Genial
Banner do Barăo de Itararé
EcoBlogs

Economize no material escolar!*

Mal terminaram os gastos com as festas de fim de ano e já chegou a lista de material escolar – e, o pior: com um aumento de 15%! Para não ficar o ano inteiro amargando essa conta, o primeiro passo é reaproveitar o que ainda estiver em bom estado: fichários, tesouras, réguas, mochilas, lancheiras e outros itens não precisam ser trocados todo ano. Encapado com um papel bonito, o caderno velho vira novo. Pesquise bem os preços (use a internet para isso) e veja se a escola tem alguma parceria com lojas que ofereçam descontos. Aqui vão outras boas dicas para economizar:

- Deixe seu filho em casa
É como ir ao supermercado com fome: criança em papelaria só faz a conta subir...

- Compre em grupo
Junte outros pais e comprem por atacado. Às vezes, sai pela metade do preço.

- Fuja dos brinquedos
Materiais de marca ou com cara de brinquedo costumam ser bem mais caros.

- Vá sem pressa
As opções mais baratas acabam primeiro nas lojas. Vá às compras o quanto antes.

*Versão sem cortes de matéria publicada na revista AnaMaria

Gentileza gera gentileza*

— Como é seu nome?

O garçom me olhou perplexo. Franziu o cenho como se não tivesse ouvido e me perguntou: “Como?”. “Seu nome. Como você chama?” Ele ainda se atrapalhou por mais uns segundos até gaguejar “Josias”.

Eu acredito no poder da gentileza. Quando você mira nos olhos um faxineiro, garçom, pedreiro, taxista ou qualquer outro trabalhador historicamente ignorado, rompe a barreira de aventais, redinhas de cabelo e crachás. É como se fosse um lembrete de que há um ser humano por trás da impessoalidade do uniforme.

Faça um teste quando estiver em um restaurante ou passar ao lado de uma babá ou varredor de rua: as pessoas costumam ignorar acintosamente esses trabalhadores. Não me estranha que, depois de anos sendo tratados como portas, os seguranças, recepcionistas e porteiros sejam acometidos pela “síndrome do pequeno poder” e nos tratem solenemente mal quando precisamos deles. Bem feito pra gente.

Assim como ser tratado como alguém invisível deixa marcas, o contrário também é verdadeiro. Há uma mocinha, cega de um olho, que fazia a limpeza do andar onde eu trabalho. Quando a vi pela primeira vez, tão bonita e tão escondida atrás de uma venda, pude sentir sua imensa solidão, tirando restos de papéis das lixeiras, espanando armários e prateleiras. Tudo em silêncio. “Como você se chama?” Ela sussurrou “Ângela” como se seu nome fosse um crime. “Que nome lindo! Parece ‘anjo’!” Ela não disse nada. Desviou o olhar, se curvou e saiu de fininho pedindo desculpas.

Depois disso, toda vez que eu a via, a gente se cumprimentava. Consegui convencê-la a abandonar o “senhora” para se referir a mim. Aos poucos, ela foi deixando de lado a postura de extrema submissão. Ela mudou de andar, mas me faz visitas semanais. Ontem, Ângela me olhou nos olhos e me agradeceu. Nunca fiz mais que ser gentil com ela. “Mas ‘obrigada’ por quê, Ângela?” “Por tudo.”

PS: Em 2005, publiquei na Folha de S.Paulo uma entrevista com o psicólogo Fernando Braga da Costa. Para estudar a invisibilidade por que passam alguns profissionais, ele trabalhou por anos como gari na USP. Seu relato é impressionante. Confira aqui.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A outra revolução*

Que orgasmos múltiplos, que nada. Poder feminino é experimentar a sensação de, você mesma, so-zi-nha, botar uma prateleira na parede. Ou trocar a resistência do chuveiro sem ser alvo de olhares ameaçadores do encanador. Ou ainda ir até uma loja de material para construção e pedir coisas como “chave de boca” ou “pá de pedreiro número oito” sem ouvir risinhos disfarçados. Uau.

Minha vida mudou depois que aprendi a usar a furadeira. Com um pouco de prática, é possível até mesmo dar um toque feminino à arte de fazer buracos em concreto ou madeira: basta fazer um “U” com um chumaço de papel higiênico molhado e grudá-lo na parede, embaixo de onde fará o furo. Assim, você pode meter bronca que o chão continua limpinho. Mais mulherzinha, impossível.

Mas a melhor experiência faça-você-mesma por que passei foi chapiscar um muro. Foram necessários dois dias de investigação intensa para descobrir que receita de reboco não é como fazer arroz. Sabe aquela coisa de uma de cimento pra duas de água? Esqueça. Uma hora e meia depois, eu e o muro ainda não havíamos nos acertado sobre quem deveria chapiscar quem.

Levei uma tarde toda para fazer meio metro de muro e uma semana para tirar todo o cimento seco do cabelo e das unhas. Tudo bem que minhas mãos só voltaram a ter consistência de pele humana depois de um mês e muito hidratante, mas nada supera o orgulho de olhar para aquele cantinho da parede e saber que, debaixo de todo aquele cimento irregular, há um muro que fui eu quem chapiscou. Isso, sim, é a revolução feminina!

