Trocar o prato
Eu mal tinha acabado de comer a entrada, o garçom já estava com as mãos no meu prato.
– Ei!
– Vou trocar o prato, senhora.
– Mas eu não quero que troque.
– Por quê?
– Eu é que pergunto: por quê tenho de trocar o prato?
Pela cara de surpresa dele, era a primeira vez que alguém lhe fazia aquela pergunta.
– Um minuto que eu vou perguntar ao maitre.
– Mas deixe meu prato aqui!
– Sim, senhora.
...
– O maitre mandou dizer que trocamos o prato para que a senhora possa comer num prato limpo.
– Eu não quero prato limpo.
– Não?!?
– Não. Quer dizer, eu queria, quando comecei a comer. Mas você vai gastar água e detergente para lavar um prato que ainda está em uso.
– Mas a senhora acabou de comer.
– A salada! Está vendo o caldinho? Você já comeu arroz por cima do caldinho da salada?
– Não, senhora.
– Por favor, pare de me chamar de senhora. Pois então, arroz com caldinho fica uma delícia!
– Então, a senhora, quer dizer, você quer que eu sirva a guarnição nesse prato sujo?
– Veja bem, ele não está sujo. Está com caldinho, o que é bem diferente.
– Entendi.
– Não, você não entendeu.
– Não?
– Não. Vamos colocar a coisa assim: quando você vai comer na casa da sua mãe. Sua mãe cozinha bem?
– Muito bem.
– O que ela faz melhor?
– Ah, de tudo... Feijoada. Macarronada. Buchada...
– OK. Digamos que você vai comer uma macarronada na casa da sua mãe. Domingão, família reunida em volta da mesa, aquela macarronada linda. Você troca o prato?
– Que prato?
– O prato que você usou para comer a salada. Quando você passa para a macarronada, troca o prato?
– Como assim?
– Você não come salada?
– Como.
– Depois, não se serve de macarronada?
– Não.
– Como não?!? Você acabou de falar que sua mãe faz macarronada!
– Ela faz. Eu é que não como tudo separadinho, que nem fazem aqui no restaurante.
– Tudo separadinho?
– É. Primeiro, uma torradinha, depois, uma saladica de nada, depois, uma sopinha sem gosto, depois um bife que mal tapa o buraco da cárie...
– ...
– Minha mãe faz comida reforçada.
– “Reforçada”?
– É. Não tem essa coisa de vir tudo pouquinho. Vem um monte de comida. E a gente faz aquele pratão gostoso, com salada, arroz, macarrão, pão...
– Wow. Tudo junto?
– Tudo junto.
– Ahhhh, por isso você não troca o prato...
– Isso. Mais uma garrafa de vinho?
– Por favor. Na MESMA taça.
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Bjs.
Não sei, não, Ana, mas até os quilos andam com essa mania de trocar o prato! Ainda mais no meu caso, que me sirvo a salada separada do prato quente... Falou e disse: quem lava a louça, agradece!
Pois é, menina! Em alguns restaurantes, o prato já vem montado da cozinha, então, eu entendo porque eles trocam. Mas nos lugares onde você mesma se serve... É tão desnecessário, né?
É verídico, sim, Junior. Tem um "passarinho" ou outro, mas o teor da conversa foi esse mesmo. E, claro, ninguém ficou sério, nem mesmo o maitre, que ouvia a conversa de longe...
Perdi até a vontade... E não venham me dizer que repetir é feio... feio é tirar o prato da gente sem pedir licença...
Adorei seu texto, queria estar lá, te apoiando nesse diálogo, nem que fosse para dar boas risadas depois!!!
Beijos
Falou e disse: repetir não tem nada de feio. Talvez "tripetir" não seja lá muito educado, mas...
E como a outra lá disse, duvido que algum garçom tivesse paciência de ouvir algum sermão. Mas, diferente do que disseram, não me parece que vc acrescentou algum talento nisso - só fica evidente essa necessidade de reforçar sua inadequação.
Gosta de refeição feito da mamãe? Então imagino que vc tenha empilhado os pratos e levado pra cozinha logo após terminar.
Angela, não vejo nada de "pobre" em não trocar o prato e a experiência gastronômica foi tão digna que saí de lá com uma ótima história do garçom. Rico é saber defender seu ponto de vista sem ser grosseira.
Desculpe Carol por não comentar o texto, mas depois dessa, só posso dizer que você "deu nos dedos".
Gol! E foi lindo.
he,he,he
Você viu que coisa? Mamãe me ensinou que é muito feio bater boca pela caixa de comentários, mas, às vezes, algumas coisas me tiram do sério...
mas realamente é frescura, já tentou fazer a conta de quanto detergente e água, minha nossa
Nem me fale, Ana!
bom findi!!!!
Ahhhhhhhhhhhh, bão... Mas, mesmo assim, será que não é um pouco de exagero? Digo isso porque, muitas vezes, a gente se serve de uma porção que vem direto na mesa.
Ainda preciso azeitar bem para escrever um livro, Renivaldo... Mas vontade não falta!
E se precisar, levo os pratos pra cozinha também...
tsc...tsc...
Eu também levo pra cozinha sem reclamar, Nine. Até lavo, se precisar.
Hehe, só você mesmo, Nine!
Pois é, Marília, sabe que isso foi o que mais me impressionou? É tão raro que eles sejam autênticos quando estão em serviço, né?
Mas pode esperar, Emilio, porque foi justamente num restaurante self service que essa cena toda se passou. Se você se servir de salada primeiro, como eu faço, é bem capaz de aparecer um garçom para levar seu prato embora quando você se levantar. O curioso é que esses restaurantes, via de regra, servem uma comida simples e caseira. É engraçado vê-los copiando um hábito em tese refinado e aplicando-o numa situação completamente diversa. Um restaurante de alta gastronomia jamais trocaria os pratos pelo simples fato de que eles já vêm montados da cozinha.
Bem lembrado tocar na noção de "pobreza", Renivaldo. Lamentável que ainda associem simplicidade com "coisa de pobre".
Garfield, acho que a postura do garçom só reflete o quanto essa prática de trocar o prato é afetada e desnecessária. Quem me deu uma aula de sinceridade foi ele, hehehe...
Boa semana Carol!
É isso aí, Ana.
Fazia tempo que eu não visitava o seu blog.
Que delícia de texto!
Eu troco de pratos no Quinta da Canta porque vem diversas coisinhas. Não troco de talheres, só quando chega o peixe.
Tem gente que acha estranho.
Na casa de minha mãe nunca se comeu peixe com talheres de peixe.
E o peixe sempre foi uma delícia, principalmente um "corimbatá" que ela fazia assado, tendo o cuidado de tirar um fio dele que dava um gosto de terra.
Nunca vi nas peixaria um Corimbatá.
Muita etiqueta costuma estragar o paladar.
Bjs.
Sergio Lima
Ah, Sergio, mas no Quinta faz todo sentido, até porque os pratos já vêem montados (e são deliciosos, vale lembrar!). Não sabia que peixe de rio tem fio... que curioso! É só com o corimbatá que acontece isso? Adorei sua conclusão: tem razão, muita etiqueta é o ó!








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