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Entre riscos e rasgos*

É um dos enigmas que a ciência se esforça em explicar: onde vai parar aquela BIC novinha que você comprou? Por que ninguém consegue usar uma BIC até o fim? Seriam as esferográficas uma raça superior de viajantes no tempo?

Faça a experiência você mesmo, ó, crédulo leitor de Bons Fluidos: arrisque usar sua caneta até o fim. Ela vai falhar, obrigando você a riscar várias vezes o canto do papel, até fazer um rasgo. Vai vazar no meio da sua bolsa ou borrar aquele documento em duas vias que você levou o dia todo para autenticar. Ou, simplesmente, vai escafeder — ou aparatar, se for a BIC da J. K. Rowling.

BICs são indóceis, mau-humoradas e temperamentais. E se ofendem de morte com o simples vislumbre de outra caneta por perto, motivo pelo qual não devem ser criadas na presença de uma tinteiro.

E é por isso que eu, em plena era digital, ainda sou adepta de lápis e borracha.

Categoria: Voadeira

O vestido andarilho*

Da tia gordinha para a prima grávida, da irmã mais velha para a mais nova, de amiga para amiga. Fui criada numa família em que havia uma lei máxima: roupa anda. Enjoou? Não serve mais? Passa pra frente. E eu, a menor das miúdas, sempre desfilei guarda-roupa de modelo, uma peça por dia.

Tenho um vestido que tem mais quilometragem que muito carro usado. Sempre que alguém elogia minhas roupas, revelo que, muitas, muitíssimas, são de segunda-mão. Nunca entendo a cara de pasmo das pessoas. Não sabem que roupa velha vira nova na mão de outro dono, uai?

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Sob controle*

Eles sempre acordam antes de mim, com um humor tão terrível que nem arrisco um "bom-dia". Odeiam a camisa que eu escolho, reprimem meu condicionador, reclamam que estou com umas olheiras tão abomináveis, onde já se viu ir dormir às 3 da manhã em pleno domingo.

Agüento seus impropérios por uma hora, o tempo que preciso para levantar, tomar banho, engolir um café-da-manhã e botar as lentes de contato. Só depois disso encaro o espelho e os encontro no auge da irritação. Se passo água, eles arrepiam. Coloco leave-in e eles emplastram, parece que não tomam banho há dias. Ofereço mousse, eles fazem cara feia.

No fim, a rebeldia acaba sempre do mesmo jeito: pego uma faixa bem larga e aperto os cachos todos debaixo dela. Eles detestam. Mas é sempre bom mostrar quem manda em quem.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O cosmético complexado*

Sistema LiftactivPro. Tecnologia de alta cobertura Mexoryl XL. Brilho espelhado, toque aveludado. O lançamento 2009 da Mercedes Benz? Um novo tratamento dentário? Não, inofensivos cosméticos.

Resolvi mudar de condicionador e gastei 40 minutos na frente de uma gôndola de supermercado, indecisa entre 47 marcas diferentes. Levo este que tem Tratamento Hydra-Guard ou o que vem com ativos energizantes de Aminexil? Melhor o efeito anti-palha, anti-lizz ou anti-queda? E o que dizer de uma “pomada modeladora”, santodeus?

Olhando o rótulo de uma das embalagens, descobri que sempre usei shampoos com sal – algo que deve ser indefensável para os padrões capilares e explica a epidemia de produtos, digamos, doces. Pelo jeito, não temperar a cabeça é a última moda nos salões.

O mundo das maquiagens é ainda mais assustador. Há Complexo de Fibrociclamida, Complexo Adrenalyse, Complexo Aminokine G. Neste exato minuto, aposto como algum laboratório francês deve estar inventando um produto com Complexo de Peter Pan, aquele que não deixa sua pele sair da Terra do Nunca: nunca ressecar, nunca ter rugas, jamais ter um pé-de-galinha.

Nunca tive tanto medo de hidratar a pele.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

O poder da buzina*

O motorista que puxa a fila ao lado demora demais para passar e o semáfaro fica amarelo. No carro de trás, uma moça enfia a mão na buzina. Dois, três, quatro segundos. O carro da frente buzina de volta como para dizer “não está vendo que o sinal fechou? Passa por cima se está com pressa!”. A moça responde com novo buzinaço, que encontra eco dois carros atrás. A segunda-feira vai ser infernal.

Desde que tirei a carteira de motorista, nunca usei buzina. É claro que fico brava quando leva uma fechada, mas quem mora nos prédios e casas ao redor não precisa saber disso. Buzinas não ensinam os outros a dirigir melhor. Buzinas não mudam a cor do semáfaro. Buzinas não fazem o trânsito andar. Só servem para uma coisa: irritar todos em volta.

Meu mantra para não sair do sério no trânsito é praticar direção solidária. Paro para pedestres. Abro espaço à direita para os motoqueiros. Aceno para os ciclistas. Dou preferência para qualquer um – sim, moço, pode passar na minha frente, eu deixo. Espero que o motorista termine de estacionar em paz, nem que para isso tenha de segurar uma fila de carros atrás de mim. Às vezes, recebo buzinadinhas de agradecimento. Ok, essas eu respondo, mas bem baixinho. Para não incomodar ninguém.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Voadeira

O novelo vermelho*

– Ai, desisto!

Era a terceira vez que eu perdia um ponto e desmanchava tudo. Gastei quarenta minutos e não tinha conseguido ir além da sexta fileira. Depois, dizem que trabalhos manuais ajudam a desestressar...

Quando era criança, passava horas sentada aos pés da minha mãe, vendo o novelo de lã ir subindo, subindo, até sumir e virar uma blusa, um pulôver, um sapatinho de bebê. Lembro da mantinha que ela tricotou para minha irmã e do capricho que tinha com o acabamento: enfeitava com florzinhas, lacinhos, fitas de cetim, retalhos de pano. Por muitos anos, fez a alegria das grávidas da Legião da Boa Vontade e até hoje tricota enxovais para crianças carentes.

