Muito além da latinha de alumínio*
Nove em cada 10 latinhas de alumínio são recicladas no Brasil, país onde o material é mais reaproveitado em todo o mundo. Por aqui, recicla-se mais o metal do que todos os países da Europa Ocidental somados – incluindo nações como Inglaterra, Portugal e Áustria, onde metade das latinhas são recicladas.
Em São Paulo, a Praça da República é um dos locais onde se encontra artesanato com latinhas de alumínio, ainda que a maioria das peças não vá além do banal. Ainda que pareça quase impossível fazer algo com latinhas que não seja um porta-lápis ou uma bolsinha de lacres, existem artesãos fazendo verdadeiras obras de arte usando esse metal tão nobre.
Engana-se quem acredita que só um designer ou artista plástico é capaz de produzir arte de qualidade usando sucatas metálicas. Basta uma olhada no trabalho de Jonas para se ter uma ideia de como a criatividade não exige diploma universitário.
Andarilho semi-analfabeto, Jonas usa latinhas de cerveja e refrigerante e fios de circuito elétrico para fazer milhares de sofisticadas esculturas: carroças com rodas e cavalos articulados, naves espaciais cheias de botõezinhos, super-heróis de 2 metros de altura. Depois de ter suas ferramentas de trabalho constantemente roubadas, usa apenas uma tesourinha de unhas de bebê para cortar o alumínio, que não recebe nenhum acabamento. Algumas de suas obras podem ser adquiridas na loja O Design Animado, em São Paulo.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
Ninho vazio*
Este é meu último vôo de Voadeira. Achei que seria mais fácil escrevê-lo depois de uma fase de silêncio, mas passados dois meses de meu último post, continuo tão travada quanto antes.
Queria escrever algo tocante, capaz de transmitir a você o mesmo carinho que recebi de cada leitor ao longo destes ano de Voadeira. Um texto profundo, talvez poético, algo quente e doce como bolinho-de-chuva. Algo que lembrasse você de que, sim, nós podemos voar!
Mas eu detesto despedidas.
Então, só posso agradecer sua acolhida neste ninho tão gostoso que foi Voadeira. Continuo dando meus rasantes por aqui, ali, ali e acolá. Fico na torcida de que a gente se encontre e voe juntos, mais uma vez!
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
Na natureza selvagem*
— O que é que você tanto fotografa aí no chão?
Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma mancha na parede e que tirava fotos dela. “De uma mancha?”, ele disse, já me tendo por louca. Sorri de novo. “Elas ficam lindas numa tela, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.
Meu amigo Cárcamo é perito em fazer esse tipo de coisa aparentemente estranha. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele alimentou por meses: queria pintar uma natureza morta se inspirando nos tons da fruta em decomposição. Já vi aquarelas maravilhosas que ele produziu observando como a terra se infiltra pelas paredes e vai tingindo-as de limo.
Esse meu interesse nesses sinais do tempo é puramente estético. Gosto de fotografar a gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca a umidade deixa nas pedras, toda a paleta de verdes que tingem a ferrugem. Para mim, é como se a natureza deixasse claro que não é tão submissa assim à ação do homem e que, cedo ou tarde, cada carro, prédio e rua sucumbirá ao mato.
Ok, é um pouco assustador. Mas não deixa de ser lindo.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
Coluna do meio*
— Tem Lollo?
— Lollo?
— É. O chocolate da vaquinha.
— ...
— Da vaca amarela. Aquele de pacotinho azul, com uma vaca amarela.
— Moça, não tem nada com vaca aqui, não.
— Mas eu sempre compro aqui... Costuma ficar atrás de você, perto do Suflair... Ah, olha lá! É aquele azul!
— Esse? Milkbar?
— Ai, esqueci que agora ele chama assim...
— Agora? Ele sempre chamou assim. E não tem vaca, moça.
— É, né?
— É. Eu te disse que não tem chocolate com vaca.
— Mas tinha! Vinha uma vaquinha amarela nele, super fofa! Parecida com a zebrinha da Loteria.
— Zebrinha?
— Coluna do meio! Não lembra?
— ?
— Nossa, nunca me senti tão velha...
