9 truques para reduzir em 30% a conta do supermercado*
Ir ao supermercado sem fome é a lei número um de qualquer pessoa prevenida. Mas você sabia que gasta menos quando faz compras sozinho? Ou quando leva produtos das prateleiras debaixo? Esses e outros cuidados na hora de fazer as compras podem reduzir em até 30% sua conta supermercado! Anote as dicas do consultor financeiro Reinaldo Domingos, autor do livro Terapia Financeira.
Anote tudo
Antes de sair, faça uma relação dos produtos que estão em falta.
Mantenha o foco
Não pare nas seções que não têm os itens presentes na sua lista.
Vá sozinho
Esta é para mulheres com filhos: crianças insistem nos supérfluos e o marido não tem paciência.
Evite compra de mês
Assim, você aproveita as melhores ofertas de cada semana.
Procure no baixo
Em geral, os produtos que ficam na altura dos olhos são mais caros.
Leve marcas próprias
As marcas dos supermercados costumam ser mais baratas que as outras.
Desconfie das ofertas
Ao encontrar promoção do tipo “pague 1, leve 2”, confira o preço individual.
Fique cego no caixa
Os produtos que ficam na boca do caixa aumentam em até 15% sua compra.
Vá à feira e ao açougue
Compre frutas, legumes e carnes na feira e no açougue: os preços são melhores.
*Versão sem cortes de texto publicado na revista AnaMaria desta semana.
Tire um bicho da rua
Morre de vontade de adotar um bichinho, mas não tem espaço, nem tempo para cuidar dele e, para piorar, seu filho é alérgico? Não tem problema. Se não dá para você ter um cão ou gato pertinho, fique perto deles ao menos de coração: adote-o virtualmente.
Há muitas maneiras de ser o responsável por um dos milhões de cachorros e gatinhos abandonados. Você pode apadrinhar um deles e depositar uma quantia, periodicamente, para que uma ONG ou um voluntário possa mantê-lo saudável e feliz. Também é possível doar rações, caminhas e remédios que bigodes e focinhos precisam para ficar bem.
Mas tem um jeito ainda mais fácil de fazer a diferença para essa bicharada. É só aproveitar um dos muitos bazares que as ONGs de adoção organizam no final do ano e comprar alguma coisinha. Neste domingo (30/11), acontece o encontro da Adote um Gatinho, uma das entidades mais sérias e compromissadas com o resgate e cuidado de gatos (às vezes, também cães!) largados nas ruas.
Estarei por lá das 15h às 18h. O Bazar de Natal da Adote um Gatinho será na rua Desembargador Ferreira França, 40, no salão de festas do bloco B (pertinho da Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros, São Paulo). Quem sabe a gente não se conhece ao vivo?
5 segredos para sair bem em fotos*
Se até a Gisele Bündchen às vezes não fica bem nas fotos, o que dizer de nós, meras mortais? Para driblar um dia em que estão pouco fotogênicas, modelos e atrizes usam alguns segredinhos. Relaxar os ombros, por exemplo, tira a tensão do rosto e deixa o sorriso menos artificial. Outro macete milagroso é se mexer. Ok, os fotógrafos querem todo mundo paradinho, mas quando você se mexe, só um pouquinho, fica mais natural na pose. Experimente mais estes três truques:
Conheça seu rosto
Quem tem nariz grande deve fugir de fotos de perfil. Se seu problema é a papada, levante o queixo um tiquinho que ela some. Conheça seus pontos fortes e valorize seu melhor ângulo!
Respire profundamente
É só alguém dizer “olha o passarinho” que você trava? Essa tensão só deixa você mais dura na foto. Respire profundamente durante uma foto e parecerá mais natural e bela.
Lembre-se de uma (boa) piada
Sabe aquela piada do português que fez você morrer de rir? Ou a frase engraçadíssima que seu filho disse outro dia? Recorde desses bons momentos na hora do clique e sorria com a alma!
*Versão sem cortes de texto publicado na revista AnaMaria desta semana.