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Herminices*

Eu nunca tinha tido um amigo poeta até conhecer Hermínio. E, por mais que tivesse uma idéia prévia de como se dá uma relação dessas — quem sabe permeada por rimas sinuosas e mudanças repentinas de humor —, nossa amizade nunca foi um clichê.

Ainda que sejamos próximos, Hermínio nunca me mandou uma rima sequer. Sua poesia está nas pequenas coisas. Quando o conheci, ele usava um pijama de inverno azul cheio de listinhas coloridas — bem o tipo de roupa que um artista vestiria para receber alguém em casa pela primeira vez. Anos mais tarde, comentei do tal pijama. “Foi presente de um casal de amigos”, ele respondeu. Uma semana depois, recebi uma caixa com o pijama dentro — não um pijama igual, novo ou do meu tamanho, e sim O pijama do Hermínio, lavado, passado e uns cinco números maior do que eu usaria.

Hermínio adora dar presentes. De outra feita, me mandou um sedex com sapatilhas de balé surradas e um pé só de uma bota de cano curto. Dourada. Masculina. “Vi num brechó e achei a sua cara”, escreveu ele, num bilhete maroto.

Este Hermínio, dado a repentes e presentinhos malucos, só existe entre amigos. Mas todos os outros Hermínios Bello de Carvalho podem ser conhecidos no Acervo HBC, um site que acaba de lançar na net toda obra do compositor, produtor cultural e homem de muitas graças. Passei uma tarde inteira fuçando nas gavetinhas de lá e, enfim, encontrei o Poeta.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Cão, dócil, procura*

Beatriz Levischi não podia pegar um cachorro. Não agora, que ela era a responsável por administrar uma casa enorme e alimentar dez gatos vira-latas. Justo ela, que, poucos anos atrás, jamais teria pensado em adotar um bicho. Justo ela que vivia se queixando do tamanho da casa que herdou e da precariedade com que podia mantê-la. Justo ela que agora era órfã de mãe. E foi justo ela quem acolheu Marley, o cão-demônio.

Era uma tarde de sexta-feira quando o destemido focinho se atirou na frente de um ônibus, cambaleando e desorientado. Por um triz não foi atropelado — o triz atende pelo nome de Beatriz Levischi, alma caridosa profissional e jornalista nas horas vagas, 47 kg facilmente arrastáveis por qualquer cachorro, como bem demonstrou o Marley em seu primeiro passeio.

Três meses depois de tirar uma fina do ônibus, todos estão em compasso de espera. Bia não tem condições de ficar com Marley. Dez bigodes clamam por uma tarde ao sol, sem medo de serem estraçalhados pelo cão. E Marley — castrado, vermifugado e com pleno controle de suas faculdades físicas e mentais — precisa de um dono carinhoso.

Quem se habilita?

Cada um no seu quadrado*

Ganhei um cubo mágico, aquele brinquedo que enervou as pessoas na década de 80, junto com o Genius, o Tangram e o Pitfall. Veio montadinho, cada face de uma cor, com seus cubinhos menores lindamente encaixados, até que eu tive a brilhante idéia de girar um lado só um pouquinho. Pronto, em menos de dez segundos, eu já estava num caminho sem volta para tentar fazer as cores se alinharem novamente.

Passei uma semana tentando resolver o brinquedo do demo, mas cada vez que eu acertava uma faceta, bagunçava outra que já estava pronta. O nerd que inventou esse brinquedo devia ter raiva da humanidade e achou uma boa maneira de se vingar do mundo. Ou isso ou meu QI é, definitivamente, do tamanho de uma ervilha.

Eu já estava apelando para descolar as etiquetas que sinalizam as cores e colá-las do lado certo — pois é, meu cubo mágico é da 25 de Março, o que posso fazer? —, quando resolvi dar uma espiada na internet. Descobri centenas de fórmulas para resolver o enigma, equações elaboradíssimas com variantes assimétricas e outros termos de arrepiar. Mas fiquei encantada mesmo quando encontrei, no You Tube, um adolescente ensinando o passo-a-passo, em oito mini-vídeos. Mais fácil que isso, só comprando um cubo mágico novo.

Ok, não é um jeito muito honesto de ganhar o jogo. Mas me senti com o QI do tamanho de uma batata. Das grandes.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Atrás das letras*

Comecei hoje a ligar para os primeiros ganhadores da promoção 1 Livro por Dia. Uma das coisas que mais me animou a botar no ar esse concurso cultural foi a possibilidade de conhecer você melhor, esticar um pouquinho a prosa que temos por aqui, estreitar laços. E qual não foi minha surpresa ao ouvir, seguidas vezes, “é você quem faz a seleção? Achei que era o computador...”.