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
Bigodes, Focinhos e Raízes
Faz tempo que acalento a ideia de só escrever sobre bichos e plantas. Sempre acreditei que quem gosta de animais também curte flores – ainda que tenha dificuldade em cuidar de um, outro ou ambos.
Depois de ter me escolado na criação de gatos (tenho 43 no currículo) e de ter me aventurado no cultivo de plantas (são 88 vasos em casa, número que cresce a cada dia), posso dizer que aprendi alguns macetes.
Ponha uma capa no seu sofá e tenha bichos e humanos convivendo em harmonia. Ponha mamão na janela para atrair sabiá. Borrife água com cravo-da-índia para afastar os cães do jardim. Polvilhe sal nos canteiros e livre-se de lesmas. No verão, regue sua jabuticabeira todo dia e garanta frutas mais doces. E tenha paciência com as orquídeas porque uma hora elas vão com a sua cara e dão flores lindas.
Esses e outros truques estarão no recém-criado Bigodes, Focinhos e Raízes. Devia chamar Bigodes, Focinhos, Bicos, Antenas, Patas, Penas, Pelos, Chifres, Cascos, Folhas, Flores e Raízes, mas o pessoal do marketing achou que eu estava muito megalômana e me pediu para surtar menorzinho.
Como eu sou meio desobediente, aviso que será o blog mais bacana sobre bichos e plantas que eu já escrevi. Se isso não for o bastante para convencê-lo a dar as caras por lá, saiba que o Bigodes, Focinhos e Raízes fará promoções com livros, produtos e afins para seres clorofilados, alados ou de quatro patas.
Passa lá, vai?
O papelão como você nunca viu*
No Brasil, a caixa onde vem do sapato à geladeira costuma ter um bom destino graças à coleta seletiva e aos carroceiros. Com isso, reciclamos 77% do papelão ondulado produzido anualmente – índice equiparável ao da Europa e superior ao dos Estados Unidos.
Quem está de mudança e precisa de caixas para embalar os objetos sente isso na pele: é preciso implorar por uma mera caixa de 5 litros, porque o grosso do papelão já foi compactado e entregue aos catadores.
O design na reutilização do papelão avança ao ritmo da reciclagem. O material é a base das belas estantes moduláveis da Diefabrik, do incrível lustre de Anneke Jakobs e do simpático duplex para gatos da Caboodle. Bons exemplos de que é possível ir muito além do mero reaproveitamento do papelão.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
Pano pra manga*
Desde criança que eu adoro um pano. Uma das lembranças mais antigas de minha infância é de quando minha mãe me levava com ela à modista — o nome vintage para costureiro, que é vintage de estilista.
Dona Odete morava num prédio com elevador pantográfico, o que já me garantia cinco minutos de alegria. Enquanto minha mãe conversava sobre cortes e prazos, eu me jogava nas pilhas de retalhos, me escondia no meio dos rolos de tecido e, não raras vezes, saía chorando, um alfinete espetado na perna.
O tempo passou, mas pouca coisa mudou na minha paixão por panos. Ultimamente, dei para encapar qualquer coisa com eles: caixas, molduras de espelho, fundos de gavetas, capas de cadernos. Sem ter o que presentear a uma amiga, forrei um vaso dos mais simplórios com um tecido lilás floridinho e plantei uma muda de arruda, erva que traz sorte e espanta mau-olhado. Enfeitei com uma larga fita de veludo verde pistache e fiz um cartãozinho à mão. Ela amou.
Com pano ou não, chique, hoje, é botar as mãos à obra e fazer um presente artesanal. No mínimo, você garante algumas horas longe do estresse e do consumismo. Experimente!
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
Invejinha básica*
Quando perguntadas sobre o que invejam nos homens, nove em cada 10 mulheres costuma dizer que é a mordomia de poder mijar em pé. Algumas comentam sobre utilidades mais nobres para o membro viril. Uma minoria responde que não há nada que gostaria de ter que já não tenha, como se vê, uma mentira descarada. Nada?!? Nem andar sem camisa em dia quente? Nem ter pêlos no buço e ser considerado sexy? Nem ser cuidado como bebê só por causa de uma gripe? Francamente, que falta de criatividade...