Eu, é claro, não tenho muito talento com as duas agulhonas. Preciso de ajuda para começar a primeira fileira, vivo perdendo os pontos e só sei tricotar coisas estreitas e compridas. Por algum motivo, tenho fixação por lã vermelha: meu marido, minhas amigas, minha faxineira, até meus gatos têm uma tira vermelha de tricô. Quando mostrei meu primeiro cachecol para minha mãe, cheio de falhas e fios soltos, ela olhou como se fosse um bicho morto, pegou com as pontas do polegar e do indicador e perguntou: “O que você pensou em fazer?”.

E é por isso que, hoje, eu só uso lã azul.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Categoria: Egotrip, Humor, Voadeira

Desapego*

Há alguma coisa errada no Natal quando o primeiro pinheirinho que vejo enfeitado me causa calafrios. Não sei bem quando a festa passou a significar para mim apenas consumo em excesso. Deve ter sido depois de adulta, porque lembro de passar os novembros de minha infância me comportando como um anjo, à espera de uma bicicleta, um videogame ou uma caixa de quebra-cabeça.

Hoje, mal o Dia das Crianças acaba, as lojas se enfeitam de luzes, renas, bolas douradas e fitas vermelhas. Outubro nem acabou e eu já me sinto na culpa de ainda não ter programado o que vou comer na ceia de Natal, onde vou passar o Reveillon ou seu meus ovos de Páscoa serão diet ou não. E não páro de fazer listas: “Pessoas a Presentear”, dali uns dias, “Presentes Para os Amigos” e depois “Lembrancinhas Natalinas aos Amigos MUITO Queridos”. Não é possível que esse consumo alucinado seja a representação do Natal...

Neste ano, resolvi não enlouquecer. Em vez de fazer listas de compras, comecei uma lista de desapegos. Tem itens como “fazer cookies para presentear”, “separar livros velhos para doação” ou “diminuir meu guarda-roupas pela metade”. Mas o presente mesmo que pretendo dar não vem num embrulho bonito. É só “ter mais tempo livre”. Para mim. Para parentes, amigos e leitores. Espero que gostem do presente. Afinal, esse não dá pra trocar.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A colecionadora*

Há três anos que eu coleciono portas e janelas. Como qualquer obsessão, essa também é cheia de restrições: só valem as coloniais, daquelas de ripa de madeira e maçaneta de ferro, adornadas por um batente colorido. Numa visita a Tiradentes, fiz tantas imagens que as pessoas começaram a me olhar estranho cada vez que eu me aproximava de uma casa. Devo ter virado atração turística.

Matinhos simpáticos também são tema de coleção. Sempre adorei a gana com que essas plantinhas se grudam às paredes, a astúcia que usam para forrar buracos e frestas, o desespero que têm ao surgir do meio de pedras, nos solos mais pobres e pisados. Minhas preferidas são aquelas samambainhas bem com cara de mato, as rainhas da resiliência, capazes de sobreviver a pisadas de vaca, dentadas de cavalos, falta ou excesso de água e a uma porção de pragas. Ô, plantinhas guerreiras, sô!

Passo tanto tempo fotografando o chão que, claro, volta e meia trombo em postes, erro a rua ou chego atrasada ao trabalho. Devo ser figurinha recorrente para quem coleciona pessoas distraídas.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Barato bom*

Foi logo no primeiro dia de aula que minha irmã descobriu que teria apenas quatro anos para aprender a lidar com suas próprias fobias. Nada mais natural a se pedir a quem escolheu por profissão ouvir sobre medos e problemas alheios. “Mas eu tenho pavor de barata!”, choramingou. “Comece com fotos”, sugeriu a professora, na tentativa de estimular a aluna a ver imagens do abominável inseto sem subir numa cadeira.

Quando descobri que a fobia da minha irmã precisava de um empurrãozinho para sumir, passei a mandar cartas de incentivo – todas decoradas com baratinhas fashions, de meia-calça e cílios postiços. Sempre achei que elas ficariam menos assustadoras se dessem uma depilada e passassem um batonzinho de vez em quando.

Dia desses, a danada se formou e fiquei horas matutando uma maneira de presenteá-la, mas nenhuma solução convencional me animava. Anel de formatura? Ela já ganhou uns dois. Flores? Prefiro as de terra, que não morrem em três dias quando bem cuidadas. Fui remexer numa caixa de fotos e lembrei das baratinhas. A essa altura, minha irmã só pode ter virado uma cruel matadora de insetos, daquelas que nem se dão ao trabalho de pegar inseticida, mandam ver logo na chinelada.

Fiz uma baratinha de pelúcia, com retalhos de tecidos floridinhos que eu tinha em casa. Botei dois laços nas antenas, enchi com saquinhos plásticos e caprichei nas asas. Admito que não ficou lá com um acabamento dos mais primorosos, não. Minha irmã abriu o pacote, deu uma leve estremecida, pegou a barata na mão e ainda ajeitou uma das antenas. Adeus, fobia!

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Antes de flambar*

Que atire a primeira caçarola quem nunca fez aquele estrago na cozinha e, na última hora, teve de recorrer a um delivery para salvar o jantar chamuscado. De ingredientes trocados – confesso, já salguei café e adocei batata frita – a receitas mal-sucedidas, tenho uma vasta ficha corrida culinária. Se tivesse um pouco de vergonha na cara, não deveria me atrever a cozinhar nem miojo.

Para não virar motivo de piada em casa de mãe quituteira, botei a culpa nos utensílios. Afinal, como alguém pode fritar um ovo decente sem ter um modelador de silicone? Ou fazer mousse de limão sem usar uma faca para tirar raspinhas de cítricos? Todos esses anos e eu aqui, fazendo macarrão sem um testador de massas...

Em minha recente imersão numa loja de coisas de cozinha, descobri que não há limites para a criatividade humana. Existem engenhocas específicas para descascar abacaxi, fatiar abacate ou fazer bolinhas com polpa de mamão – nem tente usar a lâmina de uma fruta na outra, sob o risco de ter seu avental confiscado.

O pino que daria um ótimo puxador de gaveta é, na verdade, um prendedor de queijo. Um abridor universal de latas resolve o que mulher nenhuma consegue fazer sem a ajuda de um homem: desencalacrar a bendita tampa do vidro de palmito. A bolinha transparente com duas orelhas de coelho mói pimenta e a lâmpada de inox que não acende nada é, na verdade, um saleiro joão-bobo. “Para não deixar o sal cair”, me explica a vendedora. E eu achando que sou desastrada na cozinha...

