O novelo vermelho*
– Ai, desisto!
Era a terceira vez que eu perdia um ponto e desmanchava tudo. Gastei quarenta minutos e não tinha conseguido ir além da sexta fileira. Depois, dizem que trabalhos manuais ajudam a desestressar...
Quando era criança, passava horas sentada aos pés da minha mãe, vendo o novelo de lã ir subindo, subindo, até sumir e virar uma blusa, um pulôver, um sapatinho de bebê. Lembro da mantinha que ela tricotou para minha irmã e do capricho que tinha com o acabamento: enfeitava com florzinhas, lacinhos, fitas de cetim, retalhos de pano. Por muitos anos, fez a alegria das grávidas da Legião da Boa Vontade e até hoje tricota enxovais para crianças carentes.
Eu, é claro, não tenho muito talento com as duas agulhonas. Preciso de ajuda para começar a primeira fileira, vivo perdendo os pontos e só sei tricotar coisas estreitas e compridas. Por algum motivo, tenho fixação por lã vermelha: meu marido, minhas amigas, minha faxineira, até meus gatos têm uma tira vermelha de tricô. Quando mostrei meu primeiro cachecol para minha mãe, cheio de falhas e fios soltos, ela olhou como se fosse um bicho morto, pegou com as pontas do polegar e do indicador e perguntou: “O que você pensou em fazer?”.
E é por isso que, hoje, eu só uso lã azul.
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
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E, mesmo assim, eu consegui fazer um cachecol so-zi-nha! Tudo bem que parece mais um trapo, mas eu devia ganhar um prêmio por ele...








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