Com açúcar e com afeto*
O dia pode estar lindo, mas o Pequeno Canguru não quer saber de deixar a bolsa da mãe para se aventurar lá fora. Com carinho e paciência, Mamãe Canguru vai mostrando ao filhote uma porção de coisas interessantes que estão além da bolsa. Basta ter um pouquinho de coragem — e a certeza de que, onde quer que esteja, o Pequeno Canguru sempre estará no coração da Mamãe.
Em No Coração e na Bolsa, a autora Laurence Bourguignon coloca a serviço da boa literatura infantil sua experiência de dez anos como editora de uma livraria especializada no público mirim. Ainda que as ilustrações não estejam à altura do texto – são tão bobinhas... – é uma ótima leitura para os pequenos canguruzinhos espalhados por aí.
*Versão sem cortes de resenha publicada na revista Nova Escola.
Os jogos de tabuleiro enverdeceram
Que tal ser dono de uma parte do Pantanal? Pois uma planície nessa região do Mato Grosso do Sul custa 130.000 em créditos de carbono, valor que você pode facilmente conseguir... nos dados. Já despoluir uma parte da Amazônia exige ajuda comunitária além de sorte nas cartas. Parece brincadeira? E é: essas e outras ações são possíveis nas versões ecológicas de jogos tradicionais de tabuleiro, como o Banco Imobiliário e o War.
Com peças de plástico extraído de cana-de-açúcar e tabuleiro em papelão reciclado, o Banco Imobiliário Sustentável (Estrela) não mudou apenas na embalagem: o jogo deixou de lado sua apologia ao capitalismo selvagem para abraçar questões como energia eólica, biodiversidade e reciclagem de lixo. Com créditos de carbono, é possível comprar desde uma companhia de agricultura orgânica até a Serra da Canastra, em Minas Gerais, ou a Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Na sorte ou revés, surgem ensinamentos como “sua empresa desenvolveu um programa de voluntariado para seus funcionários e a produtividade aumentou” ou “sua vida sedentária lhe rendeu um fim-de-semana no hospital”.
Outro jogo imperialista que enverdeceu foi o War: sua versão eco, o WeAtheR, foi criada pela Colméia e a AlmapBBDO a pedido do Greenpeace e pode ser jogada gratuitamente na internet. Ao contrário do que acontece com o Banco Imobiliário Sustentável, no WeAtheR, até a lógica do jogo mudou. Em vez de se digladiarem para conquistar continentes e derrotar inimigos, os jogadores precisam se unir para resolver problemas climáticos em várias partes do mundo. Há crises emergentes e crônicas, que devem ser sanadas por um ou vários ativistas do Greenpeace antes da 16a rodada. As cartas de ação permitem ao jogador se mover, pedir ajuda ou treinar outros ativistas.
Quem disse que defender a natureza não pode ser divertido?
Transforme idéias em posts – 3
Enfim, chegou a hora de escrever sobre sua grande idéia. Você abre um arquivo novo no Word, escolhe a fonte e o tamanho da letra e... trava. Tem tanta coisa para falar que não sabe por onde começar. Isso quando já não escreveu mais da metade e resolve apagar tudo e começar de novo. Eu falei que doía, não?
Ainda bem que René Descartes resolveu dar uma mãozinha para você driblar o pânico da primeira linha! Veja só como funciona o método cartesiano no qual jornalistas e escritores se inspiram para escrever:
Submeta tudo à dúvida
Será que sua idéia é mesmo boa? Pense friamente: seu texto pode acrescentar algo de novo ao tema ou é só a repetição do que já existe na internet? Há milhões de blogs na internet, por isso, tente ser original nas suas escolhas de tema ou abordagem. Essas premissas não valem para que não liga à mínima para audiência e tem um blog só para guardar seus pensamentos (eu nunca conheci um blogueiro dessa espécie, mas há quem diga que eles existem, sim).