Eu adoro ser mulher, mas é claro que gostaria de curtir alguma vez uma dessas exclusividades masculinas. São características bacanas, mas ainda não valem à pena abrir mão de ser menina. O que me faz realmente fritar de inveja não é ter pêlos no rosto, peito liso ou algo balançando entre as pernas — é ter nascido sem um GPS natural.
Tem dúvida? Pegue uma mulher e um homem e mande-os a um lugar que eles não conhecem. Ela vai dirigir com prudência, parar a cada posto de gasolina para pedir informações e chegar direitinho no lugar. Já ele vai se perder pelo caminho porque não quis perguntar nada para ninguém, vai dar luz alta para o carro da frente “que não anda” e, em pouco tempo, chegará ao lugar. Peça que repitam a operação daqui um ano: ela fará tudo de novo, mas ele, não. Desta vez, ele acertará de primeira. E ainda chegará 15 minutos antes.
Esse mundo é muito injusto...
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
O gaticídio
Grafite não precisou nem de três minutos para destruir o que levei três semanas para criar. Às 3h47, acordei com seu inconfundível arranhar ecoando pelo corredor vazio. Levantei disposta a cometer um gaticídio.
— GRAFITE!!! Não é para você arranhar a porta! Mamãe está dormindo, RONNNNC, viu? Dor-min-do! Quer dizer, estava, antes de você derrubar a porta. Tá vendo isso aqui? Eu passei noites em claro bolando isso para você NÃO arranhar a porta! Então, que tal você fazer sua parte, hein? Não é para arranhar a porta, Grafite!
Minha estratégia anti-arranhões foi criar uma tela de galinheiro presa a uma moldurinha de madeira. Calculei o tamanho mais discreto possível, para que a geringonça não ficasse pesada, afinal, eu teria de pôr e tirar o troço da porta todo dia. Tudo perfeito. Mas, para não estragar demais o batente, coloquei dois ganchinhos só em cima, na esperança de que Grafite entendesse que eu ostensivamente não queria que ele arranhasse a porta.
O problema é que gatos são ladinos. Aprendem rápido, bem mais rápido que um cachorro —, mas só fazem o que querem. E Grafite quer a mãe fazendo carinho nele de madrugada. Simples assim. Então, ele puxou a parte debaixo da tela com as patas, se esgueirou pelo vão entre a moldura e o batente, esticou os braços para cima e arranhou obstinadamente a porta até que eu levantasse.
— CHEGA!!! Como mamãe vai dormir desse jeito, Grafite?!? Você vai acordar a casa toda! Pare já de arranhar! Tá vendo essa tela? É para você não arranhar! Não, entendeu? Vá já dormir com seus irmãos e me deixe descansar!
Coloquei um peso em cada canto inferior da moldura — teriam de durar até que amanhecesse e eu pudesse usar a furadeira para colocar mais dois ganchos de suporte. Voltei pro quarto e me deitei rezando para que o sono viesse logo. Sonhei que galopava num cavalo alado lilás. O vento passava por meus cabelos fazendo róc, róc, róc... RÓC?!?
Eu vou matar esse gato.
A vida secreta das garrafas PET*
Embalagem das mais abundantes no planeta, a garrafa PET é tão perene quanto facilmente reciclável pela indústria. Resistente, esse plástico deixou de se restringir ao setor alimentício e é cada vez mais usado na produção de roupas, objetos de decoração e acessórios. Não à toa o Brasil é um dos maiores recicladores de PET do mundo, recolocando no mercado 47% de sua produção anual dessas garrafas plásticas.
Um bom exemplo da versatilidade desse material é seu uso em mobiliário: dá para fazer mesas, cadeiras e sofás só com PET e fita adesiva. O pioneiro nessa utilização é Sebastião Feijó, professor de biologia da rede pública do Rio de Janeiro. Em 1997, ele desenvolveu com seus alunos alguns móveis feitos com garrafas plásticas e, desde então, vem aperfeiçoando seu projeto. Apesar de sua técnica ser patenteada, ele faz questão de compartilhá-la na internet.
