Flor do dia: Flor-leopardo

Janeirão fervendo, metade dos paulistanos na praia e a metade que ficou a caminho, marido inventa de descer pra Itanhaém. Quando eu era criança, essa era a praia de quem não tinha casa na praia desde criancinha. A maré era mansa, a areia ainda limpa e o céu tão azul quanto no afamado Guarujá. E a gente, pessoinha miniatura, se divertia chupando sacolé com areia, comendo milho verde com areia, enchendo o maiôzinho de tanta areia que nem parecia que já tínhamos deixado a fralda.
Naquela época, se eu passasse ao lado dessa flor-leopardo (Belamcanda chinensis), tão comum nos jardins de Itanhaém, teria arrancado a coitada e brincado de moça-de-saia, arrancando uma pétala por vez até desnudar o estigma e as políneas, segundo eu saberia anos depois. Como aos seis anos não apareceu um cristo pra dizer que flor bonita é flor viva, eu segui fazendo minhas pequenas atrocidades investigativas.
E hoje, ainda que a praia tenha visto seu mar calmo virar um mar de gente, percebo que as flores-leopardo continuam lá. Um convite à investigação infantil.
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