Gentileza gera gentileza*
— Como é seu nome?
O garçom me olhou perplexo. Franziu o cenho como se não tivesse ouvido e me perguntou: “Como?”. “Seu nome. Como você chama?” Ele ainda se atrapalhou por mais uns segundos até gaguejar “Josias”.
Eu acredito no poder da gentileza. Quando você mira nos olhos um faxineiro, garçom, pedreiro, taxista ou qualquer outro trabalhador historicamente ignorado, rompe a barreira de aventais, redinhas de cabelo e crachás. É como se fosse um lembrete de que há um ser humano por trás da impessoalidade do uniforme.
Faça um teste quando estiver em um restaurante ou passar ao lado de uma babá ou varredor de rua: as pessoas costumam ignorar acintosamente esses trabalhadores. Não me estranha que, depois de anos sendo tratados como portas, os seguranças, recepcionistas e porteiros sejam acometidos pela “síndrome do pequeno poder” e nos tratem solenemente mal quando precisamos deles. Bem feito pra gente.
Assim como ser tratado como alguém invisível deixa marcas, o contrário também é verdadeiro. Há uma mocinha, cega de um olho, que fazia a limpeza do andar onde eu trabalho. Quando a vi pela primeira vez, tão bonita e tão escondida atrás de uma venda, pude sentir sua imensa solidão, tirando restos de papéis das lixeiras, espanando armários e prateleiras. Tudo em silêncio. “Como você se chama?” Ela sussurrou “Ângela” como se seu nome fosse um crime. “Que nome lindo! Parece ‘anjo’!” Ela não disse nada. Desviou o olhar, se curvou e saiu de fininho pedindo desculpas.
Depois disso, toda vez que eu a via, a gente se cumprimentava. Consegui convencê-la a abandonar o “senhora” para se referir a mim. Aos poucos, ela foi deixando de lado a postura de extrema submissão. Ela mudou de andar, mas me faz visitas semanais. Ontem, Ângela me olhou nos olhos e me agradeceu. Nunca fiz mais que ser gentil com ela. “Mas ‘obrigada’ por quê, Ângela?” “Por tudo.”
PS: Em 2005, publiquei na Folha de S.Paulo uma entrevista com o psicólogo Fernando Braga da Costa. Para estudar a invisibilidade por que passam alguns profissionais, ele trabalhou por anos como gari na USP. Seu relato é impressionante. Confira aqui.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
Posts similares:
Gentileza gera gentileza
Pulso
Pra constar, I´m stil alive
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Obrigada, Tayna. Na próxima, cobro 10%, hehe.








RSS feed