Para fazer uma cadeira de PET, são usadas entre 200 e 250 garrafas de 2 litros. Ainda que beneficie o planeta, o resultado dificilmente estaria na sala de visitas de alguém. Isso porque falta um degrau para se chegar de fato à sustentabilidade: falta o desejo. Enquanto as pessoas olharem a peça como uma bizarrice de militante, ela será apenas uma boa idéia desperdiçada.
Usar a estrutura desenvolvida por Feijó para criar uma cadeira ou sofá tão bonitos quanto ecologicamente corretos é um desafio que qualquer um de nós pode se propor. Eu já comecei a juntar minhas 250 garrafas PET.
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
As gêmeas mudam de casa*
— E os gatos, não vão sentir a mudança?
Muitos amigos têm me perguntado isso. É que os felinos ainda sofrem com a fama de que se apegam à casa e não ao dono. Já morei em oito endereços diferentes nos últimos dez anos e, em todas as mudanças, meus gatos sempre me acompanharam muito bem. Estranham os cheiros novos, andam se esgueirando por alguns dias, se escondem ao menor barulho, mas em uma semana estão esparramados no chão e disputando a tapa os cantos ensolarados da casa.
Quem certamente vai sentir a mudança são meus 72 vasos de plantas. Ainda faltam dez dias para eu conseguir pisar no meu apartamento novo, mas as novas mudas já estão fazendo política da boa vizinhança. Quando o jardineiro me disse que teria de cortar ao meio uma folhagem que se enraizou por dois vasos simultaneamente, meu coração se apertou.
Lembro até hoje quando ganhei a muda, três folhinhas que mal cabiam na palma da minha mão, com uma raiz tímida se esticando para fora do caule... Parece que foi ontem e já se passaram cinco anos!
Como crescem rápido as crianças...
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
O longo caminho do lixo ao luxo*
Que reciclar poupa o planeta, todo mundo sabe. Dos camelôs a grandes lojistas, muita gente ganha dinheiro comercializando peças feitas com materiais que tradicionalmente iriam para o lixo. Até aí, tudo bem.
O problema é que a maioria da criação pára por aí. As lojas estão cheias de badulaques simplórios e mal-acabados, das batidas bolsinhas feitas com lacre de latinha de alumínio aos pavorosos vasos de garrafa PET.
Está na hora de artesãos e designers darem mais um passo rumo à sustentabilidade: que tal fazer peças mais bonitas? Fugir da reutilização pura e simples de papel, plástico, vidro e papelão e começar, de fato, a criar coisas que as pessoas desejem?
Aqui, aqui e aqui, você poderá conhecer alguns dos objetos mais bacanas e criativos feitos por quem não se limita a simplesmente “ajudar a natureza”. Inspire-se!
*Post originalmente publicado no blog Retribua.
Como descartar eletroeletrônicos?*
Uma opção é doá-los para entidades filantrópicas, como casas que abrigam idosos ou jovens carentes. Alguns fabricantes recebem equipamentos de volta. Caso da Dell, que envia computadores em bom estado para centros comunitários. A fundação Pensamento Digital, de Porto Alegre e o Museu do Computador, de São Paulo, aceitam doações de computadores, teclados e mouses, entre outros, enquanto algumas ONGs e empresas de reciclagem, como a Sucata Eletrônica, de São Paulo, compram televisores, computadores, celulares, impressoras, câmeras digitais e até cercas elétricas.
No site www.cempre.org.br, você encontra uma relação de empresas que compram aparelhos usados. Baterias de celulares devem ser entregues nas lojas da operadora ou na rede de assistência técnica autorizada do fabricante.
*Versão sem cortes de reportagem feita em parceria com a repórter Bruna Menegueço, publicada na revista Gestão Empresarial
Os dez mandamentos do usuário consciente*
1. Pesquise
É importante descobrir se o fabricante se preocupa com o meio-ambiente e se recolherá as peças usadas para reciclagem, depois que o aparelho perder sua utilidade.
2. Prolongue
Você não precisa trocar de celular todos os anos ou comprar um computador com essa mesma freqüência. Quanto mais eletrônicos adquirir, maior será a quantidade de lixo eletrônico. Por isso, cuide bem de seus produtos e aprenda a evitar os constantes apelos de troca.