No mundo em que vivemos, as pessoas têm toda razão em acreditar que máquinas estão por trás de tudo o que fazemos — afinal, elas estão mesmo. Elas fazem nosso café da manhã, almoço e jantar. Nos permitem vencer longas distâncias ou construir coisas que só existem na imaginação. Nos deixam aquecidos ou gelados, calmos ou tensos, ricos ou pobres. Vigiam aqueles que ousam nos tirar o sono e zelam pelos sonhos dos cidadãos de bem. Máquinas, são, enfim, geniais.

Não tenho dúvidas de que um computador consegue resolver em minutos o que eu levo horas para fazer. Se bobear, uma máquina faria uma seleção de respostas muito mais criteriosa do que a minha, sem sentimentalismos, sem subjetividades ou simpatias, sem todas essas coisas que interferem no julgamento humano.

Mas máquinas ainda não sabem reproduzir a alegria que me dá conhecer gente nova. Ouvir uma voz que nunca ouvi. Imaginar o que você sente aí do outro lado. Perceber as entrelinhas. Enquanto não descobrem uma máquina capaz de fazer isso tudo, tenha certeza, haverá uma pessoa por trás destas letras digitadas. E, com um pouco de sorte, outra aí do lado. Tomara.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

As minhocas*

Em busca de referências para meu novo cantinho verde, tenho comprado muitas revistas de decoração. E qual não é minha surpresa ao encontrar sempre mais do mesmo: pedrinhas brancas de vários tamanhos, divisores de canteiro fazendo curvas milimetricamente desenhadas e arbustos tão redondos quanto bolas de futebol.

Como se pode chamar de jardim um lugar que parece feito de plástico? Cadê o bom e velho mato, as raízes estourando tudo, os galhos furiosos, as ervas daninhas indomáveis? Onde foram parar os insetos?

No meu apartamento, uma trepadeira tomou conta da parede, tecendo sua renda verde por tomadas, interruptores e parapeitos. Saiu de um vaso e se prendeu tão fortemente ao vaso vizinho que é impossível separar os dois, tal qual gêmeos siameses. No chão, uma pequena muda de jaboticabeira luta para garantir seu lugar ao sol, as folhas do tinhorão numa discussão acirrada sobre quem fica por cima de quem.

Seriam de plástico as minhocas dos jardins de revista?

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Faxina com o Oto

É só eu pegar a vassoura e a pá para o Oto se materializar em segundos, vindo sabe-se Deus de qual sono. Ainda não descobrir como ele entende tão rápido que eu quero varrer a sala, mas cada vez estou mais convencida de que a vassoura deve emanar algum ferormônio que só um gato seja capaz de perceber. Um gato velho, gordo e bonachão.

Primeiro, o Oto se joga no tapete enrolado, como se as tramas fossem atacá-lo a qualquer minuto. Com as patas da frente, ele abraça o infame tecido e, com as de trás, dá golpes e unhadas. Às vezes, arremessa uma ponta do tapete para depois pegá-la no ar, numa precisão surpreendente para um gato cego.

Costumo aproveitar a distração dele para começar a faxina, mas basta eu dar as primeiras vassouradas para o Oto largar o tapete e, com pulos destrambelhados, se atirar na vassoura.

Quando me mudei para este apartamento cujo piso denuncia qualquer sujeirinha, não fazia idéia do trabalho que teria ao varrer a sala diariamente. No começo, os três gatos fiscalizavam meus movimentos vassourais, acompanhando com a cabeça cada poeirinha que se desprendia das cerdas e planava sala à fora.

Passadas algumas semanas de casa nova, Grafite e Lua perderam o interesse na brincadeira. Agora, não mexem um músculo para sair da poltrona – pelo contrário, muitas vezes, tenho de obrigá-los a se levantar para espanar um canto ou passar o pano no chão. Depois de vários pedidos, eles finalmente se levantam, não sem antes deixar aquele rastro de pelos pelo chão, numa clara manifestação de que estão contrariados.

Mas o Oto... Bem, o Oto acha engraçadíssimo sentar nas cerdas da vassoura e ser arrastado junto com a sujeira, de um lado para o outro. Quando consigo afastá-lo, descubro consternada que eles está se divertindo no monte de poeira e pelos que eu obstinadamente reuni num cantinho para recolher com a pá. E, claro, não há meios de trancá-lo na cozinha, porque ele arranha a porta, derruba as coisas dos móveis e faz um escarcéu como se estivesse sendo lentamente esquartejado.

Um dia desses, ainda compro uma enceradeira...

Em doses cavalares*

Faço terapia todas as segundas-feiras com um moreno de 1,80m, cabelos loiros, olhos cor de mel e pose de garanhão. Ele me ouve muito e, às vezes, retribui com um relincho ou uma virada de orelhas. O pagamento das sessões costuma ser em cenouras ou maçãs, que ele devora em segundos.

Conheço na pele os benefícios de fazer análise e sei que mesmo um cavalo paciente não vai me ajudar a resolver traumas de infância – a menos que eles incluam memoráveis coices ou tombos performáticos. Mesmo assim, tenho descoberto que algumas atividades são quase tão terapêuticas quanto uma hora de divã. E, às vezes, custam bem menos.