Divida o texto em partes
Se o tema se subdivide em uma porção de subtemas, divida em partes. Faça um esqueminha com as palavras-chave e tente observar se uma parte mais complicada não pode ser destrinchada em duas ou três partes menores. Prefira escrever vários parágrafos pequenos a um único trecho grande — é mais fácil para você e para o leitor.
Vá do fácil pro difícil
Comece a escrever pelo trecho ou informação que você acha mais fácil de colocar no papel. Isso não quer dizer que esse será o início do seu texto: não tenha pudores de mudar frases e parágrafos de lugar quando sentir que a cadência do post está comprometida. Vale tudo pela fluência.
Revise, revise
Escrever em linguagem informal não é desculpa para postar um texto com erros de português — ainda mais num mundo em que existem Google e corretor ortográfico ao alcance de um clique. Cheque os dados que você cita, procure as fontes primárias: se alguém citou uma pesquisa que você quer usar num texto, busque o site ou blog do autor da pesquisa. Isso evita erros em cadeia e, de quebra, dá mais credibilidade ao seu post.
PS: Hoje acaba essa micro-série sobre textos de blog. Para ler os outros textos, clique aqui e aqui.
Transforme idéias em posts – 2
Depois de assegurar que suas idéias não sairão voando por aí, você desenvolveu 1% do trabalho. Chega a hora de resolver os outros 99%: botar as idéias no papel. Não conheço nenhum bom autor que diga que escrever é fácil, mesmo quando o resultado do trabalho parece ter saído sem esforço nenhum. Escrever dói. Faço isso profissionalmente há dez anos e posso garantir que a dor não passa — cada texto que tenho de escrever é um parto. Até legenda de foto.
A boa notícia é que disciplina e dedicação tornam o processo bem menos traumático. Com o tempo, você se sente como um atleta: a dor está em cada músculo, osso ou tendão, mas você se acostuma a ela, quase nem sente mais. Aqui vão uns truques que aprendi com meus bons “treinadores”.
Uma idéia por post
Quando nos empolgamos com uma idéia, é comum que ela puxe outras e acabe se transformando num turbilhão de informações. A primeira pergunta que você deve se fazer é: tudo o que você quer falar gira sobre o mesmo assunto? Na dúvida, anote os tópicos num papel e tente hierarquiza-los. Se ficar difícil colocar as coisas em fila indiana, é porque os assuntos se subdividiram. Às vezes, é melhor separar as idéias em vários posts independentes e interligá-los com links. A leitura flui melhor.
Não existe tamanho certo
Muitos blogueiros defendem que texto para a internet tem de ser curto. De fato, a tela do computador atrapalha a leitura — li em algum lugar que o internauta absorve 30% menos do que numa folha de papel. Mesmo assim, acho que post não tem tamanho certo: se o texto estiver bem escrito, pode ser de uma linha ou de longos parágrafos, como bem atestam Marco Antonio e Alexandre Inagaki. Não quer correr riscos? Divida seu post gigante em partes e suba um pouco por vez.
Conte para sua avó
Blogs costumam usar um tom informal. Para treinar isso, imagine-se contando sua idéia para a vovozinha lá do interior. Não tem uma avó no interior? Inventa uma, pô! A jornalista Fátima Bernardes diz que mentaliza uma conversa com a mãe quando vai apresentar o Jornal Nacional, assim, “fala as notícias do jeito mais simples e direto possível”. Além de deixar o texto menos burocrático, o exercício de “contar” é ótimo para encontrar o começo do post: ele será a primeira coisa que você vai falar para sua avó — ou mãe, amigo, bicho de estimação...
PS: Amanhã, na última parte desta micro-série, como escrever com menos sofrimento. A primeira parte está aqui e a última, aqui.
Transforme idéias em posts - 1
Muita gente tem me perguntado sobre como escrever para blogs. Que eu saiba, não existe uma técnica específica para isso — sigo algumas regrinhas que uso no jornalismo e misturo a dois ou três truques que aprendi na prática. Não são garantia de bons textos, como se vê muitas vezes por aqui, mas, ao menos, ajudam a lidar com aquela frustração de não conseguir botar as idéias no papel.
