Os pássaros caídos*
Os dedos apertam a caneta como se ela fosse uma prisioneira prestes a se desvencilhar e sair correndo. Dói. A letra sai com tanta força que, três folhas abaixo, ainda é possível ver as marcas no papel.
Era criança ainda quando me contaram que minha caligrafia poderia denunciar meu estado de espírito. Se eu escrevesse acima ou abaixo da linha, se meu “g” fosse anguloso ou inclinado, se riscasse o “t” da direita para a esquerda, alguém poderia descobrir meus desejos mais profundos.
Passei a adolescência inteira tentando ter uma caligrafia indecifrável, tão correta quanto possível. Tudo redondo, claro, linear. Cada “i” e “j” com seu pingo exatamente em cima. Cada frase com um claro ponto final.
Só quando descobri a máquina de escrever — e, mais tarde, o computador — é que finalmente aceitei minha letra real. Não aquela criada para ser aceita. Não a caligrafia escolar irrepreensível. Não. Meus próprios “tês”, “éfes” e “bês”. Minhas frases interrompidas, irregulares, traiçoeiras. Trêmulas. Como pássaros caídos.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
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