A selva
Vi primeiro sua sombra: dava os saltitos inconfundíveis dos passarinhos, mas um pouco desengonçado por trazer alguma coisa pesada no bico. Em plena avenida, perambulando assim tão perto das pessoas, só podia ser um pardal.
Saí da loja para vê-lo, mas sua sombra fugidia foi mais rápida e desceu a rampa antes que eu pudesse enxergá-lo. Fui atrás, andando devagar para não assustá-lo. Uma moça que vinha no sentido contrário passou perto demais e fez voar o pequeno pardal — agora eu tinha certeza —, que, num farfalhar desajeitado, pousou na mureta poucos metros à minha frente.
Adoro pardais e urubus. Em meio a buzinas, golfadas de monóxido de carbono e à escassez de árvores e beirais, esses pássaros prosperam por sua sagacidade e rapidez em se adaptar à presença humana. Constróem ninhos em semáforos, planam sobre as Marginais e se alimentam dos restos da civilização. Não fossem eles e as pombas, caminharíamos entre ratos.
Andei sem fazer barulho até que fiquei a três passos do pardal. Entretido que estava com sua presa, ele não notou minha presença. Foi só então que reparei: de seu bico saía metade de uma barata das grandes.
E eu achando que a vida na cidade havia emprestado alguma decência aos pardais...
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Bons tempos... tempos de criança... seu blog sempre me traz boas recordações ^^
ops... escrevi de mais...
beijos
Que coisa mais fofa essa cena de infância que você descreveu, Aline! Me lembrou o lindo livro A Senhora Meier e o Melro, já leu? Tem até uma cena dos dois numa árvore, com ela ensinando o passarinho a voar.
Hahahahaha, mas é a mais pura verdade, Nine!
Rolinhas tbm são bacanas e se adaptaram bem à cidade. Agora, pombo, quero longe!
abs
Eu tenho pena dos pombos, Leo. Não alimento nem nada, mas morro de pena de vê-los comendo toda a sobra de nosso junkie food e tendo cada vez mais anomalias genéticas: já reparou na quantidade de pombo deformado que tem por aí? Se Darwin estava certo, daqui a alguns anos, pombo não voa mais.
Será que podem dar um jeitinho também nos gafanhotos?
Hehehe, pensei a mesma coisa quando vi a cena.
Ei! Baratas têm casca e soltam gosminha quando morrem! Isso definitivamente é mais nojento que um passarinho sem penas no pescoço e com cara de peru. Já reparou em como eles voam de um jeito elegante? Parecem águias. Ok, ok, exagerei...
A diferença entre pombos e ratos são as asas; a quantidade de doenças transmitidas é praticamente a mesma. E as pessoas continuam alimentando pombos como os indianos alimentam os ratos...Eca!
Silvia
Elas transmitem mesmo muitas doenças, Silvia, mas fico imaginando o que seria de SP sem esses garis alados...
Trabalhei muito tempo na praça no centrão da cidade e o que se via de pombos defromados era inacredita´vel, alási é dificil ver um são.
todos tinham problemas na patinha. Deformações e falta de dedos.
Realmente é de se espantar o que eles como eles se adaptaram bem ao lixo chamado de comida que ingerimos com pressa na rua.
abs
Às vezes, sinto como se os pombos estivessem nos dando um aviso do tipo "olha só o que vai acontecer com vocês depois de tanto Mc Donalds"...








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