Pense, fale, repita
Idéias são feitas do mesmo material dos sonhos: são imprevisíveis, indomáveis e não reproduzíveis em cativeiro. Eu sempre perdia um insight criativo porque nunca tinha papel e caneta à mão. Mais tarde, à frente de um computador, não havia Cristo que me ajudasse a lembrar da idéia.
Para evitar isso, hoje, uso três truquezinhos milagrosos. O primeiro é falar a idéia alto: se foi uma frase, diga-a alto. Se foram palavras soltas que remeteram a um pensamento vago de post, fale-as todas, pausadamente, umas duas vezes. Para ajudar, tente visualizar uma imagem daquilo que está falando.
O segundo macete é puxar o fio das sinapses que levaram ao raciocínio criativo. Parece complicado, mas é moleza. Imagine que você acaba de observar uma senhora atravessar a rua com um andar miudinho como o dos pombos que você viu na Plaza de España, quando conheceu Sevilha. Na praça tinha uma feirinha de artesanato e, numa das barraquinhas, uma garotinha atormentava a mãe para comprar uma peruca verde. Isso lhe faz lembrar de quando você ganhou seu primeiro gatinho, de como queria tanto um bichinho que teve até febre. Então, você pensa: “Puxa, acho que vou escrever sobre desejos infantis”. Para não perder a idéia, faça o caminho inverso das sinapses: pensei em “desejos infantis” porque lembrei do meu “gatinho Petit”; lembrei do Petit porque recordei da “menina que queria uma peruca verde”; recordei da peruca porque imaginei a Plaza de España; imaginei a praça por causa das “pombas”; que me lembram o andar dessa “velhinha”. Se seguir o fio, você acha a meada e não esquece mais da idéia.
Por fim, minha terceira tática para não perder idéias é deixar caderninhos de anotação pra tudo que é canto. Tenho um do lado da cama, para anotar sonhos e idéias insones. Durante anos deixei um do lado do box do banheiro porque adorava encontrar figuras nos fios de cabelo deixados no azulejo: assim que acabava meu banho, pegava o caderninho e desenhava a imagem que via no emaranhado de fios de cabelo. Se lhe ocorrer uma boa idéia de post durante o chuveiro, não deixe que ela vá pro ralo!
PS: Amanhã, escreverei sobre como hierarquizar o monte de idéias que você, agora, vai lembrar. Na última parte desta micro-série, como, enfim, botar as idéias no papel.
Por entre os dedos
No meio do vaivém de pernas, vi algo se mexer timidamente, um movimento tão suave quanto o de planta balançada pela brisa. Não sei porque olhei para o chão. Bem no canto, camuflado pela terra, um par de minúsculos olhinhos piscou para mim.
Me agachei para confirmar e era o que eu imaginava — um filhote de pardal, ainda atordoado pela queda, tentava recolher suas asas flácidas, esparramadas pelo chão como folhas caídas. Me aproximei o mais lentamente que pude e, com as mãos em concha, recolhi o pequeno passarinho. O bico ainda tinha restos de comida. Mal senti seu coraçãozinho bater.
“Xí, já era...”, comentou um rapaz que passava. “Se eu tivesse uma gaiola por aqui, pegava pra criar”, ouvi outro dizer. Raspei o dedo de leve em seu cocoruto e ele fechou os olhos por alguns instantes.
Como são delicados os passarinhos! Lembro de ter participado uma vez da cirurgia de uma fragata, uma dessas grandes aves insulares, prima das gaivotas. A criatura, sabe-se Deus como, mergulhou de cabeça numa pedra e quebrou uma das asas. Chegou ao Aquário de Ubatuba com as penas em frangalhos e bravíssima, incomodada com a dor da fratura. Assim que ela foi anestesiada, pude tocá-la e observar de perto suas lindas penas, tão bem encaixadas quanto escamas. Os ossos das aves são ocos, o que os tornam ainda mais quebradiços — o da fragata era tão fino que o veterinário mal conseguia segurá-lo.