Apesar de toda a sujeira, assar um bolo me ajuda a limpar a mente. Fico tão concentrada em seguir a receita que não lembro dos problemas (e nem de tirar o bolo do forno, mas isso é outra coisa). Já a equitação é um ansiolítico natural: não dá para pensar no cheque especial nem no trabalho acumulado quando tudo o que você deseja é que seu “terapeuta” não te morda – nem deixe aquele rastro fedorento.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Avós, mães e filhas

Sempre achei que não tenho a menor vocação para ser mãe, mas cada vez tenho mais certeza disso. Vendo uma amiga dar papinha para o filho, lidando com aquela manha típica de quem não pode escolher o próprio cardápio, só conseguia pensar "tomara que ele não goste de maçã com laranja, assim sobra um pouco para mim". Na última Bienal do livro, quase sai no braço com uma garotinha por causa do último exemplar de Princesas Esquecidas e Desconhecidas – só não abri o berreiro no estande da Moderna porque a assessora gentilmente convenceu a fedelha a levar um livro da Barbie. Convenhamos: uma criatura assim não está autorizada a ser mãe.

Meu vasto currículo como filha depõe contra qualquer interesse meu na maternidade. Lá se vão 30 anos de experiência fazendo birra, pedindo colo e chamando minha mãe sempre que me vejo desafiada por algum drama incontornável – uma gripe avassaladora, um bolo encruado, uma abelha teimosa, um ralado no cotovelo que já nem dói mais, mas sempre garante cinco minutos de colo.

Enquanto minhas amigas de infância e faculdade treinam o talento materno, eu continuo seguindo com louvor minha vocação de filha: tomo banho de chuva, como a sobremesa antes do jantar, fico acordada até mais tarde, durmo de cabelo molhado e (essa é para levar umas boas palmadas) passo o final de semana à pipoca e brigadeiro.

Um dia eu cresço. Mas tomara que demore.


PS: Eu eu Omblogsman demos uma entrevista para a revista Diva na qual falamos justamente sobre o pouco desejo em ter filhos. Desejosas avós de plantão, por favor, não nos matem! Quem sabe a gente não mudade idéia quando cansar de ser filho?

Categoria: Egotrip, Reportagens

Do inferno ao céu em 16 pestanas*

Desci para a reunião com minha cota de tédio profundo cabernet reserva, garrafinha guardada especialmente para reuniões que têm toda a pinta de que serão um porre. Uma empresa faria uma palestra para mostrar roupas, brinquedos, acessórios de cozinha e outras tendências. Adoro esse trabalho e gostaria muito de conhecer as novidades — desde que, é claro, nada disso precedesse a maldita palavrinha de sete letras e um til.

Mas assim que pisei na tal da sala de r-e-u-n-i-ã-o (soletrada assusta menos) e bati os olhos neles, meu coração soltou um suspirinho. No fundo da pequena sala, sobre uma mesa repleta de produtos, oito pôneis piscaram suas longas pestanas coloridas para mim. Vinham numa caixa cheia de adereços cavalares de última necessidade, como pentinhos em formato de flor, mechas com gliter e fivelas de estrelinhas. Eu já disse que eram oito? Oito Pequenos Pôneis. Assim, com maiúsculas. Para preservar o mito.

Por que chamam essas coisas de “reuniões”? Deviam chamar de “porta de entrada para o paraíso”. Faria mais sentido.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O presente*

Festa é comigo mesmo. Por anos, cheguei a comemorar meu aniversário três vezes, só para ter mais um motivo para reunir os amigos: os que gostavam de chopp e mesa de lata eu reunia num barzinho; com a turma do tango, saía para uma milonga; e para aquela meia dúzia de amigos-irmãos eu preparava um jantarzinho em casa. Que delícia!

Mas meu apartamento foi ficando pequeno e a vida cada vez mais corrida. Isso sem falar no seu Mário, o famoso vizinho do andar debaixo que implica por qualquer barulhinho. Hoje, quase não recebo ninguém em casa, exceto um ou outro pardal desavisado. E, agora, me preparo para mudar novamente de casa: desta vez, sem metáforas, para um apartamento maior, com uma sala grande e, Deus queira, uma vizinha mais compreensiva.

Gustavo — que acaba de se transformar no meu arquiteto preferido — mal saiu daqui e eu já estou naquela pilha de querer mudar ontem. Sentada na minha pequena sala, com meus móveis gastos e a gataiada alheia ao meu turbilhão interno, chorei que nem criança quando abre o pacote de presente e vê exatamente o brinquedo que queria. Papai Noel sabe das coisas.

Vai faltar aniversário para o tanto que eu vou querer comemorar.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Egotrip, Voadeira

Pinturas encantadas*

“Ninguém a conhece. É impossível encontrar seu menor indício. E, no entanto, ela existe. Por favor, se alguém tem algum dado sobre ela, que me escreva.”

Fico pensando se Rébecca Dautremer soube que tinha feito uma obra-prima quando terminou as ilustrações de Princesas Esquecidas e Desconhecidas (ed. Salamandra). As quase cem páginas do livro que assina em parceria com o escritor Philippe Lechermeier são um deleite para os sentidos: suas imagens são tão incríveis que é quase possível respirar o frescor da Princesa Vaidosa, sentir a textura das almofadas de Blandina (no detalhe acima), ouvir os sussurros das princesinhas confidentes.