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

PS: dancei...

Tati, querida, você deve estar achando que, só para, variar, eu esqueci do seu aniversário. Que é uma vergonha sua amiga de tantos anos não se lembrar que dia 20 você faz anos, que isso não se faz, que você já relevou muitas vezes e que, desta vez, foi o fim da picada.

É verdade: eu esqueci do seu aniversário. Mas não o dia todo. De manhã, logo que levantei e olhei no calendário, pensei "preciso ligar para a Tati". Como ainda não tinha tomado café da manhã, resolvi me alimentar para conversar com você de barriga cheia. Meia hora depois, minha mãe levantou (ela e meus irmãos vieram passar o Natal comigo). Fiquei fazendo companhia para ela, batendo papo e falando dos projetos do novo apartamento. Aí, foi a vez da minha irmã acordar. Ficamos na cozinha, beliscando e falando da vida, até meu irmão acordar. Nunca tomei tanto café da manhã.

Como minha casa ainda está parecendo um cenário de guerra, com víveres e outros mantimentos em caixas, gatos desnorteados, plantas ofendidas e poeira pra tudo que é canto, começamos a organizar minimamente a cozinha, para os armários que estavam para chegar. Foi quando percebi que estava sem água potável. E sem detergente. Pensando bem, era bom comprar produtos de limpeza em geral, porque o chão não via uma vassoura há 45 dias. Fomos ao supermercado, almoçamos e fui comprar cortinas. Encontrei umas lindas, floridas, e levei com 2,30m de altura, apesar de a vendedora insistir para eu levar uma maior. Elas sempre querem que a gente gaste mais... Típico, né? Coloquei as cortinas em casa, tirei e voltei na loja para trocá-las por cortinas de 2,50m. Estava no caixa quando o marceneiro ligou, querendo saber onde raios eu estava porque o porteiro não queria deixá-lo subir. Atravessei a cidade a jato.

O resto do dia, passei limpando, espanando e esfregando, tirando coisas de caixas, lavando e colocando em armários. Eram 22h quando me lembrei, de novo, que não tinha ligado para você. Como estou sem internet há uma semana, tentei telefonar, mas deve estar faltando algum número porque a Telefônica interrompe minha ligação no meio do caminho. Liguei para o 102, que me passou um 0800 de auxílio a ligações DDI. Toca uma musiquinha natalina, mas ninguém atende. O telemarketing anda muvucado desde que fizeram uma lei que obriga as empresas a atender em no máximo 60 segundos: agora, em vez de esperar 25 minutos para ser atendido, a gente fica 50 minutos dependurado, ouvindo uma música relaxante – o que sempre é muito bom, especialmente no Natal, quando todo mundo está tão estressado e ansioso.

Aí, tentei mandar um torpedo, mas a central da Claro está tão natalina quando a da Telefônica. Antes de ficar puta, me lembrei de que meu celular tem internet: eu poderia mandar um e-mail, ainda que, aí, já fosse quase o raiar do dia 21. Passei mais uns 20 minutos tentando entrar no UOL pelo celular e outros 20 digitando um e-mail, para meu celular desligar, sem aviso prévio. A bateria acabou e, com ela, minha paciência. Fui dormir me sentindo a pior amiga do mundo...

O que posso fazer para apagar essa imagem ruim de esquecedora-de-aniversários-da-Tati? Eu poderia dizer que estou preocupada com você aí, do outro lado do Atlântico, num frio de rachar e sem um bom estoque de caipirinha de jaboticabas. Poderia argumentar que só vou sentir que a casa nova está inaugurada quando você dormir no meu sofá ou que queria muito que você estivesse aqui para comemorar meu emprego novo. Diria que o Oto andou perguntando sobre você – e você sabe como os gatos são reservados com os sentimentos. Mas nada disso vai adiantar, primeiro porque você já sabe, segundo porque hoje é dia vin-te-e-do-is! E agora, mesmo que eu esteja mandando esse e-mail desesperado direto do cybercafé da Fnac, não há nada que se possa fazer, afinal, você já nasceu há 24 horas.

Se você ainda quiser este traste aqui que vos escreve como amiga, aceite minhas desculpas sinceríssimas e meus votos de que 2009 seja um ano maravilhoso. Espero que você tenha aproveitado muito sua festa de aniversário e que se sinta bem na sua fase thirtyfresh (eu estou adorando a minha!).

Um beijo enorme e saudoso,

Carol

A arte de cativar pássaros*

Sabiá, maritaca, bem-te-vi. Há anos, tento subornar a passarada. Já ofereci alpiste e fruta, mas eles não abrem o bico. Liguei para Dalgas Frisch, um ornitólogo experiente em manha de passarinho.

“Em que andar você mora?” “No quinto.” Ele riu. “Sabiá é preguiçoso. Voa baixo.” Para beija-flor, água com açúcar de segunda a quarta-feira. “Ele só voa em horário comercial?” O problema são as abelhas: em três dias, elas avisam à colméia que tem uma otária botando doce na janela. “Se você tirá-lo, atrapalha elas.”

Passarinho preguiçoso, abelha desbaratinada... Esses bichos andam muito estranhos.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Campanha de vacinação anti-estresse*

No rádio, a locutora fala da Índia em que se transformou a rua 25 de Março nesta emenda de feriado, “e olha que falta um mês para o Natal...”. Quando eu paro no semáforo amarelo, o motorista atrás de mim enfia a mão na buzina com gosto. Uma senhora atravessa a rua carregada de sacolas, arrastando pela mão o netinho que chora por alguma coisa que ela não quis comprar na loja de conveniência do posto de gasolina. No elevador, ouço uma conversa de alguém que disputou uma calça a tapa num bazar, “imagine, pela metade do preço, não dava para perder!”. Um Papai Noel mecânico acena. As faixas nas lojas berram descontos milagrosos e múltiplas exclamações. Pois é, está aberta a temporada de neurose pré-Natal.