Me sentei para aconchegar melhor o pequeno pardal. Se ele tinha de morrer, que fosse quentinho e acolhido e não num chão sujo e frio, com o risco de ser pisoteado. Dei uma olhada melhor nele — ele já tinha toda a plumagem adulta, com o castanho rajado típico da espécie, mas era jovem demais para ostentar a característica mancha marrom nas bochechas. Senti suas perninhas se mexerem na minha mão. Afrouxei os dedos e ele voou, leve como o vento, para o primeiro telhado que viu.
Catchup e Mostarda
Catchup e Mostarda sempre foram super apegadas. Primeiras a nascer de uma ninhada de cinco fêmeas, as duas gatas era praticamente iguais em sua pelagem tão rajada que mal se distinguiam as manchas. Catchup era a mais avermelhada, Mostarda, a mais castanha. As duas, dóceis e mornas, verdadeiras gatas-líquidas, daquelas que vão se esparramando no primeiro cafuné.
Por algum problema genético, as ninhadas de Mostarda eram cada vez menores. Dias antes de parir, estourando de gordas, as gatas sumiam de vista. Adoravam dar à luz no escurinho do meu armário de cobertores, para desespero de minha avó. Catchup era sempre a primeira, seguida, três ou quatro dias depois, pela irmã.
Separávamos as caixinhas, para que ninguém encrespasse com os sobrinhos. Inconformada por ter dois filhotes a menos, Mostarda ia até a caixinha da irmã e abocanhava a primeira bolotinha de pêlos que encontrava pela frente. Quando Catchup dava pela falta de um rebento, ia até a toca da irmã e carregava um gatinho — qualquer um. Com a diferença de dias que as ninhadas tinham, não era raro ver numa caixa três gatinhos gordos, com os olhos abertos, e um pitotico ainda cegueta, confundido no intenso troca-troca felino.
Um dia, fui para a área de serviço e flagrei um gatinho esquecido — era pesado demais para ser arrastado pela nuca de um lado para o outro. Miava implorando por alguém, mãe, tia, qualquer um que lhe levasse de volta ao calor dos irmãos. Peguei-o no colo, era delicado e trêmulo, com seu pequeno coração pulsando loucamente atrás de umas costelinhas da espessura de palitos de dentes. Levei-o até a ninhada e o ajeitei na primeira teta vazia que encontrei. Arranjei uma caixa maior e botei as duas fêmeas juntas, com seus oito filhotes coletivos e as dezesseis torneirinhas de leite. Nunca mais encontrei um gatinho perdido.
Até hoje trago comigo a responsabilidade de ter tocado naquele serzinho tão frágil. Segurar um filhote recém-nascido nas mãos muda alguma coisa dentro da gente.
A leitura que transforma*
Foi estimulada por um professor de antropologia que a empregada doméstica Baby Halder começou a escrever sobre sua vida. “Nunca faltei um dia sequer à escola e as pessoas não imaginavam que freqüentemente ia até lá sem ter comido coisa alguma”, conta, em um dos trechos.
A vida de Baby foi pontuada por passagens amargas: foi abandonada pela mãe aos quatro anos; aos 12, obrigada a se casar com um homem agressivo e bem mais velho, do qual se separou mais tarde, carregando o fardo de ser mãe solteira num país conservador. Hoje, Baby é considerada um dos nomes mais promissores da literatura indiana.
Relato direto e pungente da pobreza e da tirania de uma sociedade onde mulheres não têm voz, Uma Vida Menos Ordinária é uma prova do poder transformador da leitura.
*Versão sem cortes de resenha publicada na revista Nova Escola deste mês.
