O cachorro coletivo*
Ele não tem nome, coleira ou raça – embora quem o veja jure que tem pinta de border collie. É pequeno, o pelo longo malhado de branco e preto, uns olhos muito vivos contrastando com o andar cansado de cachorro de rua. Está sempre meio encardido, de tanto dormir debaixo dos carros. Mas é saudável e bem alimentado.
O cão mora numa casinha de plástico, que muda de lugar de acordo com a escolha do dono da vez: pode ser uns 5 metros à frente, no muro grafitado, ou uns 10 metros abaixo, no começo da ladeira, em frente ao boteco. Vive em liberdade e não tem um dono. Ou melhor, tem, vários, que se revezam para comprar ração, dar água ou levá-lo ao veterinário.
Numa cidade como São Paulo, onde todos estão sempre com pressa e quintal é quase um luxo, esse foi o jeito de o cachorro ser adotado pelos moradores da rua Fradique Coutinho. Um cão coletivo, que é como os Tribalistas, não é de ninguém, é de todo mundo e todos o querem bem.
*Texto originalmente publicado no blog Bigodes, Focinhos e Raízes, da editora Abril.
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