Ainda dá tempo de se vacinar contra esse mal-estar que assola a civilização. Basta seguir para uma praça ou parque qualquer, sentar num banco — melhor ainda se conseguir deitar na grama — e parar. Respirar pausadamente por uns cinco minutos. Não pensar em nada que esteja no passado ou no futuro. Só o agora importa.

“E olha que falta um mês para o Natal...”

Organize-se e ganhe mais 4 anos de vida!*

Sua casa parece ter saído de uma revista de decoração, com o piso encerado, as roupas impecáveis e as almofadas arrumadas milimetricamente no sofá? Então você acaba de ganhar mais 4 anos de vida! Uma pesquisa com 9 mil pessoas apontou que quem é organizada vive mais. E não é só: pessoas disciplinadas são mais saudáveis, têm empregos estáveis e vivem casamentos duradouros. O melhor de tudo é que dá, sim, para aprender a se organizar. Veja só:

- Tenha um bloquinho
Amarre uma cordinha em um pequeno bloco de anotações, prenda nele uma caneta e tenha a dupla sempre por perto para anotar suas pendências.

- Divida as tarefas
Não evite uma obrigação só porque ela vai tomar tempo. Se não gosta de lavar a louça, lave só os pratos. Dali a pouco, lave talheres, depois, copos...

- Fuja do tédio!
Não precisa fazer uma lista maçante de tarefas. Que tal sortear seus afazeres? A surpresa transformará uma obrigação em brincadeira!

*Versão sem cortes de matéria publicada na revista AnaMaria

Categoria: Comportamento

Pé ante pé*

Que city tour, que nada: o melhor jeito de fazer turismo é mesmo a pé. Só gastando muita sola de sapato para descobrir aquele detalhe arquitetônico que ninguém repara, o ateliê incrível nos fundos de uma loja sem-graça, o restaurante mínimo que tem meia dúzia de mesas e nunca aparece nos guias de viagem.

Depois de passar um mês inteiro batendo muita perna nas Zorópas, resolvi redescobrir São Paulo pela ótica do pedestre. Bastaram 24 horas para concluir que seria impossível manter o ritmo de caminhadas por aqui. A cidade parece dizer, o tempo todo, que você não é bem-vindo. Não à toa, é toda projetada em função dos motoristas: de carro, táxi, ônibus, até mesmo de caminhão.

Andar em São Paulo exige olhar atento e jogo de cintura – além de umas boas coxas, se quiser se aventurar por Perdizes. É preciso desviar de buracos, caçambas, camelôs, pontos de ônibus, ambulantes, carroceiros, cocôs de cachorro, bueiros soltos, postes e uma porção de outros obstáculos. Para virar Pitfall, aquele bom e velho joguinho de Atari, falta só ter areia movediça e jacaré.

Mesmo com todos esses percalços, há um charme especial de voltar às raízes de caminhante. Só assim para reparar naquele ipê que, veja só, está arrebentando de roxo. Ou no ninho que os sabiás fizeram dentro do semáforo. Ou na pracinha de uma árvore só, estratégicamente instalada no alto de uma ladeira. Que tal fazer uma pausa debaixo da sombra? Não paga nada para estacionar.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

A reunião semanal dos freaks*

Nem encontro dos fãs de Guerra nas Estrelas, nem show do My Chemical Romance: o melhor lugar para encontrar tudo quanto é tipo de freak é mesmo numa classe de dança de salão. É para lá que vão descolados, encalhados e desengonçados de todos os cantos, na tentativa de aprender salsa, merengue e outros ritmos menos gastronômicos.

Toda turma de dança de salão que se preze sempre tem rapaz que conta os tempos em voz alta, garota que não tira os olhos dos pés, gente que samba quando toca tango ou que dança bolero quando é aula de gafieira. Tem também aquele casalzinho que não quer trocar e que passa metade da aula botando a culpa no outro por o passo não sair a contento.

De adolescentes que parecem velhos a senhoras com pique de mocinhas, as escolas de dança são um bom lugar para exercitar a diversidade e umas pernadas em três-por-quatro. Não à toa, é onde muita gente encontra o parceiro ideal, aquele que vai rodopiar ao ritmo dos loucos apaixonados.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Livre-se da culpa!*

Não conseguiu manter o regime depois da ceia de Natal? A grana ficou curta para comprar os presentes? Caramba, que fardo pesado para começar 2009! Quer perder vários quilos imediatamente? Pratique a auto-compreensão. Se desculpe! Nenhum de nós está livre de agir mal, desde fazer uma grande comida de bola a cometer aquele errinho bobo. Faz parte de crescer como ser humano, uai! Por isso, nada de consciência pesada. Errou? Fez besteira? Se desculpe e bola pra frente!

Acabe com o peso na consciência
Admita o erro

De nada adianta botar a culpa no outro. Reflita e tente entender por que agiu como agiu.

Perdoe-se
Praticar o auto-perdão é o primeiro passo para desculpar também os outros.

Não se puna
Nem permita que outra pessoa use sua culpa contra você. O que passou, passou.

*Texto publicado originalmente na revista AnaMaria.

Como não ter uma composteira*

Sempre estranhei o fato de não encontrar em lugar nenhum alguma orientação para fazer uma composteira – aquele recipiente para transformar lixo orgânico em adubo – num apartamento. Como toda idéia brilhante, essa também se mostrou uma grande enrascada tão logo a pus em prática.

Na área de serviço, comecei a reunir cascas de frutas e legumes, pedaços de jornal e folhas secas em uma grande caixa de papelão forrada com um saco preto resistente, cheio de furos. Fiz como mandam os manuais ecológicos, remexendo aquela porcalheira uma vez por semana.

Achei que fosse feder, mas logo descobri que composteira tem cheiro de terra úmida. Depois do primeiro mês, começaram a aparecer montes de drosófilas, aquelas insistentes mosquinhas de fruta. Minha composteira virou um berçário: toda vez que mexia na caixa, tinha de pedir licença para as nuvens de mosquinhas. Várias delas morreram congeladas quando eu ia pegar alguma coisa na geladeira.