3. Doe
Caso seja realmente necessário trocar o aparelho, mas se ele ainda funcionar, doe para alguém que vai usá-lo.
4. Recicle
Os grandes fabricantes de eletrônicos oferecem programas de reciclagem. Antes de jogar aquele monitor estragado no lixo, entre em contato com a empresa e pergunte o endereço de coleta.
5. Substitua
Procure sempre fazer mais com menos. Produtos que agregam várias funções, como uma multifuncional, consome menos energia do que cada aparelho usado separadamente.
6. Informe-se
O usuário da tecnologia deve ser adepto ao consumo responsável, sabendo as consequências que seus bens causam ao ambiente. Por isso, é importante estar atento ao assunto – somente assim será possível eliminar hábitos ruins e tomar atitudes que minimizem o impacto do lixo eletrônico.
7. Escolha o original
As empresas que falsificam produtos não seguem políticas de preservação do ambiente ou não se responsabilizam pelas peças comercializadas depois que sua vida útil chega ao fim.
8. Pague
Os produtos dos fabricantes que oferecem programas de preservação ambiental podem ser mais caros – isso porque parte dos gastos com essas iniciativas podem ser repassadas para o consumidor. A diferença do preço não chega a níveis absurdos e por isso, vale a pena optar pela alternativa verde. A diferença, muitas vezes, alivia a conta de luz.
9. Economize energia
Na hora de comprar um eletrônico, opte pelo produto que consome menos energia. Além disso, o consumidor consciente deve usar fonte de energia limpa (como a solar) sempre que possível.
10. Mobilize
É importante passar informações sobre lixo eletrônico. Muitos usuários de tecnologia não se dão conta do tamanho do problema. Divulgue, mas evite aqueles discursos longos e catastróficos dos “ecochatos”, que não são nada populares.
*Versão sem cortes de reportagem feita em parceria com a repórter Bruna Menegueço, publicada na revista Gestão Empresarial
A tecnologia na onda verde - 2*
Anos atrás, quando termos como “sustentabilidade” causavam arrepios, as companhias se limitavam a assegurar que seus produtos chegassem às prateleiras. O que o consumidor fazia com eles não lhes dizia respeito. Hoje, elas começam a trilhar o caminho inverso: o do consumidor de volta à empresa. Diante desse desafio, enfrentam duas grandes dificuldades. A primeira é nos convencer a devolver os aparelhos velhos em vez de jogá-los no lixo. A segunda, bem mais dispendiosa, é produzir equipamentos menos tóxicos.
Nesse quesito, ainda não há soluções definitivas. Empresas de tecnologia como Lenovo, Itautec, Dell e HP vêem experimentando uma série de ações, que vão desde a escolha de fornecedores comprometidos com questões sociais e ecológicas até mudanças na composição dos equipamentos. Não resolve todo o problema. Mas já é um começo. Entenda o que cada substância causa ao organismo e ao meio ambiente:
Chumbo
É uma neurotoxina e também afeta os rins e o sistema reprodutivo. Pode prejudicar o desenvolvimento mental de uma criança.
Onde é usado: Computador, celular e televisão.
PVC
A queima desse plástico versátil libera dioxinas muito tóxicas.
Onde é usado: Em fios, para isolar corrente.
Retardantes de chama polibromados
Esse grupo de compostos pode causar danos à tireóide e afetar o desenvolvimento fetal.
Onde é usado: Diversos componentes eletrônicos, para prevenir incêndios.
Bário
Uma exposição intensa provoca distúrbios gastrintestinais, debilidade muscular, dificuldades respiratórias e elevação ou queda na pressão sanguínea.
Onde é usado: Em baterias e outras formas de acumuladores de energia.
Mercúrio
Associado a danos neurológicos e renais; prejudicial a fetos. Pode ser transmitido através do leite materno.
Onde é usado: Computador, monitor e TV de tela plana.
Berílio
Carcinogênico, o pó de berílio causa doenças pulmonares.
Onde é usado: Computador e celular.
Cádmio
Exposições longas a esse elemento carcinogênico provocam danos nos rins e ossos.