Se você não tem filhos pequenos, está feito o convite para dar uma passada na seção de livros infantis da livraria mais próxima. Se tem, vai ser duro não querer um exemplar só para você.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

De volta ao barro*

Ignorei o convite do sol mixo lá fora e fiquei em casa, modelando. Foi na escolinha que brinquei pela primeira vez com argila e, até hoje, não conheço material mais gostoso para trabalhar. Enquanto as mãos deslizam pelo barro, a mente se esvazia. Não dá para pensar em mais nada além do que se está modelando. É um exercício tão higienizante que funciona quase como terapia — e sai por menos de R$ 5 a “sessão”.

Ao contrário de materiais mais "nobres", como a tela ou o bronze, a argila não exige nenhuma técnica apurada para que renda uma tarde de diversão. Qualquer pessoa, mesmo sem prática, consegue fazer um pote ou uma tigelinha de barro. Se você abandonar a auto-crítica, vai ainda mais longe. E ainda tem todas aquelas ferramentinhas de madeira para furar, cortar, amassar e cavoucar!

Esse foi o presente que me dei de Dia das Crianças: alguns minutos dentro do túnel do tempo. Uma passagem de ida direto para a minha infância.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O almoço

– Carol, o que é aquele pacotinho que está na geladeira?
– Hmmm...
– Carol?
– Tô aqui fora!
– O que é que você tá fazendo aí no chão?
– Pegando o almoço do Ták.
– De quem???
– Do Eustáquio.
– Eustáquio?
– Isso. O que você perguntou?
– Tem um pacotinho na geladeira...
– Não mexe na comida dele!
– Comida? Mas é um pacotinho tão pequeno... Tem o quê dentro, ervilha?
– Bem que eu queria que fosse... Mas só eu sou vegetariana aqui nesta casa.
– Carol, me desculpe, mas o que é mesmo que você está fazendo?
– Pegando o almoço do Eustáquio, Val. É difícil, elas fogem de mim. E eu não quero matar ninguém. Ele precisa delas vivas. Só que como ainda é pequeno, não consegue comer muito rápido e a comida foge. Por isso, eu botei uma na geladeira, para deixá-la meio grogue. É quase como se ela estivesse anestesiada. Assim é menos cruel.
– Tem formigas na geladeira?!?
– Só uma, Val. Não entre em pânico, eu fechei bem o pacotinho.
– Tem uma formiga viva na geladeira?
– Meio dormindo.
– Eu nunca trabalhei para alguém que guarde formigas vivas em pacotinhos na geladeira para alimentar uma planta-carnívora!
– Tem sempre uma primeira vez...
– Eu quero um aumento.

PS: Depois de um longo e tenebroso inverno patrocinado pela Net, cá estou de volta, morrendo de saudades docê!

O milagre*

Fui pegar o telefone para discar e, plam!, meus olhos se encheram de lágrimas. Sem motivo nenhum aparente, o fone saltou do gancho e veio direto na minha direção, golpeando minha têmpora esquerda sem misericórdia. Precisei de uns bons segundos até recobrar os sentidos e descobrir o que tinha acontecido.

Gente como eu é uma ameaça a si mesma. Nem é preciso se preocupar em tirar objetos cortantes ou perfurantes de perto: sou capaz de realizar façanhas só de respirar. Para você ter uma idéia, consegui ganhar nas costas um roxo do tamanho do mapa da África só de ensaboar o pé numa banheira — e eu estava sentada! Fico pensando no tamanho do mapa-mundi que eu teria conseguido se estivesse em pé.

Na cozinha, sou uma calamidade pública. Já perdi as contas de quantas vezes piquei meus dedos junto com a cebola ou de como consegui bater a cabeça três vezes na mesma porta aberta. Em outra ocasião, belisquei o umbigo com um desencaroçador de azeitonas, feito só equiparado à topada que dei no vidro da porta do prédio, semanas depois de terem colocado nele um filme fumê e uma enorme faixa amarela dizendo: “Cuidado! Vidro”.

Ter chegado aos 30 anos praticamente sã e salva é quase um milagre...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O bagaço*

Sabe aqueles dias em que você acordou com o pé esquerdo, derrubou leite na roupa, saiu de casa descabelada, passou a tarde inteira com dor de cabeça e só quer que o dia acabe logo? Foi num dia desses, quando eu estava só o bagaço da laranja, que resolvi fazer uma massagem.

Deitei na maca tão pilhada que mal conversei com a senhora de mãos pequenas e ágeis que malhava minhas costas, amassava meus pés e apertava sem dó o roxo de um tombo de cavalo. “Respira fundo e vai jogando fora tudo o que não presta, meu bem.” Foi a única coisa que dona Elza disse. Então, obedeci.

Meia hora depois, eu era outra mulher. Devo até ter emagrecido uns quilinhos. Mas, passada a euforia uma pergunta tem me tirado o sono. Será que deixei meu bagaço com a dona Elza?

