Herminices*
Eu nunca tinha tido um amigo poeta até conhecer Hermínio. E, por mais que tivesse uma idéia prévia de como se dá uma relação dessas — quem sabe permeada por rimas sinuosas e mudanças repentinas de humor —, nossa amizade nunca foi um clichê.
Ainda que sejamos próximos, Hermínio nunca me mandou uma rima sequer. Sua poesia está nas pequenas coisas. Quando o conheci, ele usava um pijama de inverno azul cheio de listinhas coloridas — bem o tipo de roupa que um artista vestiria para receber alguém em casa pela primeira vez. Anos mais tarde, comentei do tal pijama. “Foi presente de um casal de amigos”, ele respondeu. Uma semana depois, recebi uma caixa com o pijama dentro — não um pijama igual, novo ou do meu tamanho, e sim O pijama do Hermínio, lavado, passado e uns cinco números maior do que eu usaria.
Hermínio adora dar presentes. De outra feita, me mandou um sedex com sapatilhas de balé surradas e um pé só de uma bota de cano curto. Dourada. Masculina. “Vi num brechó e achei a sua cara”, escreveu ele, num bilhete maroto.
Este Hermínio, dado a repentes e presentinhos malucos, só existe entre amigos. Mas todos os outros Hermínios Bello de Carvalho podem ser conhecidos no Acervo HBC, um site que acaba de lançar na net toda obra do compositor, produtor cultural e homem de muitas graças. Passei uma tarde inteira fuçando nas gavetinhas de lá e, enfim, encontrei o Poeta.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
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