Os posts que não vingaram
Algumas coisas não mudam muito com o tempo: desde que comecei o Guindaste, nunca sei de antemão o que vou escrever. E também não consigo reconhecer o que faz com que algumas caixas de comentários sejam animadas e outras um silêncio de bytes. Se tem alguma fórmula para um texto fazer sucesso na blogosfera, ainda não descobri a receita.
Mas ter dois anos de posts laranjinhas me dá alguma experiência no que definitivamente não funciona por aqui. Por exemplo: acabo de achar o arquivo que originou o Guindaste. Traz dois posts e cinco temas que eu pretendia abordar futuramente. Não consigo imaginar onde eu estava com a cabeça quando sequer cogitei a possibilidade de publicá-los... mas, vá lá:
Minhocoçu
Tenho uma amiga minhoca. A cada ano ela fica um pouco mais comprida e delgada. O objetivo da Minhocoçu é fazer o corpo dar a volta no quarteirão – mantendo sua cabeça e seus pés no apartamento X da rua Y. Este ano, ela vira a esquina.
Isso tem algum cabimento? Se está em código, eu certamente joguei fora a tradução. É minha fase cronopiana, quando eu sonhava em ser Julio Cortazar na próxima encarnação.
Pegando
Levantar é algo muito duro pra quem não gosta de dormir, como eu. Enquanto não inventam uma pílula que tenha os mesmos efeitos do sono, sou obrigada a me render a esse hábito obtuso que é ficar na horizontal por oito ou doze horas diárias. Coloquei em ordem alfabética todas as coisas que poderia fazer nessas horas desperdiçadas. Fiquei deprimida já na letra B: imagine quantos banhos de banheira dá pra tomar em oito horas.
Já sei que o dia vai ser muito duro quando o guindaste não funciona. Vou ficar miguelando dois ou três minutos a mais com o despertador. Se tenho de levantar às 9h, acontece de às 7h baixar uma insônia instantânea e eu começar a pensar no dia. Isso me custa uma meia hora preciosa, desperdiçada com as coisas mais estúpidas do mundo. Pingüins têm asas e não voam, os coitadinhos. Demora tanto para a pitanga ficar vermelha, quase um mês verde, e nada. Francamente, não saber onde fica a Antuérpia... Bem que eu podia aprender logo a andar de patins. Se até a torneira da pia tem limite, como é que eu não ponho um na minha vida?
Levanto, escolho uma roupa sem pressa. Faço um leite bem marrom, ponho o jornal debaixo do braço e vou para a sala. Cai uma gota na notícia que eu leio – tudo bem, não era nada importante. Mudo de página e cai outra gota e outra e outra. Tem uma goteira no teto, pingapingapingando, amarela. Acordo, atrasadíssima, não com o despertador que já tocou uma, duas, três vezes. Vou direto pro banheiro.
Esse é da depressão, quando eu dormia muitas horas ou tinha longas noites de insônia e uma dificuldade imensa para acordar. O nome do blog é justamente uma alusão ao esforço que eu precisava para sair da cama, como disse aqui.
Tristeza de pingüins
Sempre me incomodou o fato de pingüins terem asas e não serem capazes de voar. Mas só com muita inspiração para transformar uma frase num post inteiro...
Absinto
Esse eu pulo. Meus dedos dos pés se contraem até hoje só de pensar no estrago que a Fada Verde fez em mim.
Manequins com cabelo
Tái outra birra minha: detesto manequins de loja com peruca. É isso. Prontocabô.
Quebradeira santa
Sobre esse, acabei escrevendo, sim, aqui. Deu na mesma, mas eu precisava expurgar o fato de ter cuidado com tanto mimo de uma erva-daninha. Foi terapêutico, no final.
O balão vermelho
Esse é outra daquelas pirações que só funcionam quando você acorda de madrugada, com o sonho ainda fresco na cabeça. Consigo lembrar uma quantidade notável de sonhos numa só noite, daí querer criar uma categoria só para eles no Guindaste. O problema é que eles nunca se saem bem quando transpostos para caracteres. Eu passava horas trabalhando nesses posts oníricos, tentando reproduzir o tom meio David Lynch que há neles. Depois, ainda fazia um monte de ajustes e acabava não publicando nada. Até que desisti. Escrever sobre sonhos é um pesadelo.
