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Secretíssimo*

Guardar segredos nunca foi pra mim. Não que eu saia por aí contando a intimidade de quem me segredou algo, não. Sou até bem discreta quando o assunto não me diz respeito. O problema é que, justamente por isso, sou a fiel depositária de dezenas de segredos: de amigos, familiares, colegas de trabalho, até de leitores.

É um trabalho árduo não deixar que nenhum deles escape. Às vezes, ouço coisas que só quem me contou acha que ainda são segredos. Tem segredo que conheço duas versões e segredo que se junta com o de outra pessoa e, aí, sim, fica totalmente impublicável. E tem segredinho de nada, daqueles bons, que fazem cócegas e dá uma vontade louca de sair contando.

Este é um deles: a Voadeira vai mudar! Pronto, falei. Que alívio! Mas não posso contar mais nada até o dia 3 (ops, agora, dia 10!). É segredo. De Estado.

Categoria: Blogosfera, Voadeira

Mamão com açúcar

Os dias passam e ninguém acerta a resposta da pergunta-bônus do Post Laranja 3. Isso magoa, sabia? A pessoa se dedica, faz um jogo cheio de charadinhas e... não pinta uma criatura para ganhar o kit das Malditas!

Enquanto enxugo as lágrimas, vou dar cinco dicas mamão com açúcar. Afinal, as Malditas não têm culpa, tadinhas, estão se sentindo tão rejeitadas... Vamos lá:

1) O Post Laranja 3 está aqui, mas, para acertar a resposta, é preciso percorrer um caminho que passa por 18 textos. Ao final de cada um, há uma pergunta que remete ao próximo, como se fossem casas de um jogo de tabuleiro.

2) As perguntas têm palavras-chaves para descobrir a resposta que leva ao próximo texto. O Google é uma mão na roda quando você não conseguir encontrar o texto sozinho...

3) Todos os cinco kits Guindaste já foram ganhos, mas há um kit das Malditas (com ilustração, camiseta e calcinha) para quem acertar a pergunta-bônus: Qual é a relação entre os 18 textos da terceira edição do Post Laranja?

4) A resposta à pergunta não tem a ver com o conteúdo dos textos. Nem com as datas em que eles foram publicados. Nem com as categorias em que eles estão. O que importa é a ordem em que eles aparecem na promoção.

5) Quer acertar a resposta? Então, pense no que as três edições do Post Laranja podem ter em comum. Na primeira e na segunda versões, a fórmula estava às claras. Desta vez, está escondida. O que será que é?

Chute sua resposta quantas vezes quiser. Na caixa de comentários do Post Laranja 3, há bons palpites e outras dicas. Vale à pena fuçar lá. E, POR FAVOR, alguém acerte logo! Não aguento mais esse suspense!!!

O enigma continua

Depois de tanto ouvir que a promoção do Post Laranja estava muito fácil, desta vez, parece que exagerei no desafio. É que o Post Laranja 3 tem uma pergunta no final, que dá direito a um prêmio especial, além dos já citados aqui: uma ilustração exclusiva das Malditas. E, até agora, ninguém acertou a resposta — nem mesmo Andréia, Rodrigo, Junior, Sophy e Silvia, os cinco leitores que encontraram primeiro o post!

Então, aumento o valor do bônus: quem acertar a resposta da pergunta secreta (vai ter primeiro que achar o Post Laranja 3...) ganha um kit das Malditas, com uma ilustração inédita, uma calcinha e uma camiseta. Para quem já achou o post, é só botar a cachola para pensar. E para quem pegou o bonde andando, é a chance de sentar na janelinha, fazer tchauzinho e ainda ganhar um kit diferente dos outros.

E depois dizem que eu sou malvada, hunf...

O Post Laranja - edição 500!

Com alegrias e tristezas, surtos criativos e estiagem de idéias, links errados, crases esquecidas e travessões a mais, aos trancos e barrancos, eis que o Guindaste chega ao post de número 500 (qüingentésimo é o ó, né não?). Para um blog, significa completar seu primeiro ano de vida adulta ou algo assim. Se depender de mim, é só o começo.

A culpa é toda sua, é claro. Eu só estava de passagem, mas você entrou, fuçou, deixou recadinho... e eu fui ficando. Então, nada mais justo do que ser o convidado de honra da comemoração! Prepare seu mouse: está aberta mais uma temporada de caça ao Post Laranja!

