Simples visão*
Desde que coloquei a primeira armação de óculos sobre o nariz, aos onze anos, não sei o que é passar mais que alguns minutos sem enxergar direito. Para se ter uma idéia da situação, sou tão míope que não seria capaz de reconhecer minha mãe mesmo que ela estivesse sentada a três palmos de distância. É por isso que digo que só tenho dois estados físicos: de lentes de contato ou dormindo.
Hoje, tive de passar oito horas sem óculos ou lentes de contato. Para além do desespero de não reconhecer nada que esteja a mais de quinze centímetros do meu nariz, descobri que a cegueira momentânea pode ser estranhamente tranqüilizadora.
Há um certo aconchego em ver todas as informações visuais do mundo – cores, pessoas, propagandas, paisagens, prédios, etiquetas, marcas –, tudo isso reduzido a manchas e borrões. É como ingressar numa dimensão paralela, um mundo onde as luzes de postes são como grandes lantejoulas flutuantes e os faróis de carros se unem num longo colar de prata.
Quando as formas ao redor se diluem e as pessoas se fundem a paredes, colunas e árvores, uma sensação quente preenche as lacunas do que não se vê. Já não é mais preciso se ater aos detalhes, às expressões faciais, à linguagem corporal. Toda a atenção se volta ao que está ao alcance dos olhos, muito, muito perto. Simples assim.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
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