mesma violeta pode gerar flores de haste curta, que ficam escondidas pelas folhas e se autofecundam ainda em botão. Nesse caso, o alerta que vai determinar a modalidade do sexo é dado por proteínas e cloroplastos, estruturas celulares especializadas, que registram, entre outras coisas, alterações na intensidade da luz solar ou na quantidade de horas de escuro. “Uma planta é capaz de perceber mudanças mínimas na oferta de nutrientes ou mesmo detectar que os dias estão ficando mais curtos e, portanto, o inverno está chegando”, explica o biólogo Thales Kronenberger, especialista em biologia molecular e parasitologia.

*Primeira parte da versão original do texto publicado na revista Superinteressante de março, que já está nas bancas! Leia a segunda parte aqui.


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Comentário de: Tarcila Email
Oi Carol,

Estava na rede procurando informações de como cuidar de orquídeas que precisam de UTI quando me deparei com seus vídeos. Super legais!!! Já aprendi bastante com vc. Moro em Brasília. O meu marido tinha (no passado, pois agora as que sobraram são minhas) uma coleção com pouco mais de 100 vasos de orquídeas. No ano passado resolvi fazer uma reforma em casa que durou quase 10 meses. O meu marido, por causa da confusão que ficou na casam, inclusive no jardim, se desencantou com as orquídeas e simplesmente as abandonou (antes a elas do que a mim, rs.). Resolvi assumi-las. Estão tétricas. Pelo menos 20 já morreram. Ontem assisti vários dos seus vídeos e hoje transplantei 12 vasos seguindo as suas orientações.
Tenho inúmeras dúvidas, mas a mais atroz é a seguinte: quando as orquídeas estão assim doentes como as minhas não há necessidade de algum tipo de adubo? Umas vitaminas?
Eu coloquei pedrinhas no fundo dos vasos (eu não tinha isopor), tirei os substratos velhos, lavei as raízes na água corrente, cortei com uma tesoura o excesso de raízes e coloquei uma camada de esfagnum umedecido e por cima fibra de coco, também umedecida. Depois borrifei com Forth Orquídea. Mas, a minha impressão é de que foi muito pouco. Não se coloca umas vitaminas prá dar uma revigorada? E as pragas, como tratá-las? As folhas das minhas plantas estão amarelas e cheias de manchas pretas. O que faço para recuperá-las?
Grata pela paciência de ler tudo isso.
Um grande abraço e parabéns pelo seu blog. É muito legal!! Sucesso.

Que alegriazinha boa saber que você se aventurou a transplantar seus vasos sozinha, Tarcila! Grande garota! Orquídeas debilitadas merecem um tratamento de beleza completo, mas os resultados não são imediatos, então, pense que você vai "cortar o cabelo", mas só vão notar daqui uns dois meses (que nem marido faz com a gente, sabe?). Seja o mais religiosa possível nas adubações – plantas, como os animais, gostam de ro-ti-na. Uma vez por semana, borrife folhas (frente e verso) e substrato com NPK 20-20-20 + micro nutrientes, que você encontra só em orquidários (alguns vendem até pela internet). Se não encontrar 20-20-20, adube com a formulação mais equilibrada possível que contenha também os micronutrientes (a planta precisa deles em proporções muito pequenas, mas são imprescindíveis, especialmente para as adoentadas). Siga a diluição de acordo com as instruções do fabricante e aproveite para incluir na mistura o Solan, que é um aditivo espetacular, e o HB 101, outro fertilizante natural que gera resultados incríveis e animadores. Faça a adubação ao final da tarde, quando os receptores de nutrientes estão abertos (de dia, a planta deixa essas "janelinhas" fechadas, então, não adianta nada adubar). A outra precaução é colocar OU Osmocote OU Bokashi no vaso, nunca os dois. Esses dois são adubos de liberação lenta, que duram uns três meses, e vão alimentar as raízes, ou seja, não substituem a pulverização com adubo foliar. Faça isso por três meses e você já sentirá as plantas reagirem e darem sinal de brotos e botões!
PermalinkPermalink 29.02.12 @ 18:32


Comentário de: gloria Email · http://sbrincows.blogspot.com
Adoramos o seu blog,é maravilhoso e sempre estamos por aqui conferindo todas as novidades.
Desejamos a vc um ótimo final de semana.
Bjs da Glorinha.
http://sbrincos.blogspot.com

Obrigada pela força, Glorinha!
PermalinkPermalink 03.03.12 @ 11:18


Comentário de: Luciana Email
Parabéns Carol.

Vi diversos videos e gostei muito.
Mas tenho algumas duvidas.
Tirei até foto da minha orquidea, queria te mandar as fotos e te tirar algumas dúvidas.
Gostaria de te mandar as fotos, poderia me passar um e-mail para que eu consiga fazer isso.

Meu e-mail tanyalucy@gmail.com

Obrigada
Luciana

Luciana, entre na comunidade do Guindaste no Facebook (https://www.facebook.com/guindaste) e poste suas fotos lá, para que os outros leitores também possam comentar. ;) Se não tiver Face, manda pra este e-mail que eu respondo!
PermalinkPermalink 10.03.12 @ 09:07


Comentário de: Ana Email · http://www.bigformat.com.br/
Mais um post fantástico Carol, fiquei fã de plantas através de seu blog, mas ainda estou a dar os primeiros paços, pois só ainda tenho duas orquídeas de interior e um bonsai :)

Todo jardineiro começou com uma plantinha, Ana. Vai com fé que logo você está com o quintal cheio!
PermalinkPermalink 12.03.12 @ 16:44


Comentário de: Tarcila Email
Oi Carol,

Muito obrigada por suas orientações.

Já transplantei todas as minhas orquídeas. Foram 103 vasos. Foi um trabalhão, mas valeu a pena.
Elas estão aparentemente bem. Pelo menos nenhuma morreu.
Vou seguir à risca a sua orientação sobre a adubação.
Quando elas estiverem legais eu lhe dou notícias.
No momento estou simplesmente apaixonada com o meu trabalho.
Um grande abraço,
Tarcila.

Nossa, 103 vasos? Eu tenho 10 aqui pra transplantar e vivo adianto... Que orgulho, Tarcila! Tenho certeza de que suas plantinhas agradecerão tamanha dedicação.
PermalinkPermalink 25.03.12 @ 22:05


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