Onde é usado: Computador, monitores de tubo antigos, baterias de laptops.
*Versão sem cortes de reportagem feita em parceria com a repórter Bruna Menegueço, publicada na revista Gestão Empresarial
Para encantar a criança que há em você*
Se você acha que a sessão infantil das livrarias é lugar para pais e mães levarem seus rebentos, está na hora de rever seus conceitos: os novos livros ilustrados ganham status de obra de arte e convidam leitores — jovens e adultos — a se deleitar com imagens e texto cada vez mais sofisticados
A encantadora de princesas
Personagem número um dos contos de fadas, as princesas fogem de todos os estereótipos nas mãos de Rébecca Dautremer. Entre conhecidas e inventadas, as 37 pequenas infantes deste livro podem ser doces como Blandina, malvadas, como Tremenduskah, ou graciosas como Efêmera da China. O ar meio melancólico que elas ostentam fica por conta das pinceladas desta genial ilustradora francesa, cujo trabalho envolve exposições premiadas e um longa-metragem, O Segredo de Eleonora, que deve ser lançado em 2009.
Princesas Esquecidas e Desconhecidas
Philippe Lechermeier e Rébecca Dautremer
Ed. Salamandra, 96 págs., R$ 84,90
Bosch revisitado
Saleiros alados, mini-elefantes andando pelo teto, castelos construídos sobre vacas, vespas gigantes com cabeça de cavalo lagartas que se transformam em folhas, caules, brotos. Tudo isso é possível no universo surreal de Olga Dugina e Andrej Dugin. O nonsense desse casal de russos malucos empresta modernidade ao conto tradicional sobre um alfaiate pobretão que consegue, com sua esperteza, conquistar a realeza. Minuciosas, as pinturas lembram as obras dos renascentistas Hieronymus Bosch (1450-1516) e Pieter Bruegel (1525-1569). Uma raridade.
O Alfaiate Valente
Arnica Esterl, Olga Dugina e Andrej Dugin
Ed. Cosac Naify, 26 págs., R$ 39
Ladrão que rouba ladrão
Oculta, Lúcia e Justa vêm de uma longa linhagem de ladras: uma é milionária, mas vive como miserável; outra leva a vida como estrela de cinema. Só Justa, a mais jovem, rouba o necessário para não morrer de fome ou de frio. Cansada de tentar brilhar mais que o sol de verão, como intentam as irmãs, a caçula compra um pequeno sítio e começa lá uma nova vida... até que alguém muito especial lhe rouba seu coração. O traço limpo e elegante da espanhola Elena Odriozola empresta modernidade e leveza a esta história irresistível sobre o poder do amor.
As Três Ladras
Txabi Arnal e Elena Odriozola
Ed. Oqo, 64 págs., importado
Poesia em preto e branco
O aquarelista Odilon Moraes vem se especializando em derrubar preconceitos do mercado editorial: livro ilustrado não pode ser triste, capa verde não vende, o personagem tem de estar de frente e rindo na capa. Ilustrações monocromáticas, então, nem pensar! A cada novo projeto, ele rompe com um tabu, como nesta obra, toda em preto e branco, sobre um garoto chamado Pedro, uma Lua de pedra e uma tartaruga que se parece com a Lua. Arrojadas, as imagens mantêm os riscos dos esboços, pontuados por sombras translúcidas sob um céu imenso de nanquim.
Pedro e Lua
Odilon Moraes
Ed. Cosac Naify, 48 págs., R$ 33
Admirável mundo novo
Paisagens bizarras, comidas exóticas, hábitos desconhecidos e um alfabeto impenetrável. Essa poderia ser a descrição de qualquer cidade por um estrangeiro que, nos idos de 1900, ousasse fugir de sua terra natal para desembarcar do outro lado do oceano. A trama conta os percalços de um imigrante que tenta construir um lar em outro país, com toda frustração, saudade e delícia que há em aceitar uma nova cultura. Sem usar uma única palavra, Shaun Tan cria uma história universal sobre a amizade e a esperança. Uma obra-prima para qualquer idade.