Na falta de um sapo, passei a abrir a caixa só com as janelas escancaradas. Deu certo. Com o sumiço das drosófilas, finalmente tive sossego. Foi tanta a tranqüilidade que, claro, esqueci de revolver a composteira por cinco meses. Acabo de dar uma olhada nela, como quem lembra de uma panela no fogo. O composto ainda não está pronto, mas o fundo umedeceu e grudou no chão. Resultado: a caixa não sai do lugar nem com reza brava. Aposto como amanhã terei visitas na cozinha.

*Texto originalmente publicado no blog Voadeira

Os guardiões de Santa Eulália*

Pessoas sangrando, ok. Gárgulas e outros monstrinhos, vá lá. Mas gansos é uma coisa que não se vê todo o dia numa igreja. Ainda mais 13 estáticos gansos brancos. As estátuas das aves ficam numa área externa da catedral de Barcelona, perto de uma fonte onde São Jorge insiste em atazanar o pobre dragão. Mal me aproximo da grade, máquina fotográfica em punho, 13 esculturinhas vêem ao meu encontro, rápidas como, bem, só gansos de verdade conseguem ser.

“São mais antigos que essa igreja”, brinca a senhora da lojinha de souvenir. Há um ganso para cada martírio por que passou Santa Eulália, a padroeira da cidade. Um deles bate as asas, ameaçadoramente. Minha fé deve estar em baixa, porque saio ventando dali.

*Versão sem cortes para o blog Voadeira

Dona Eufrália

Estou numa guerra dos infernos com Dona Eufrália e suas filhas. A gente se detesta desde o dia em que nos conhecemos. Durante o dia, ela e sua prole se espalham; à noite, lanterna em mãos, eu as expulso, uma a uma, do meu vaso de petúnia.

Esse é o problema das lesmas: elas se multiplicam muito rápido. Desde que assassinei sem querer o marido de Dona Eufrália, a velha lesma não me deu mais sossego. Comeu todos os brotos da petúnia. Deixou seu visco brilhante por flores e folhas e começou um ardiloso plano de expansão para vasos vizinhos. Peguei uma de suas filhas dois andares abaixo, se preparando para atacar meu cacto preferido.

Gente de coração mole como o meu não consegue diferenciar a vida de uma minhoca da de uma lesma. Para mim, ratos são tão fofinhos quanto esquilos, ainda que tenham maus-modos à mesa. Morcegos são passarinhos noturnos. Hienas são cães que riem. Nenhum bicho vale mais que outro — humanos incluídos.

Só porque não conheço uma função interessante para uma lesma, não vejo porque matá-la. O que Dona Eufrália claramente não entende, dada a raiva com que instrui suas filhas a destruir minhas plantas. Então, toda noite, eu as recolho com uma varetinha, atravesso a rua e deposito, lesma por lesma, no gramado da praça. Já que estamos em guerra, elas que se entendam com os passarinhos.

Ilustre desconhecido*

William Shakespeare (1564-1616) é um enigma. Pouco se sabe sobre a vida do escritor que já teve sua obra traduzida, adaptada, encenada, estudada, reeditada e comentada em centenas de línguas. Eis um perfil hilário sobre quem foi — ou quem definitivamente não foi — o bardo de Stratford-upon-Avon. Por essas e outras, Shakespeare — O Mundo É um Palco, de Bill Bryson, é uma rara oportunidade de ver um personagem genial nas mãos de um jornalista brilhante.

*Versão sem cortes de resenha publicada na revista Nova Escola.

Categoria: Livros

Geração Ritalina

Houve um tempo em que as crianças podiam correr, subir em árvores, cabular aula, caçar grilos, pular, comer terra, brigar, esquecer a tarefa, ficar "de bem" e fazer barulho, muito barulho. Hoje, qualquer uma que aja assim é imediatamente diagnosticada como doente: tem Déficit de Atenção, Transtorno de Comportamento ou Hiperatividade, quando não tudo isso junto.

Como acontece com a maioria das enfermidades, para essas também há tratamento. A solução milagrosa acalmaria a criança, aumentaria sua concentração e, de quebra, ainda deixaria tranquilos pais e professores. A pílula mágica atende por muitos nomes – o mais conhecido, Ritalina.

Para se ter uma idéia de como a Ritalina vem sendo administrada como se fosse Aspirina, 1 milhão de caixas foram prescritas para cerca de 25 mil crianças brasileiras, só em 2007. Parece assustador? Pois nos Estados Unidos, onde a droga definitivamente virou balinha, entre 4 e 6 milhões de crianças tomam o remédio.

Em 2005, conversei com o pedagogo Luca Rischbieter sobre o assunto. Sua corajosa entrevista gerou uma enxurrada de cartas e e-mails à redação do Sinapse, caderno que eu editava na Folha de S.Paulo: as opiniões se dividiam entre quem era contra radicalmente contra o uso de remédio em crianças e quem, tendo filhos ou alunos agitados, tinha encontrado na pílula a solução para os problemas escolares.

Tão contundente quanto a entrevista do pedagogo é este quadrinho fake do Calvin que acabo de receber. Vale refletir se é isso, mesmo, o que queremos para nossos filhos e netos.


Se seu inglês for tão pífio quanto o meu:
Haroldo: – Uau, você já está fazendo seu trabalho? Não é para entregar só na quinta-feira?
Calvin: – É, eu sei... Mamãe disse que as pílulas devem estar funcionando.
Haroldo: – Está nevando lá fora. Eu pensei que talvez a gente pudesse... Não sei, você me diz.
Calvin: – Desculpe, eu não estava escutando. Eu realmente tenho de terminar isso.

PS: Coloquei aqui a íntegra da entrevista com Luca Rischbieter. Foi publicada na Folha de S.Paulo em 2005, mas nunca esteve tão atual. Infelizmente.

Categoria: Crianças

Os inimigos da infância *

Pedagogo critica uso abusivo de estimulantes em crianças que recebem diagnóstico de hiperatividade e diz que contraste entre o mundo real e a escola gera alunos agitados

Em entrevista, nos Estados Unidos, ao jornalista David Letterman, a atriz Penélope Cruz comentou que foi uma criança agitada e que seus pais a obrigavam a fazer atividades como balé para que ela se cansasse. Ela concluiu o relato dizendo se sentir com sorte por ter nascido na Espanha: se fosse norte-americana, seus pais teriam lhe dado remédios.

