Barato bom*
Foi logo no primeiro dia de aula que minha irmã descobriu que teria apenas quatro anos para aprender a lidar com suas próprias fobias. Nada mais natural a se pedir a quem escolheu por profissão ouvir sobre medos e problemas alheios. “Mas eu tenho pavor de barata!”, choramingou. “Comece com fotos”, sugeriu a professora, na tentativa de estimular a aluna a ver imagens do abominável inseto sem subir numa cadeira.
Quando descobri que a fobia da minha irmã precisava de um empurrãozinho para sumir, passei a mandar cartas de incentivo – todas decoradas com baratinhas fashions, de meia-calça e cílios postiços. Sempre achei que elas ficariam menos assustadoras se dessem uma depilada e passassem um batonzinho de vez em quando.
Dia desses, a danada se formou e fiquei horas matutando uma maneira de presenteá-la, mas nenhuma solução convencional me animava. Anel de formatura? Ela já ganhou uns dois. Flores? Prefiro as de terra, que não morrem em três dias quando bem cuidadas. Fui remexer numa caixa de fotos e lembrei das baratinhas. A essa altura, minha irmã só pode ter virado uma cruel matadora de insetos, daquelas que nem se dão ao trabalho de pegar inseticida, mandam ver logo na chinelada.
Fiz uma baratinha de pelúcia, com retalhos de tecidos floridinhos que eu tinha em casa. Botei dois laços nas antenas, enchi com saquinhos plásticos e caprichei nas asas. Admito que não ficou lá com um acabamento dos mais primorosos, não. Minha irmã abriu o pacote, deu uma leve estremecida, pegou a barata na mão e ainda ajeitou uma das antenas. Adeus, fobia!
*Texto originalmente publicado no blog Voadeira
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