Esta terceira edição da promoção tem muitas novidades. Para começar, as dicas estão espalhadas em vários posts, começando por este aqui. É como se fosse um jogo, onde cada pergunta remete a outro post, num trajeto que termina no Post Laranja 3 — que, adianto aos desavisados, não é laranja (o nome é uma alusão à cor do blog). Os cinco leitores que primeiro deixarem recado no Post Laranja 3 ganharão um kit com:

- 1 livrinho do Guindaste com 5 posts escritos à mão. Feito em papel reutilizado, pintado e com capa de tecido, é uma novidade exclusiva e suuuuper artesanal. E, o melhor: você escolhe os textos e a cor da capa!
- 1 frescurinha (perfume, maquiagem ou hidratante)
- 2 lançamentos de livros infantis
- 1 lançamento de livro de bicho (gato ou cachorro, vários títulos)
- 1 camiseta das Malditas

Aqui vai a primeira dica:
O post que trata da aposentadoria das árvores foi meu décimo sétimo publicado no Ecoblogs. A segunda dica está nele, mas não na versão de lá.

Boa sorte!

Hora do recreio

Sabe esses vídeos bonitinhos de filhotes fofinhos, de bebês dormindo entre girassóis, de paisagens exuberantes? Eu detesto. Morro de tédio. Eu sei, é deselegante. Dá pêlos na mão. Devo ter o coração amargo, deve ser isso.

Mais chato que esses videozinhos edificantes, só os descaradamente não edificantes. Se tiver gente rebolando, cachorro de roupa, torta na cara ou qualquer outra pagação de mico, tô fora. Cada um no seu quadrado.

Masssss... no meio de tanta pieguice e baixaria, há vídeos incríveis. Deixo quatro dos meus preferidos por aqui:

Oktapodi - alunos da Gobelins

Coitados desses enamorados... Repare no barulhinho do polvo no limpa-brisa: é tudibão! E o que dizer da cena da tinta? Amo! Se tiver tempo e saco, fuce bem o site da Gobelins. Lá tem um monte de animações de tirar o fôlego.

Au Bout Du Monde - Konstantin Bronzit

Adoro situações non sense – mas esta é tão surreal que só pode ser resultado de viagem de ácido. E a vaca quadrada com as tetas arrastando no chão? E o gato!!! Não dá para entender nada do que eles falam, mas é engraçadíssimo! Ge-ni-al.

Father and Daughter – Michael Dudok de Wit

Sutil e minimalista como uma ilustração do Odilon Moraes, é praticamente só sépia, música e emoção. Observe as lindas sombras que ele faz no chão. Ainda não parou de chorar? Assista The Monk and the Fish, do mesmo autor.

A quoi ça sert l'amour? – Luis Clichy

Qualquer coisa ao som de Edith Piaf fica linda, mas essa animação conseguiu ir bem além da mera figuração para a música francesa. Quem nunca se descabelou por um amor não sabe o que está perdendo!

Categoria: Blogosfera, Crianças

Mostrando os dentes

"Levanta mais o cotovelo. Não, agora foi muito, desce um pouquinho. Isso, fica assim. Agora, quero ver bocão. Dentes, dentes, cadê seus dentes? Isso, beeem melhor. Tá ótimo! Traz o quadril um pouquinho mais pra frente. Faz alguma coisa com as mãos. Sei lá, coloca na cintura, vamos ver. Boa, tá bem feminino. Mas saiu da luz, traz o tronco para frente. Dentes, dentes, quero ver dentes!"

Uma semana depois, eles estão lá: dentes, cotovelos e demais articulações, ilustrando uma matéria sobre lenços para a revista Viva Mais!. Divertida essa vida de passar um clima leve e fresco quando você está derretendo debaixo de montes de luzes, tomando cuidado para não borrar o "make", nem desarrumar o cabelo meticulosamente despenteado.

Um estúdio fotográfico é um lugar curioso. Há cortinas pretas tapando todas as janelas, montes de tripés e paredes branquíssimas que se curvam quando chegam ao chão. Várias pessoas chamam sua atenção enquanto você tenta concatenar cinco orientações diferentes, não raro, discordantes. No fundo da sala, alguém pede para você subir o queixo ao mesmo tempo em que uma voz à sua direita grita "mas é a terceira vez que falo para reforçar o blush, cadê o maquiador?". Então, você tenta subir o queixo e se esforça para não rir enquanto alguém passa um pincel cheio de pó nas suas bochechas. "Saiu da luz! Volta um pouquinho... Passou, vem um pouco para a frente. Isso, cadê os dentes? Quero sorrisão. Bom. Bom." Uma mão surge no seu pescoço arrumando o lenço, "tá um franzido estranho aqui, licença". Uma produtora aparece com as opções de lenços para a próxima foto e me pede para escolher entre oito tipos de vermelho praticamente idênticos, até se convencer de que o "magenta com poás" é o ideal. "Ei, onde você vai? Não acabamos!" "Preciso tomar água, rapidinho!" Um copinho descartável aparece do nada, com água fresca, um bálsamo naquele calorão. "Vamos fazer uma com o copo, vai ficar cool! Mas sorria, cadê os dentes?"

O cara só pode ser filho de dentista...

Categoria: Egotrip

Trocar o prato

Eu mal tinha acabado de comer a entrada, o garçom já estava com as mãos no meu prato.