Histórias como essa podem espantar os desavisados, mas não o pedagogo Luca Rischbieter, 42, mestre em educação pela Universidade Paris 5. Ele faz parte de um número cada vez maior de educadores que alertam pais e professores sobre os exageros da medicação que está sendo ministrada a um também crescente número de crianças consideradas hiperativas.

"Muitos procedimentos podem ser explorados antes de dar drogas a uma criança", diz o autor de Guia Prático de Pedagogia Elementar, relançado neste mês (Positivo, 320 págs., R$ 44). Em suas palestras, ele sugere cuidado ao encaminhar uma criança ao psicopedagogo: "A pior coisa que pode acontecer à criança é ela receber um rótulo negativo e acreditar nele". Acompanhe a entrevista que ele deu à Folha por e-mail.

Folha - Por que você critica o uso de remédios no tratamento de crianças tidas como hiperativas ou disléxicas?
Luca Rischbieter -
Há uma enxurrada de diagnósticos precipitados que vêm sendo produzidos por nossos psicopedagogos mesmo antes da invenção recente do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade) e da Ritalina. Em um mundo cada vez mais complexo, cheio de atrativos e com regras pouco homogêneas, é previsível que aumente o número de crianças que não se interessam pela escola e que "fazem bagunça", "atrapalham", "não aprendem". É aqui que encontramos a maior parte dos candidatos a diagnósticos precipitados, sejam eles de dislexia, disgrafia ou hiperatividade.

Folha - Por que esses diagnósticos seriam precipitados?
Rischbieter -
Porque eles transformam algumas dificuldades comportamentais que podem ser facilmente contornáveis, na maioria dos casos, em problemas inerentes à criança, em doenças ou síndromes. Isso depois de expor a criança "suspeita" a uma verdadeira via-crúcis de exames e testes, visitas a psicopedagogos, fonoaudiólogos, neurologistas, psiquiatras...

Folha - Que problemas isso pode acarretar para a criança?
Rischbieter -
O principal efeito que isso pode causar é abalar a auto-confiança de uma criança que já está meio assustada. Se ela escreve um pouco errado quando seus colegas já não o fazem, é provável que seja taxada de disléxica ou disgráfica. Se é muito agitada, pode ser avaliada como hiperativa. Ela recebe um rótulo no qual a escola acredita, os pais acreditam e, pior, ela própria pode acabar acreditando. O risco maior é que a criança passe a se comportar como se fosse de fato disléxica, agravando dificuldades que ela poderia ter superado facilmente. Há psicopedagogos que agem como verdadeiros "inimigos da infância", pois sabotam a autoconfiança das crianças quando deveriam ajudar a construí-la e a reforçá-la.

Folha - Essa reação pode afetar também os adultos tidos como disléxicos ou hiperativos?
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Sim. Uma amiga minha, vamos chamá-la de Maria, quando tinha uns 28 anos, convenceu-se de que era muito burra, postura que "diagnostico" como sendo de uma pessoa bem inteligente. Gastou o que seriam hoje uns R$ 1.400 para fazer testes cognitivos. A uma certa altura, a psicopedagoga pegou um cronômetro e passou várias continhas para a Maria resolver. Minha amiga, nervosa, se atrapalhou. O veredicto foi: "Discalculia!". Parece piada, mas eu li o relatório da psicopedagoga. Nas conclusões, tinha uma frase inesquecível: Maria "tem os neurônios preguiçosos". Minhas gargalhadas ajudaram a refazer a autoconfiança da minha amiga, mas essa profissional, que escreveu uma barbaridade dessas, continua por aí, tirando dinheiro das famílias e etiquetando adultos e crianças. Infelizmente, ela não é a única. De uns anos para cá, essas pessoas enriqueceram seu potencial de asneiras com a supercientífica "hiperatividade".

Folha - Drogas como a Ritalina são inofensivas?
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Se você digitar a palavra Ritalina no Google ou se pesquisar o termo em inglês (Ritalin), vai encontrar, por exemplo, no dia 1º/7, no "The New York Times": "Ritalina pode aumentar risco de câncer". Há uma saraivada de acusações contra a Ritalina e drogas do mesmo tipo -especialmente uma que tem o fantástico nome de Concerta-, associando-as a episódios de violência, surtos psicóticos, suicídio etc. Ou seja, no mínimo, há muita controvérsia e precisamos de mais pesquisas.

Folha - Como esses remédios funcionam?
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Eles são uma espécie de anfetamina, droga que fez sucesso entre os jovens transgressores da década de 70 e que foi muito indicada para regime de "madame" nos anos 80, porque a pessoa ficava tão ligada que não comia. Agem aumentando a atividade cerebral frontal de um neurotransmissor estimulante chamado dopamina. Ainda é um mistério explicar como a Ritalina é capaz de acalmar crianças inquietas, pois ela deveria excitá-las muito mais. Os neurologistas chamam isso de "efeito paradoxal". Tecnicamente falando, ela é uma verdadeira cocaína light, pois a cocaína também age aumentando a ação da dopamina.

Folha - O que você acha dos pais que apontam melhorias com o uso desses medicamentos em seus filhos?
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Há casos em que, de fato, a medicação "bate bem" e há melhora. Muitas vezes, a criança fica como que paralisada, passa a ser mais quieta e comportada e até melhora seu desempenho escolar, mas ficar feliz com isso me parece algo pavoroso. E, é inegável, muitas só pioram, ficam mais agressivas, algumas babam de verdade.

Folha - Professores alegam trabalhar com alunos desatentos ou muito indisciplinados. Não há um problema real a ser combatido?
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É claro que sim. Não estou negando a existência de cada vez mais crianças com problemas escolares. Elas demonstram cada vez menos interesse pela escola porque, em casa e na rua, há lan house, TV, computador. Além disso, o público que vai à escola não é mais homogêneo como era, há uma explosão de modelos de família, convívio com referenciais diferentes, falta de regras em casa.