Pedir, repetir, tripetir
Durante toda minha infância, a frase que mais ouvi foi: “Come mais um pouquinho, filha...”. A despeito da comida perfumada e saborosa de minha mãe, eu e meus irmãos demos muito trabalho para comer. Tive uma fase pró-feijão; aí, mudei, só queria saber do caldo; meses depois, comia os grãos bem escorridos e deixava no prato várias cascas sem feijão, rabinhos de feijão e outras espécimes que não passassem por meu controle de qualidade. Minha frescura durou até que minha mãe se enchesse e passasse a bater o feijão no liquidificador.
Por conta disso, cada vez que eu ou meus irmãos repetíamos um prato, minha mãe faltava só estourar rojão. Com o tempo, aprendi a preparar minha própria comida e deixei de nove-horas — afinal, um cozinheiro valoriza o que preparou porque sabe a trabalheira que deu para fazer.
As coisas iam bem, comigo repetindo pratos ao menos uma vez por semana, até que levei um namorado para comer em casa. Para quem comia dois Big Mac no café da manhã e tomava gemada antes de dormir, repetir era a coisa mais óbvia do mundo. Vi o moço encher o prato de arroz, feijão, brajolas e fritas, numa dimensão jamais experimentada em casa. Do outro lado da mesa, a montanha de pedreiro escondia o rapaz, que só abria a boca para enfiar o garfo. Quando minha mãe preparava seu bordão do “come mais um pouqui...”, ele já estava no segundo prato. Eu e minha irmã nos entreolhamos em silêncio enquanto observávamos o segundo prato sumir e dar lugar a um terceiro prato.
Do que concluo duas coisas: a) repetir é um elogio, mas tripetir exige preparo psicológico; e b) namorados precisam descobrir que facas têm utilidade, sob o risco de acabar o relacionamento. O meu não chegou à sobremesa.
As fadas endoidaram*
Quem diria que alguém sugeriria a Pooh um pote de... fluoxetina! Pois é, por trás da fachada de simpático e bonachão, o ursinho esconderia um grave Transtorno de Déficit de Atenção. Mas o sonhador compulsivo não está sozinho: o Bosque dos Cem Acres abriga também Tigrão, um hiperativo-impulsivo, Leitão, que tem um padrão claro de ansiedade, e Ió, o burrinho baixo-astral que sofre de disforia.
Do Bosque dos Cem Acres à Terra do Nunca, 27 personagens têm suas psiques escarafunchadas em O Lobo Mau no Divã, de Laura James. Foi enquanto lia Cinderela para seus filhos pequenos que a autora desconfiou de algo errado. "Como a Gata Borracheira pode ter se casado com um homem que mal conhecia?" Vasculhando outras histórias, ela encontrou todo tipo de psicose.
Você nunca mais vai ler contos de fadas com os mesmos olhos...
*Versão sem cortes de resenha publicada na revista Nova Escola deste mês.
A casa no campo
Eu sempre quis ter uma casa no campo, mas nunca tive coragem de sair da cidade. Por mais que reclame do trânsito, da violência e da poluição, no fundo, eu amo viver num lugar que tem supermercados abertos na madrugada, lojas da Kopenhagen, Anima Mundi e a maior livraria do país. É claro que eu gostaria de ter isso tudo e dormir sem ouvir caminhões, andar sozinha sem ser assaltada ou não ter de botar bacias de água pela casa sempre que o tempo esquenta. Mas é a vida.
Eu já tinha me conformado em saber que não se pode ter tudo que se deseja quando as meninas da revista Bons Fluidos me convidaram para escrever um blog por lá. De repente, pintava a chance de eu ter uma casa no campo, sem abrir mão do meu apê laranjinha e urbano. Lá, eu teria sementes à vontade, um campo grande e já adubado e um monte de ferramentinhas maravilhosas para me ajudar na colheita. Topei na hora.
