Por entre os dedos
No meio do vaivém de pernas, vi algo se mexer timidamente, um movimento tão suave quanto o de planta balançada pela brisa. Não sei porque olhei para o chão. Bem no canto, camuflado pela terra, um par de minúsculos olhinhos piscou para mim.
Me agachei para confirmar e era o que eu imaginava — um filhote de pardal, ainda atordoado pela queda, tentava recolher suas asas flácidas, esparramadas pelo chão como folhas caídas. Me aproximei o mais lentamente que pude e, com as mãos em concha, recolhi o pequeno passarinho. O bico ainda tinha restos de comida. Mal senti seu coraçãozinho bater.
“Xí, já era...”, comentou um rapaz que passava. “Se eu tivesse uma gaiola por aqui, pegava pra criar”, ouvi outro dizer. Raspei o dedo de leve em seu cocoruto e ele fechou os olhos por alguns instantes.
Como são delicados os passarinhos! Lembro de ter participado uma vez da cirurgia de uma fragata, uma dessas grandes aves insulares, prima das gaivotas. A criatura, sabe-se Deus como, mergulhou de cabeça numa pedra e quebrou uma das asas. Chegou ao Aquário de Ubatuba com as penas em frangalhos e bravíssima, incomodada com a dor da fratura. Assim que ela foi anestesiada, pude tocá-la e observar de perto suas lindas penas, tão bem encaixadas quanto escamas. Os ossos das aves são ocos, o que os tornam ainda mais quebradiços — o da fragata era tão fino que o veterinário mal conseguia segurá-lo.
Me sentei para aconchegar melhor o pequeno pardal. Se ele tinha de morrer, que fosse quentinho e acolhido e não num chão sujo e frio, com o risco de ser pisoteado. Dei uma olhada melhor nele — ele já tinha toda a plumagem adulta, com o castanho rajado típico da espécie, mas era jovem demais para ostentar a característica mancha marrom nas bochechas. Senti suas perninhas se mexerem na minha mão. Afrouxei os dedos e ele voou, leve como o vento, para o primeiro telhado que viu.
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Que bom que o final foi feliz!
Também estava na torcida, Má!
Hehehe, passarinho é tudibão, né?
Nem sei como o vi, Emilio. Ele é marrom e o chão da hípica é coberto de serragem... Acho que eu também teria pisado nele.
Nem me fale, Ana...
Ô, Junior, não fala assim que eu morro de vergonha, rapaz... Que puxa...
Nué? Fiquei contente por ter participado dele. (Saudadocê!)
O pardalzinho vai ter uma boa história pra contar quando chegar em casa...
Bjs.
Se é que a mãe dele não ralhou com o danado porque ele chegou perto demais de um ser humano...








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