Folha - O que pode ser feito para melhorar a vida de crianças que têm dificuldades de aprendizado?
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Em muitos casos, o simples suplemento de atenção que a criança recebe dos pais ou um reforço do enquadramento disciplinar já resolve o problema. Há estratégias que bons psicopedagogos conhecem e que produzem resultados, como buscar caminhos alternativos para ensinar, estabelecer programas de tarefas em parceria com a família e fazer entrevistas psicológicas para tentar entender o fundo emocional que existe por trás de muitas dessas dificuldades. De qualquer forma, há uma grande quantidade de procedimentos que podem ser explorados por pais e educadores antes de decidir dar drogas a uma criança.

*Entrevista originalmente publicada em 26 de julho de 2005, no caderno Sinapse, da Folha de S.Paulo

O Guindaste enverdeceu

Cinco anos atrás, se alguém dissesse que ia de bike para o trabalho, enfrentando o trânsito insano de São Paulo munido apenas de selim e capacete, seria tratado como um suicida, quando não alguém já morto, “coitado, tão jovem...”. Nos supermercados, apenas uma meia dúzia de freaks levava sacola retornável para carregar as compras e um número ainda menor fechava a torneira para escovar os dentes. Você só se preocuparia em agir assim se fosse ativista do Greenpeace — e olhe lá.

Seria exagero dizer que essas ações hoje fazem parte do cotidiano das pessoas. Muita gente ainda acredita que água doce é infinita, petróleo dá em árvore e o ar tem propriedades auto-limpantes — “sério que a chuva não limpa a poluição?”. A despeito de tanta ignorância, é preciso admitir que até o mais bronco dos seres humanos tem pudores de jogar lixo na rua ou misturar latinhas de alumínio a restos de comida.

Enquanto termos como “sustentabilidade” ou “reciclagem” avançam lentamente da teoria para a disseminação de práticas, na internet, a coisa anda a milhares de gigas por segundo. Neste mês, mais uma adesão aos pioneiros da blogosfera verde: o site da H2Oh!. A marca de bebidas lança uma ecopágina, reunindo três blogueiros experts no assunto — Daniel Chagas Martins, Jorge Henrique Cordeiro e Rodrigo Barba —, alem desta palpiteira profissional que vos tecla.

Alimentamos o site na surdina, então, já tem bastante coisa para fuçar. E, a partir de amanhã, os textos passarão a ser inéditos. Pode me fazer uma visita que acabei de assar um bolo e estou terminando de passar um cafezinho para acompanhar nossa prosa!

Um olho no peixe...

— Ela parecia um peixe fora d’água, tava na cara que nem sabia o que estava fazendo ali e...
— Um peixe fora d’água? Ela estava se debatendo?
— Se debatendo? Não. Que idéia, Carol, por que você pensou que a menina estava se debatendo?
— Hmmm, você já foi pescar alguma vez?
— Não. Por quê?
— Porque quando o peixe sai da água ele fica se debatendo.
— Ai, credo!
— Ué, mas é verdade! O que você imaginava que acontecia?
— Não sei! Que alguém botava os peixes numa caixa de isopor, não sei como eles ficavam lá.
— Ficavam agonizando por alguns minutos, até morrer lentamente.
— Afe! Não precisa descrever, vá!
— É que eu não entendo essas metáforas com bichos. Quem inventou essa do peixe fora da água nunca pescou na vida.
— Ele quis se referir ao peixe estar morto, Carol. É por isso que se diz olhar de peixe morto.
— Taí outra que não faz sentido! Peixe não tem pestana. Quando morre, o coitado fica com o olho arregalado.
— Éca!
— Ah, vá! Você também nunca comprou peixe na vida?
— Não... tenho nojo.
— E de comer sushi, não?
— É bem diferente.
— Mesmo? Achei que isso era feito com peixe cru...
— É feito com peixe cru! Mas ele vem em pedacinhos finos, enroladinho, temperado. Não tem nada se debatendo. Nem me olhando.
— Sorte a sua. Já pensou se o sushiman corta o pedaço errado e vai parar no seu prato justo o olhar de peixe morto? Ou quem sabe uma barata tonta, uma mosca morta...

Acabou chorare

A culpa não foi do Quieto. Ele é um cavalo tão sossegado que deixa até os gatos da Hípica dormirem no lombo dele. Como sempre, a responsável pela encrenca fui eu: me desequilibrei, atrapalhei o Quieto e fui parar em cima do pescoço do cavalo. Manso, ele parou e ficou esperando eu me recompor e sentar direito na sela.

Assim que consegui fazer meu coração descer pela garganta e voltar ao devido lugar, meu professor apareceu. Estava colérico. Vociferou uns palavrões compridos e cabeludos que não reproduzo aqui porque tem crianças na sala. Só me restou fazer o que qualquer amazona valente varia: abri o berreiro.

Nos primeiros 60 segundos, chorei de medo de quase ter levado um tombo feio. Depois, chorei de raiva de ter sido tão descuidada. Aí vieram, na ordem, o choro Quero Sumir (os outros alunos me olhavam pasmos), o Jesus me Chicoteia (para ver se o professor pegava mais leve) e o elaborado Quem Aqui Tá Chorando?, que leva anos para ser executado com perfeição. No fim do deságüe, chorei um rápido Ai, Que Vergônha, assim, com circunflexo, para encerrar a safra 2008 com charme e elegância.

É claro que nada disso sensibilizou meu professor. Assim que as águas acalmaram, ele me fez dar a volta no picadeiro e saltar umas dez vezes o mesmo obstáculo onde eu quase tinha caído.

Fui para a baia gotejando o choro da Superação. Assim que se viu livre da sela e das rédeas, Quieto me cheirou, deu um empurrãozinho com a cabeça e resfolegou alto. Tem razão, Quieto. Acabou chorare.

3 dicas para acertar no presente*

“Querido Papai Noel, neste ano, eu quero uma boneca nova.” Que bom seria se todas as pessoas que nós precisamos presentear escrevessem cartinhas com seus pedidos, não? Isso evitaria o constrangimento de dar um CD de MPB para o chefe roqueiro ou uma blusa de uma cor que sua amiga não usaria nem morta... Mas se os adultos não fazem lista de desejos, ao menos deixam pistas que podemos seguir para acertar em cheio no presente. Experimente estas três:

Siga as pistas
O presenteado tem uma cor preferida? Come doces? Faz coleção? Tem um lazer, como pescar, dançar ou praticar esportes? Esses itens rendem ótimos presentes.

