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A vida íntima das palavras*

Bibliotecas sempre foram, para mim, lugares acolhedores. Ainda criança, lembro com carinho das horas em que passei sob o silêncio da pesadas estantes da pequena biblioteca da minha escola. Lia tudo o que estava ao alcance, mas tinha adoração por um livro fininho e cheio de ilustrações chamado O Corcel Negro, uma das muitas versões do conto de Walter Farley sobre um cavalo que sonha com a liberdade.

Li e reli esse livro dezenas de vezes. Não sei o que procurava, mas cada nova leitura me parecia diferente da anterior — eu notava uma sombra aquarelada que não tinha reparado antes, me detinha numa frase bonita ou numa palavra nova qualquer. Naquela época, a literatura era um mundo inacessível para criancinhas de cinco anos como eu então tinha.

“Vocês podiam avançá-la de ano”, sugeriu a diretora da escola assim que soube que eu já sabia ler, escrever e fazer contas. Minha mãe não deixou. Fez bem. Eu já era a menor da minha classe, teria sido massacrada entre os alunos maiores e mais velhos. Com a negativa de minha mãe, a diretora não teve outra escolha senão me separar das outras crianças: passei toda a primeira série lendo. Sozinha. Em silêncio.

Foi lindo.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira


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