Tomara que estresse não seja algo que se pegue, assim, só de tocar alguém...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A nadista*

– Jura que você tem uma costureira que costura roupas?

Foi minha vez de ficar impressionada. O que ela queria? Uma costureira que assasse pães?

– É claro que ela costura! É por isso que a gente chama de costureira, veja só que coisa mais capciosa...
– Engraçadinha... Não sabe que as costureiras de hoje só fazem barra e trocam zíper?

Aí, minha ficha caiu. Por todo lado vejo faixas anunciando serviços de costura, coisas como “forro botões”, “barra italiana”, “troco zíper e faço pequenos ajustes”. Nenhuma menção a moldes, croquis e outros termos que envolvam o mínimo de criação. Uma vez, ouvi de uma costureira que ela não poderia me fazer a blusa que eu queria porque “ela não existia”. “Como vou criar uma coisa assim, do nada?”

Ainda bem que descobri a dona Rita. É uma costureira das boas: faz roupa sem molde, sem referência, faz até sem tirar medidas, agora que já decorou meus tamanhos. Sugere tecidos. Dá opções de acabamento, de dobras e firulinhas. Cria. Uma nadista perfeita.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Simples visão*

Desde que coloquei a primeira armação de óculos sobre o nariz, aos onze anos, não sei o que é passar mais que alguns minutos sem enxergar direito. Para se ter uma idéia da situação, sou tão míope que não seria capaz de reconhecer minha mãe mesmo que ela estivesse sentada a três palmos de distância. É por isso que digo que só tenho dois estados físicos: de lentes de contato ou dormindo.

Hoje, tive de passar oito horas sem óculos ou lentes de contato. Para além do desespero de não reconhecer nada que esteja a mais de quinze centímetros do meu nariz, descobri que a cegueira momentânea pode ser estranhamente tranqüilizadora.

Há um certo aconchego em ver todas as informações visuais do mundo – cores, pessoas, propagandas, paisagens, prédios, etiquetas, marcas –, tudo isso reduzido a manchas e borrões. É como ingressar numa dimensão paralela, um mundo onde as luzes de postes são como grandes lantejoulas flutuantes e os faróis de carros se unem num longo colar de prata.

Quando as formas ao redor se diluem e as pessoas se fundem a paredes, colunas e árvores, uma sensação quente preenche as lacunas do que não se vê. Já não é mais preciso se ater aos detalhes, às expressões faciais, à linguagem corporal. Toda a atenção se volta ao que está ao alcance dos olhos, muito, muito perto. Simples assim.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Egotrip, Voadeira

No espelho*

Abro a nécessaire temendo que algo lá dentro salte para fora. Sei lá, nunca se sabe o que batons, rímeis e delineadores tramam no escuro de uma gaveta. Olho novamente para o espelho. Você vai ter que fazer isso, Carolina. Pare com essa cara. Vasculho o estojinho em busca de algo meio vago. Por onde começam a se maquiar as modelos, as atrizes, bem, todas as mulheres do mundo? A coisa tem que ter uma ordem. Vai ver, está no rótulo. Virge... Não é possível que nada disso venha com manual de instrução! Santodeus, por quê, justo eu, fui nascer mulher?

Ok, vai no unidunitê. Batom, por exemplo, é batata. Tem que ter. É só passar na parte de cima do lábio e depois fechar a boca. Pronto, o de baixo já ficou pintado. Que moleza. Aposto como a coisa funciona assim nos olhos também. Hmm, não rolou. E ainda borrocou tudo, jisuis... Firma o olho, Carolina, mentaliza no Cosmos e manda ver. Eu disse “manda ver” e não “borre o olho que você acabou de limpar”! Saco.

Vamos tentar o rímel. Putz, mas não nesse olho, ficou horrível com o delineador borrado, afe! Parece que não durmo há uma semana! Ai, cacilda, entrou no olho! Fui atacada! O pincelzinho do rímel pulou no meu olho! Assassino! Alguém precisa proibir essas maquiagens de saírem por aí fazendo pobres vítimas! Socorro!

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Egotrip, Humor, Voadeira

Os pássaros caídos*

Os dedos apertam a caneta como se ela fosse uma prisioneira prestes a se desvencilhar e sair correndo. Dói. A letra sai com tanta força que, três folhas abaixo, ainda é possível ver as marcas no papel.

Era criança ainda quando me contaram que minha caligrafia poderia denunciar meu estado de espírito. Se eu escrevesse acima ou abaixo da linha, se meu “g” fosse anguloso ou inclinado, se riscasse o “t” da direita para a esquerda, alguém poderia descobrir meus desejos mais profundos.

Passei a adolescência inteira tentando ter uma caligrafia indecifrável, tão correta quanto possível. Tudo redondo, claro, linear. Cada “i” e “j” com seu pingo exatamente em cima. Cada frase com um claro ponto final.

