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Carta a um adotante

Você viu a foto do Ronaldo e deu um suspiro, "puxa, ele seria perfeito para minha casa". Aí, leu sobre o pisão do cavalo e a outra vida que ele perdeu e me escreveu pedindo mais informações. E eu, que não li seu e-mail, recomendo: não adote o Ronaldo.

É isso mesmo. Você não está preparado para ele. Não agora, que sua casa está do jeito que sempre sonhou, com os móveis garimpados pouco a pouco e as estantes decoradas por bibelôs de viagem. Tudo o que você não precisa é de um gato adolescente, de pernas longas, rabo inquieto e bigodes curiosos, metendo-se em tudo que é vão de móvel, caixa aberta e fresta de porta.

Não, ninguém merece abrir a porta para pegar o jornal e ter de buscar seu pet dois andares abaixo, enchendo o roupão de pêlos enquanto a criatura possuída protesta para descer. Aliás, você não vai querer encontrar pêlos em suas roupas, nem um fio desavisado apontando na borda da xícara de leite. Nem tomar o café da manhã com unhas cutucando sua coxa insistentemente, até que se pegue o demônio no colo. Falaí, comer com um gato amassando pão no seu colo é horrível. Quem precisa passar por isso todas as manhãs?

E o que dizer de ver TV? Porque bastará você se sentar no sofá para a peste subir na mesinha de centro e desfilar com o rabo em pé, na frente das legendas. Já vou dizendo: não vai adiantar nada tirar o gato da mesinha. Porque ele vai escalar o aparador, subir no seu toca-discos que é relíquia de família, pular no aparelho de som e de lá, para a TV, onde um rabo repentinamente aparecerá sobre a tela. Não, é melhor não adotar o Ronaldo.

Se ele fosse um bom gato, tudo bem. Mas que bicho de boa índole já teria gasto duas vidas em apenas cinco meses? Está claro que ele exigirá grandes esforços para não ir parar debaixo de um carro, do outro lado do muro ou em cima da árvore do vizinho. Sem falar que ele necessita de três amassadas bem dadas por dia, com cafunés no pescoço e aquecimento total de orelhas — gasta-se mais de quinze minutos só para esquentar aquelas orelhas!

Ninguém suporta uma praga bulindo com suas pernas, passando o focinho úmido nos tornozelos e dando uma lambida, língua de lixa, no vão recém-descoberto entre os sapatos e a calça. Você vai acabar tropeçando nele quando se virar bruscamente. E terá de desviar para não tropeçar de novo na próxima virada. Porque ele o seguirá como sombra: estará à porta quando você chegar podre do trabalho ou se levantar ainda sonolento para mais um dia cheio. E não lhe receberá com festinhas, porque isso é coisa de cão, e você, justo você, se interessou por um gato.

Quando estiver triste e quiser abraçá-lo, será rechaçado. E ficará sentado no chão, chorando baixinho porque nem seu bicho de estimação quis saber de suas lamúrias. Ele lhe ignorará quando você buscar sua companhia e lhe dará as costas quando chamá-lo pelo nome. Só se aproximará quando tiver vontade e escolherá a parte mais desconfortável para deitar, sobre seus joelhos, quiçá em cima de um estômago cheio. Você tentará mudar de posição, mas, num golpe baixo, ele ronronará e se espreguiçará, as costas em arco, para depois recolher lentamente a cauda e voltar ao sono. Já imaginou passar uma hora com um gato quente, pesado e ronronante sobre sua barriga? Posso atestar, é insuportável.

Então, pense bem. Não adote o Ronaldo. Depois que você se apaixonar será muito mais difícil mudar de ideia.


Entre penas

A lógica das maritacas é a seguinte: não importa quantos quilos de sementes de girassol você ponha, nem em quantas vasilhas divida, tampouco quantas vezes por semana você reabasteça os potinhos, elas pousarão todas ao mesmo tempo, no mesmo prato e com a mesma fome. E disputarão o mesmo naco de semente, como se a vasilha não estivesse cheia até a borda. E passarão mais tempo perseguindo-se umas às outras para manter o monopólio das sementes do que comendo. É batata.

Rolinhas são regidas por outra lógica, a de que sempre cabe mais um. É por isso que minha varanda ostenta uma população alada crescente, ciscando irritadas com a colega, tão recém-chegada quanto elas. Quando o plantel de rolinhas atinge sua capacidade máxima, as brigas ganham performances aéreas, com rasantes estabanados sobre o comedouro, esparramando alpiste e painço no chão. Então, é como se tudo voltasse ao início, e é só uma meia dúzia de rolinhas ciscando no chão e a rainha delas pousada no comedouro, zelando para não perder o trono.

A filosofia dos beija-flores é a do comigo-ninguém-pode. A despeito de seu tamanho, eles fazem correr até os sabiás que se atrevem a chegar perto demais do bebedouro. Se houver um único bebedouro, é dele. Se forem dois, distantes até uns cinco metros entre si, os dois são dele — e ai do passarinho que questionar a hegemonia beijafloral. E se forem três bebedouros, bem, se forem três ele permite que outro beija-flor se arrisque sob seus domínios. Mas só porque é um império de um pássaro só. Tivesse soldados e eu testemunharia um massacre de penas.


O aspirador de pó

O trator da limpeza de 1,50 m irrompe no escritório rumo à varanda, com balde, vassoura, rodo, pano, escovão, aspirador de pó e... Êpa, aspirador de pó? Fui pé ante pé ver o que a Val estava aprontando quando a flagro, bravíssima, em cima do bebedouro dos passarinhos, dando golpes no ar com a mangueira do aspirador de pó.

– Val?
– ...
– Val! Vaaaaaal!!!
– Chamou, Carol?
– Deeeesliiiiga o aspiradoooor, Vaaaaal!
– Ah, é!
– Val, o que raios você está fazendo com o aspirador, mulher?
– Chupando as abelhas, Carol.
– !
– Você não disse que o beija-flor morre se for picado por abelha? Tô vendo o bichim na maior agonia, voando aqui e ali, mas ele não consegue chegar perto do bebedor porque tá com abelha.
– Val, não vá me dizer que você está chupando as abelhas com o aspirador de pó...
– Ah, tô sim, e já faço isso desde a semana passada. Não reparou que as abelhas deram uma sumida?


 

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