Hoje, seis meses depois que a Voadeira decolou, minha casa no campo ganha sua primeira reforma: o blog agora é atualizado de segunda a sexta-feira, tem promoções exclusivas e vai promover encontros presenciais todo mês. Você, que já é visita querida aqui no Guindaste, está mais que convidado para conhecer meu rancho no campo. E pode trazer os amigos para pernoitar. Espaço tem de sobra.
No tempo da delicadeza*
É como uma suave renda que Carolina Moreyra tece a trama sutil de O Guarda-Chuva do Vovô. Acamado, vovô não come bolo de chocolate, nunca abre a janela do quarto, não quer saber de barulho nem de correria no jardim. E não gosta que mexam em seu guarda-chuva. “Corri para o quarto, mas o vovô não tinha chegado. Perguntei por ele e a vovó sorriu. E seus olhos ficaram pequenininhos.” Se isso não for poesia, não sei o que é.
*Versão sem cortes de resenha publicada na revista Nova Escola.
O arranhãozinho
Não me pergunte como eu consegui, mas arranhei o olho. Por dentro. Acordei com uma bola de tênis vermelha acima da bochecha direita: o que antes era branco estava cheio de veias saltadas, incomodando como se eu tivesse esfregado vidro em pó.
Fui ao médico e, apesar de mal conseguir abrir o olho na luz, não tenho nada. Foi tão frustrante quanto levar o carro ao mecânico e ele não encontrar nenhum problema simplesmente porque sumiu aquele barulhinho irritante que você ouviu a semana toda. Depois de pingar vários colírios e me fazer um monte de perguntas, o oftalmo disse que devo ter feito um “machucadinho”. Já reparou como usam o diminutivo para atenuar a coisa? “O que é isso, doutor?” “É um gangliozinho.” Ou “uma feridinha”, “um cistozinho”, “uma secreçãozinha”. Isso, claro, se não for virose. Ou psicossomático.
Como meu arranhãozinho continuasse irritandinho, ele me deu um castigo: três dias longe do computador. Passadas as 72 horas, cá estou eu. Afinal, se há alguma moral nisso tudo é que médicos, como mecânicos, sempre têm razão.
O banho anual
Primeiro, foram uns miados baixos e insistentes. Em poucos minutos, passaram para longos miados barítonos, tão graves que algum vizinho deve ter pensado que eu estava esquartejando meus gatos. E eu ainda nem tinha chegado ao box.
Assim que ouviu o chuveiro ligado, Grafite fincou dez unhas no batente da porta do banheiro. Parecia coisa de desenho animado: eu puxando de um lado e o bicho grudado na porta. Puxei a pele do cangote para manobrar as unhas afiadas e consegui desvencilhá-lo do batente, mas não rápido o bastante para levá-lo até o box: agora, ele se agarrava à torneira da pia, derrubando tudo o que estava em cima do gabinete. E ainda desceu um tom na escala de miados, para mostrar que não estava de brincadeira.
Dez minutos depois, consegui enfiar a jaguatirica na água. Ensopado, um gato se reduz a duas orelhas, um punhado de bigodes e dois olhos negros ameaçadores. A cantoria continuou enquanto eu o ensaboava. Oto conseguiu abrir a porta do banheiro para conferir se eu estava tentando fazer sushi do irmão dele, o que só piorou as coisas, porque passaram a ser dois miando, um dentro do chuveiro, outro do lado de fora.
Quando puxei a toalha para secar o Grafite, contabilizava cinco arranhões e um furo no cotovelo, que sangrava bastante. E é claro que bastou verem o irmão vivo para os outros dois sumirem de vista. A Lua se escondeu debaixo das cadeiras, na mesa de jantar, e o Oto tentou em vão se enfiar atrás das plantas, o rabo marrom para fora, dando a maior bandeira.
E, então, começou tudo de novo.








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