Só quando descobri a máquina de escrever — e, mais tarde, o computador — é que finalmente aceitei minha letra real. Não aquela criada para ser aceita. Não a caligrafia escolar irrepreensível. Não. Meus próprios “tês”, “éfes” e “bês”. Minhas frases interrompidas, irregulares, traiçoeiras. Trêmulas. Como pássaros caídos.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Egotrip, Voadeira

Na etiqueta*

Os preços das coisas têm me deixado louca ultimamente. Não, não é porque as coisas andem os olhos da cara, não, embora isso, certamente, seja de desanimar qualquer um. É o que está por trás das etiquetas que tem me deixado de boca aberta.

Passei por uma vitrine e me encantei com um porta-fotos de plástico, muito útil para quem, como eu, gosta de expor suas lembranças. “Cabem cem fotos”, me disse a vendedora prestativa, que me seguia a cada passo que eu dava. Perguntei o preço. “Cem reais.” Assim, sem nenhum pudor! Cem reais por um plástico grandão que, com certeza quase absoluta, é feito em segundos por uma máquina na China. Ou Taiwan. Ou Indonésia, sei lá.

Ainda estava digerindo o preço do porta-fotos quando vi, na prateleira detrás, uma charmosa caixa. Com uns 20 cm, era acolchoada, revestida com um lindo cetim azul e tinha uma tampa com um puxador cheio de delicadas miçangas. Quando a tampa era puxada, as laterais da caixa caíam, revelando uma caixinha ainda menor dentro dela, também com laterais soltas. Assim, aberta, parecia uma pequena flor. Fiquei encantada.

“Para quê serve isso?”, perguntei, quase esbarrando na vendedora atrás de mim. “É para colocar linha, agulha e outras coisas de costura.” Resolvi checar o preço por conta própria, mas qual não é a minha surpresa quando viro a etiqueta e leio “R$ 25”.

É agora que meu cérebro dá voltas tentando entender: como uma caixinha forrada, feita do modo mais artesanal possível, pode custar um quarto do preço de um mero pedaço de plástico?

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A vida íntima das palavras*

Bibliotecas sempre foram, para mim, lugares acolhedores. Ainda criança, lembro com carinho das horas em que passei sob o silêncio da pesadas estantes da pequena biblioteca da minha escola. Lia tudo o que estava ao alcance, mas tinha adoração por um livro fininho e cheio de ilustrações chamado O Corcel Negro, uma das muitas versões do conto de Walter Farley sobre um cavalo que sonha com a liberdade.

Li e reli esse livro dezenas de vezes. Não sei o que procurava, mas cada nova leitura me parecia diferente da anterior — eu notava uma sombra aquarelada que não tinha reparado antes, me detinha numa frase bonita ou numa palavra nova qualquer. Naquela época, a literatura era um mundo inacessível para criancinhas de cinco anos como eu então tinha.

“Vocês podiam avançá-la de ano”, sugeriu a diretora da escola assim que soube que eu já sabia ler, escrever e fazer contas. Minha mãe não deixou. Fez bem. Eu já era a menor da minha classe, teria sido massacrada entre os alunos maiores e mais velhos. Com a negativa de minha mãe, a diretora não teve outra escolha senão me separar das outras crianças: passei toda a primeira série lendo. Sozinha. Em silêncio.

Foi lindo.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Agradeço à graça alcançada*

Em fim, descobriram um jeito de deixar em paz os pobres humanos que querem fazer composto orgânico em apartamento. Por US$ 299, você pode ter plantas lindas, pouco lixo, e – é agora que eu me debulho em lágrimas – nenhuma mosquinha esvoaçante e insuportável por perto.

Quem ouviu minhas preces foi a Nature Mill, uma empresa norte-americana que acaba de colocar no mercado uma composteira eletrônica. Pequena, leve e fácil de manusear, ela tem um compartimento onde restos de legumes, verduras e frutas são descartados, misturados a serragem e oxigenados. Um filtro de carbono absorve os odores e uma espécie de termômetro mantém o calor constante no interior da composteira. Assim que o adubo está pronto para o uso, é despejado numa gaveta na parte debaixo do equipamento e, voilá, temos 55 kg de comida fresquinha para as plantas!

De todos os benefícios, meu preferido diz respeito às pás que misturam os restos no compartimento superior. Com o movimento constante, os ovos de drosófilas não conseguem eclodir.

Seria feio dizer que isso me deixa feliz, né?

Atrás das grades*

Pouco mais de trinta quarteirões separam minha casa do meu trabalho. Gosto de fazer o caminho a pé, assim posso reparar nas coisas que dirigindo deixo passar. E uma delas tem me intrigado muito: a quantidade de guaritas.

São dezessete delas ao longo do caminho. Todas caixas de metal e vidro de um metro quadrado, onde um sujeito é obrigado a ficar sentado o dia todo, sob o pretexto de que isso possa impedir um assalto a um dos casarões ao redor. Em uma das residências, o pânico é tamanho que há duas guaritas, separadas trinta passos uma da outra.