The Arrival
Shaun Tan
Ed. Scholastic, 128 págs., importado
Para saber mais sobre livros ilustrados
Era uma Vez uma Capa
Alan Powers
Ed. Cosac Naify, 144 págs., R$ 65
Pelos Jardins Boboli
Rui de Oliveira
Ed. Nova Fronteira, 178 págs., R$ 49,90
O que é Qualidade em Ilustração no Livro Infantil e Juvenil
Ieda de Oliveira
Ed. DCL, 216 págs., R$ 37,90
*Versão sem cortes de texto publicado originalmente na revista Bons Fluidos
A tecnologia na onda verde - 1*
Bário, berílio, cádmio. Qualquer pessoa que não seja um químico sabe pouco sobre esses elementos – exceto, talvez, que eles constam da velha tabela periódica do colégio. Embora pareçam exóticos e pouco usuais, esse e outros metais pesados estão na maioria dos equipamentos eletrônicos tão abundantes em nosso cotidiano. São eles que fazem baterias de celular durarem mais ou impedem computadores de explodir.
Enquanto são novas, máquinas e outros instrumentos tecnológicos costumam nos causar poucos danos — nada muito além de estresse ou irritação. Mas, quando viram sucata, se acumulam em aterros ou são incinerados, os eletrônicos revelam funções que não estavam especificadas no manual de instruções: seus metais pesados se decompõem contaminando o solo, o ar e a água e podem causar problemas de saúde que vão da má formação de bebês a graves seqüelas neurológicas, falência dos rins e câncer.
Por trás de computadores parcelados em 24 vezes, celulares gratuitos, tocadores de mp3 cada vez mais potentes e outros cacarecos eletrônicos vendidos a preço de banana está uma tecnologia barata, descartável e tóxica. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, segundo o Greenpeace, a cada ano são descartadas 50 milhões de toneladas de chips, circuitos, placas, computadores, celulares e outras parafernálias cibernéticas. É um número tão grande que é quase inimaginável. Se todo o lixo eletrônico gerado anualmente fosse colocado em um trem, seus vagões dariam uma volta ao redor do mundo — e, ainda assim, é difícil de conceber tamanha sujeira.
O tempo de vida útil dos aparatos eletrônicos diminui numa rapidez inversamente proporcional ao aumento de seu consumo. Em 1997, um PC pessoal durava pouco mais que meia década. Em 2005, com dois anos de uso, um computador já era considerado obsoleto. Hoje, bastam alguns meses para transformar qualquer equipamento em peça de museu.
Em todo o mundo, as empresas de tecnologia tentam mudar essa imagem de poluidoras e se esforçam para diminuir seu impacto ambiental. De 2005 para cá, muitas delas passaram a recolher os próprios equipamentos usados para depois reaproveitar a matéria-prima na linha de produção. É uma atitude modesta, ainda, mas que envolve uma mudança radical na maneira como elas têm de pensar seu negócio.
*Versão sem cortes de reportagem feita em parceria com a repórter Bruna Menegueço, publicada na revista Gestão Empresarial
Você sabe ser criança?
1. Você adoraria tomar um banho:
a) De chuva e muito bem acompanhado
b) De esguicho, numa farra com os filhos
c) De banheira, com um pato amarelo
2. Bicho de pelúcia serve:
a) Para juntar um pó danado
b) Para enfeitar o quarto
c) Para dar/receber de presente
3. Quando você olha para o céu, procura:
a) Passar longe de coisas que possam cair
b) Enxergar além das luzes e ver estrelas
c) Encontrar formas de bichos nas nuvens
4. Gostaria de ter aprendido a:
a) Dirigir como seus amigos
b) Cozinhar como sua mãe
c) Andar de bicicleta como seus filhos
5. No parquinho de diversões você:
a) Aproveita para namorar
b) Leva a criançada
c) Faz um retorno à infância
6. Bolo bom é aquele:
a) Bolo? Nem pensar, eu vivo de dieta!
