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Por entre os dedos

No meio do vaivém de pernas, vi algo se mexer timidamente, um movimento tão suave quanto o de planta balançada pela brisa. Não sei porque olhei para o chão. Bem no canto, camuflado pela terra, um par de minúsculos olhinhos piscou para mim.

Me agachei para confirmar e era o que eu imaginava — um filhote de pardal, ainda atordoado pela queda, tentava recolher suas asas flácidas, esparramadas pelo chão como folhas caídas. Me aproximei o mais lentamente que pude e, com as mãos em concha, recolhi o pequeno passarinho. O bico ainda tinha restos de comida. Mal senti seu coraçãozinho bater.

“Xí, já era...”, comentou um rapaz que passava. “Se eu tivesse uma gaiola por aqui, pegava pra criar”, ouvi outro dizer. Raspei o dedo de leve em seu cocoruto e ele fechou os olhos por alguns instantes.

Como são delicados os passarinhos! Lembro de ter participado uma vez da cirurgia de uma fragata, uma dessas grandes aves insulares, prima das gaivotas. A criatura, sabe-se Deus como, mergulhou de cabeça numa pedra e quebrou uma das asas. Chegou ao Aquário de Ubatuba com as penas em frangalhos e bravíssima, incomodada com a dor da fratura. Assim que ela foi anestesiada, pude tocá-la e observar de perto suas lindas penas, tão bem encaixadas quanto escamas. Os ossos das aves são ocos, o que os tornam ainda mais quebradiços — o da fragata era tão fino que o veterinário mal conseguia segurá-lo.

Me sentei para aconchegar melhor o pequeno pardal. Se ele tinha de morrer, que fosse quentinho e acolhido e não num chão sujo e frio, com o risco de ser pisoteado. Dei uma olhada melhor nele — ele já tinha toda a plumagem adulta, com o castanho rajado típico da espécie, mas era jovem demais para ostentar a característica mancha marrom nas bochechas. Senti suas perninhas se mexerem na minha mão. Afrouxei os dedos e ele voou, leve como o vento, para o primeiro telhado que viu.



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Comentário de: Marília Email · http://maroma.wordpress.com/
:)
Que bom que o final foi feliz!

Também estava na torcida, Má!
PermalinkPermalink 22.11.08 @ 01:37


Comentário de: Nine das meninas Email
Adoro finais felizes,ainda mais de passarinhos!bjs

Hehehe, passarinho é tudibão, né?
PermalinkPermalink 22.11.08 @ 07:13


Comentário de: Emilio Email · http://estou-sem.blogspot.com
Eu acho que tinha que ser mesmo uma mulher pra pegar o passarinho. Se fosse eu, acho que acabaria esmagando o coitadinho.

Nem sei como o vi, Emilio. Ele é marrom e o chão da hípica é coberto de serragem... Acho que eu também teria pisado nele.
PermalinkPermalink 22.11.08 @ 10:50


Comentário de: Ana Rosa Email · http://vdcotidiana.blogspot.com/
Lindo o seu gerto, que bom que você estava por perto, porque se não alguma pessoa sem amor no coração, só por divertimento ia aprisionar o bichinho, bjs

Nem me fale, Ana...
PermalinkPermalink 22.11.08 @ 21:26


Comentário de: Junior Email
Faço minhas as palavras do Emilio. Esse é um dos exemplos da sensibilidade que é tipicamente feminina e sobre a qual eu já havia escrito, lembra? Por causa da qualidade dos seus posts, está ficando difícil comentá-los, afinal é preciso ser criativo para elogiá-los sem ser repetitivo. Como já pedi desculpas antecipadas pela falta de criatividade, é muito legal perceber que ainda há pessoas capazes de fazer pequenas gentilezas. A nossa geração já nasceu em uma época com menos esperança, sabemos que não vamos conseguir "mudar o mundo", mas atitutes como a tua com esse passarinho são capazes de mudar o nosso "mundo particular", aquilo que está mais próximo. E isso já representa muita coisa.

Ô, Junior, não fala assim que eu morro de vergonha, rapaz... Que puxa...
PermalinkPermalink 23.11.08 @ 16:41


Comentário de: Suzana Email
que milagrinho lindo do cotidiano...

Nué? Fiquei contente por ter participado dele. (Saudadocê!)
PermalinkPermalink 23.11.08 @ 22:29


Comentário de: ana maria Email
Veja o bem que faz um cafuné!
O pardalzinho vai ter uma boa história pra contar quando chegar em casa...
Bjs.

Se é que a mãe dele não ralhou com o danado porque ele chegou perto demais de um ser humano...
PermalinkPermalink 24.11.08 @ 11:15


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