Guarita, arame farpado, cerca elétrica, sistema interno de vigilância... Pelo jeito, quanto mais rico você é, mais parecido com uma prisão é seu lar.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Melhor que cobertor no frio*

Nesse friozinho, tem coisa mais gostosa do que ficar debaixo do cobertor vendo um filminho na TV? Tem: ficar debaixo do cobertor vendo um filminho na TV com um gato no colo. Melhor, com três. Para isso, primeiro, é preciso ter ao menos um gato, o que é bem simples, afinal, as ruas estão cheias de bichanos órfãos implorando por um lar.

A segunda parte é que é complicada: consiste em convencer seu pet a subir no seu colo quando VOCÊ quer e não quando der na telha dele. Você o conduz cobertor adentro e ele sai. Bota o bicho no colo, ele pula pro chão. Se insistir, é capaz de tomar um arranhão. Mas basta fazer de conta que não está nem aí para ele e ganhar uma companhia quentinha, peluda e ronronante.

Se animou a ter um bichinho desses? Há ONGs, instituições e clínicas veterinárias que doam gatinhos em ótimas condições de saúde e, muitas vezes, já vacinados.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A escalada*

– Moça, pelamordedeus, desce daí!
– Ué, por quê?
– Não pode subir na árvore!
– Mas é uma mangueira! Mangueiras foram feitas para se subir nelas. Já reparou que elas têm galhos enormes?
– ...
– Tá vendo esse aí embaixo? E depois aquele outro e este aqui onde eu estou? Não tem escada mais segura!
– Se a senhora quer manga, é só pedir na lanchonete. Tem suco de manga no cardápio.
– Arrá! E a garçonete pode subir aqui e eu não?
– Não, ela também não pode. Fazemos o suco com polpas selecionadas e congeladas.
– Com uma baita mangueira aqui do lado? Como é que vocês têm coragem de não pegar aqui do pé?
– É perigoso subir na árvore, moça. E, além disso, a loja não se responsabiliza por queda de clientes.
– Entendo. Afinal, onde já se viu alguém ter a idéia esdrúxula de subir numa árvore, né?
– Exatamente.
– Exatamente nada. Exatamente que você não teve infância, isso sim! Qualquer criança sabe que árvores só existem no mundo pra serem escaladas.
– Moça, por favor, tem gente olhando...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O aviso discreto*

Cetesb, Eletropaulo, Net, Sabesp. A lei que livrou São Paulo dos outdoors ainda não descobriu o marketing das calçadas. Tampas, bueiros, placas – a cada metro, uma nova empresa deixa sua marca no chão.

Lembro do dia em que a calçada do meu prédio amanheceu cheia de animados lacres laranjas. “São sinalizadores”, me explicou o técnico da Comgás. Um alerta aos desavisados, como se dissessem “não furem aqui, pode explodir”.

Com sol, chuva e poluição incidindo diretamente nos lacres, eles foram desbotando. Perderam o aspecto lúdico de intervenção urbana e agora são apenas mais marcas nas calçadas. E, o mais curioso: ninguém repara nelas.

Pra que serve um aviso se ele passa desapercebido?

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Voadeira

As 74 perguntas de Neruda*

“Há alguma coisa mais triste no mundo/ que um trem imóvel na chuva?”

Desde criança que gosto de perguntas. Faço perguntas para as quais já sei a resposta, perguntas sem resposta, perguntas silenciosas, perguntas incessantes. Das respostas não costumo gostar muito, com seu quê de definitivas. E, às vezes, respondo uma pergunta com outra, exasperando meus interlocutores.

Neruda também preferia perguntas a respostas. Gostava tanto delas que reuniu 74 no Livro das Perguntas (Cosac Naify, 182 págs., R$ 45). “Se acabar o amarelo,/ com que vamos fazer o pão?” Neruda não sabe a resposta. Isidro Ferrer, que assina as belas ilustrações da obra, tampouco sabe. Uma espanholinha arriscou: “Com o azul e a clara do ovo”. Só podia ter vindo de uma criança.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Os papéis fofos*

Posso imaginar a cena, a menininha chega com uma pasta e-nor-me, cheia de folhas sem uso, senta do lado de outra, com uma pasta tão grande quanto, e ficam as duas folheando. Às vezes, uma diz “ai, que fofo” ou “esse eu não tenho”. No final, a coisa sempre acaba com “quer trocar essa sua folha com coraçõezinhos por esta de anjinhos?”. Ambas intactas, claro.

Gibis eu entendo, você pode querer ler as historinhas mais de uma vez. Selos, ok, contam a história dos países. Mas papel de carta?!? Por que raios alguém coleciona papel de carta sem uso?

Eu, que sempre fui uma criatura verborrágica e onomatopéica, descobri, recentemente, uma loja que vende papéis de carta. Não posso negar, são fofos. Mas em vez de querer enfiá-los todos em uma pasta com plástico, deu uma vontade danada de escrever para quem está longe.

Se bem que isso tudo é despeito de nunca ter conseguido levar minha coleção de papel de carta adiante. Eu não agüentava vê-los tão branquinhos e acabava escrevendo neles. Ou usando-os de rascunho para desenhar. E depois ainda reclamo de não ter com quem trocar...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

 

O que é Carol Costa?
Busca
Receba por e-mail
 
Translations by
Maubuch