Escolha algo útil
Procure se interar sobre o momento da vida do outro. Se há uma viagem sendo programada, por exemplo, presenteie com algo que possa ser útil nesse momento.

Capriche na embalagem
Embrulhe com carinho e escreva uma mensagem bem alto-astral. Muitas vezes, o presente acaba ou se quebra, mas o cartão ajuda a recordar aquele momento.

*Versão sem cortes de texto publicado na revista AnaMaria desta semana

No farol, à direita

Dirijo consultando o guia a cada semáforo vermelho. “Hmmm, agora é só seguir reto que essa rua vai cair direto na Radial Leste...” Faz sol e eu tenho todo o tempo do mundo para cotar preços. As coisas começam a dar errado quando a rua que deveria cair na Radial não cai: vejo, com pesar, a tal da avenida ir ficando mais e mais alta, até que faz uma alça graciosa à esquerda e some de vista. Enquanto isso, a rua em que eu estou fez uma curva acentuada à direita e me manda para a Liberdade.

Andar de carro em São Paulo é coisa para profissionais. Sem o menor sentido de direção, uma motorista sem noção como eu se perde na primeira esquina. Decidida a não dar o braço a torcer, paro no primeiro posto que encontro. “A senhora precisa dobrar à direita no primeiro farol, à direita de novo e já vai ver placa para a Radial.” E é claro que eu faço tudo certinho, não vejo nenhum sinal de placa e acabo indo parar de novo na frente do posto. O frentista me olha desconfiado. Abro o vidro: “Não tem placa, moço!”.

Ele me explica tudo de novo, como se a repetição do trajeto fosse me fazer fixá-lo e acertar o caminho. “Direita, direita e segue placa. Não tem erro!” Agradeço e tento mais uma vez. Direita, direita, anda um pouco, nada de placa, bifurcação. E agora? Atrás de mim, o motorista do ônibus buzina impaciente. Dobro à direita e passo de novo em frente ao posto. O MESMO posto. O frentista conversa em pé com dois colegas. Me vê e acena de longe. Acho melhor não parar desta vez.

Quase duas horas e três tentativas frustradas depois, consigo pegar a Radial Leste e chegar à loja, para descobrir, em cinco minutos, que a viagem não serviu para nada. Na volta, me perco outras duas vezes e vou parar no Centro quando queria ir é para a Zona Oeste. Faz pocinha em volta dos olhos onde os óculos escuros encostam na pele. Minha blusa está encharcada de suor e meu desodorante não dá conta do vidro fechado sem ar condicionado. Um motoqueiro me xinga, putíssimo, nem sei que infração cometi.

Quero minha mãe!

O trema heroico

Preciso confessar: não sei se estou preparada psicologicamente para o novo acordo ortográfico. É tão quentinho e aconchegante o português que eu aprendi na escola... Tudo bem que eu tinha calafrios quando minha avó escrevia “estrêlla” ou "amôr". Outra coisa estranha era ler “pharmacia”, me dava acesso de riso. E o que dizer de belezuras como “colectivo”, “húmido” ou “baptizar”?

O hífen já vai tarde: quem nesta terra de PCs ainda hifeniza alguma palavra? É só a danada chegar perto da margem para o computador mandá-la inteira pra linha de baixo. De tanto digitar texto alinhado à esquerda, até quando escrevo à mão tiro o hífen.

Algumas mudanças não fazem lá muito sentido, é bem verdade. Ou alguém pode me explicar por que cargas d’água devo usar “heroico” sem acento e “herói” acentuado? Mas o golpe mortal ainda está por vir: derrubaram o trema! O que o coitado fez de mal para o mundo além de dar um charme a “freqüente” ou “tranqüilidade”? Já pensou em pedir uma porção de “linguicinha”? Ou de pegar o carro e ir para a “Anhanguera”? Ter apego ao trema era a única explicação plausível para eu escrever “qüinqüênio”! Francamente, esses linguistas tem cada ideia...

Se prepare para duelar com o corretor ortográfico automático do seu Word!

Categoria: Blogosfera, Humor

A otária

— Tem bateria Motorola?
— Bateria?
— É. A do meu celular anda muito fraca, não segura nem um dia inteiro.
— Que modelo é?
— Este aqui.
— Mas esse celular nem é tão velho...
— Pois é! Essas baterias de hoje não duram nada!
— Por que você não compra um celular novo?
— Pra quê? O meu está funcionando muito bem. Só a bateria é que está ruim.
— Olha, nem tenho mais dessa bateria aqui pra vender.
— Tira de um celular, uai!
— Não posso, você tem que comprar o celular inteiro.
— Onde posso encontrar só a bateria?
— É complicado...
— O que você quer dizer com isso?
— Que é mais fácil você trocar de aparelho.
— Nossa, que surpreendente: um vendedor querendo me empurrar uma compra completamente desnecessária!
— Eu sei que parece papo de vendedor... Mas vou te mostrar como é verdade. Me dá seu CPF que eu vou checar quantos pontos você tem para resgatar.
— Posso comprar uma bateria nova com eles?
— Teoricamente poderia, mas pararam de mandar baterias avulsas pra cá. Ninguém compra. É muito mais barato trocar de celular. Olha só: você tem 943 pontos para resgatar. Dá para levar um excelente aparelho com essa pontuação, com câmera digital, mp3, filmadora...
— Mas bateria, que é bom, nada?
— Nada. Essa bateria custava R$ 199 na última remessa que recebi, faz uns bons meses já.
— Que caro!
— Não falei?
— E se eu levar na assistência técnica?
— Vão te cobrar no mínimo isso. Porque bateria não conserta, tem que trocar mesmo. Ela fica gasta. Que nem pilha.
— Mas meu celular não tem nem dois anos!
— Pois é. Mas isso é coisa feita para não durar, para, daqui uns meses, você querer trocar. E, falaí, só um otário vai querer um celular velho remendado quando pode levar um novinho de graça.

 

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