b) Que rende bastante porque a família é grande
c) Que só tem cobertura, o mais gostoso
7. Num caderno sem uso, anotaria:
a) A lista de supermercado
b) A tarefa de casa dos filhos
c) Pensamentos secretíssimos
8. Você coleciona:
a) Contas: de cristal, imitando pérolas, de miçangas
b) Contas: de material escolar, dos uniformes, da cantina
c) Coisas: figurinhas, canetas coloridas
9. Seu passatempo preferido é:
a) Fazer compras e acompanhar o noticiário na internet
b) Passatempo? Eu não tenho um minuto de sossego...
c) Ver desenho animado, ler gibi e entrar no Guindaste
10. Seu anjo da guarda tem a forma:
a) É cada coisa que me perguntam…
b) Do seu filhote, risonho e carinhoso
c) De seu bicho de estimação
Se você respondeu mais:
a) Adultíssimo
Você é prático: cuida do visual, administra bem seu tempo e é determinado. Prefere ser visto como uma pessoa interessante do que como alguém que perde tempo com brincadeiras bobas – afinal de contas, você já é bem grandinho.
b) Brincalhão
Os filhos lhe mostraram que é possível, sim, ser adulto e meio criança. Por isso, você não perde uma oportunidade de se divertir como eles: sem medo de ser feliz. Quem foi que disse que gangorra, corda e balanço são só para a molecada?
c) Criança grande
É só ver um álbum de figurinhas na banca que você fica louco para colecionar? Disputa com as crianças balas, chicletes e livros infantis? E não vê a hora de arranjar um amigo para trocar bilhetinhos em código? Pois é, você só cresceu por fora...
A selva
Vi primeiro sua sombra: dava os saltitos inconfundíveis dos passarinhos, mas um pouco desengonçado por trazer alguma coisa pesada no bico. Em plena avenida, perambulando assim tão perto das pessoas, só podia ser um pardal.
Saí da loja para vê-lo, mas sua sombra fugidia foi mais rápida e desceu a rampa antes que eu pudesse enxergá-lo. Fui atrás, andando devagar para não assustá-lo. Uma moça que vinha no sentido contrário passou perto demais e fez voar o pequeno pardal — agora eu tinha certeza —, que, num farfalhar desajeitado, pousou na mureta poucos metros à minha frente.
Adoro pardais e urubus. Em meio a buzinas, golfadas de monóxido de carbono e à escassez de árvores e beirais, esses pássaros prosperam por sua sagacidade e rapidez em se adaptar à presença humana. Constróem ninhos em semáforos, planam sobre as Marginais e se alimentam dos restos da civilização. Não fossem eles e as pombas, caminharíamos entre ratos.
Andei sem fazer barulho até que fiquei a três passos do pardal. Entretido que estava com sua presa, ele não notou minha presença. Foi só então que reparei: de seu bico saía metade de uma barata das grandes.
E eu achando que a vida na cidade havia emprestado alguma decência aos pardais...
O camundongo valente
Despereaux Tilling subverte a lei dos camundongos logo ao nascer: ao contrário de seus irmãos, vem ao mundo com os olhos abertos. Sem demonstrar nenhum interesse por procurar migalhas ou se esconder nas sombras, suas “transgressões” seguem desconcertando sua família até que ele se apaixona por uma princesa humana — um crime imperdoável aos olhos dos roedores. Banido de sua família por seu próprio pai, ele é condenado a viver nas trevas do calabouço, onde um rato e uma garotinha burra conspiram contra a vida da princesa.
Da mesma autora do premiado A Extraordinária Jornada de Edward Tulane, A História de Despereaux tem as marcas que caracterizam o trabalho de Kate DiCamillo: uma trama simples focada em heróis comuns, narrada por um texto delicado, que mais parece um sussurro. Li os dois livros sem perceber, de um só fôlego, quando minha intenção era apenas folheá-los: Edward Tulane, em pé, numa livraria, e Despereaux, assim que o recebi da assessoria de imprensa. É como se causassem uma hipnose.
Agora, vejo que o filme O Corajoso Ratinho Despereaux pouco se parece com o camundongo (ca-mun-don-go e não ratinho, como a escritora faz questão de destacar no livro!) que encontrei no livro. Já esperava por isso: é preciso ter muita coragem para levar às telas um personagem tão melancólico quando o robozinho de Wall-E. Se ainda não viu a animação, vale a pena conhecer o livro antes.








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