– Ei!
– Vou trocar o prato, senhora.
– Mas eu não quero que troque.
– Por quê?
– Eu é que pergunto: por quê tenho de trocar o prato?

Pela cara de surpresa dele, era a primeira vez que alguém lhe fazia aquela pergunta.

– Um minuto que eu vou perguntar ao maitre.
– Mas deixe meu prato aqui!
– Sim, senhora.
...
– O maitre mandou dizer que trocamos o prato para que a senhora possa comer num prato limpo.
– Eu não quero prato limpo.
– Não?!?
– Não. Quer dizer, eu queria, quando comecei a comer. Mas você vai gastar água e detergente para lavar um prato que ainda está em uso.
– Mas a senhora acabou de comer.
– A salada! Está vendo o caldinho? Você já comeu arroz por cima do caldinho da salada?
– Não, senhora.
– Por favor, pare de me chamar de senhora. Pois então, arroz com caldinho fica uma delícia!
– Então, a senhora, quer dizer, você quer que eu sirva a guarnição nesse prato sujo?
– Veja bem, ele não está sujo. Está com caldinho, o que é bem diferente.
– Entendi.
– Não, você não entendeu.
– Não?
– Não. Vamos colocar a coisa assim: quando você vai comer na casa da sua mãe. Sua mãe cozinha bem?
– Muito bem.
– O que ela faz melhor?
– Ah, de tudo... Feijoada. Macarronada. Buchada...
– OK. Digamos que você vai comer uma macarronada na casa da sua mãe. Domingão, família reunida em volta da mesa, aquela macarronada linda. Você troca o prato?
– Que prato?
– O prato que você usou para comer a salada. Quando você passa para a macarronada, troca o prato?
– Como assim?
– Você não come salada?
– Como.
– Depois, não se serve de macarronada?
– Não.
– Como não?!? Você acabou de falar que sua mãe faz macarronada!
– Ela faz. Eu é que não como tudo separadinho, que nem fazem aqui no restaurante.
– Tudo separadinho?
– É. Primeiro, uma torradinha, depois, uma saladica de nada, depois, uma sopinha sem gosto, depois um bife que mal tapa o buraco da cárie...
– ...
– Minha mãe faz comida reforçada.
– “Reforçada”?
– É. Não tem essa coisa de vir tudo pouquinho. Vem um monte de comida. E a gente faz aquele pratão gostoso, com salada, arroz, macarrão, pão...
– Wow. Tudo junto?
– Tudo junto.
– Ahhhh, por isso você não troca o prato...
– Isso. Mais uma garrafa de vinho?
– Por favor. Na MESMA taça.

Apague seu rastro ambiental*

Foi uma mãe de Connecticut, Marion Donovan, quem criou o que hoje representa o terceiro item mais comum nos aterros sanitários norte-americanos. Cansada de limpar as roupas sujas de seus bebês, ela costurou em algodão um bom pedaço do plástico da cortina do banheiro. Nascia o protótipo da fralda descartável.

Prática e barata, ela se popularizou rapidamente, a despeito de seu nefasto impacto ambiental — 68 anos depois, ainda é possível encontrar a fralda original de Marion em algum aterro de Connecticut. Ela está lá e ainda estará pelos próximos 432 anos, depois de ter consumido petróleo e madeira e ter gerado dezenas de substâncias tóxicas em sua produção.

É partindo de objetos prosaicos como fraldas descartáveis que John e Teresa Kerry escreveram
Antes que a Terra Acabe. No livro, eles abordam os principais problemas ambientais e o que é possível fazer para frear a devastação em curso. Um alerta para que todos nós pensemos sobre a pegada ambiental que estamos deixando no planeta.

*Versão sem cortes de resenha para a revista Nova Escola.

Quebrando o clima

— Moço, preciso de um adubo dos bons.
— Para quê?
— É que tenho uma pitangueira em casa, mas ela não dá fruta.
— Quanto tempo ela tem?
— Ah, um bocado. Só comigo, está há seis anos.
— E dá flor?
— Então, isso que é estranho... Dá flor, mas ela seca e cai. Já viu pitangueira que não dá pitanga?
— Você mora em casa ou apartamento?
— Em apartamento. Ela fica na sala, num vaso bem grande.
— Num vaso?!? Na sala??? Na varanda, né?
— Não, na sala mesmo. Mas fica do ladinho da janela!
— E a janela fica aberta?
— Não, passa a maior parte do tempo fe...
— Fechada. Sabia. Esse é o problema.
— Minha pitangueira não dá fruta porque a janela fica fechada?
— É.
— E se a janela ficasse aberta...
— Escancarada.
— Se a janela ficasse escancarada, eu teria pitangas?
— O bastante para fazer geléia.
— Não sei se peguei direito a coisa...
— Relaxa. Nem tudo está perdido. Sua pitangueira é grande?
— Bate no teto, deve ter uns três metros...
— E dá muitas flores?
— Não sei...
— Você conseguiria contar todas?
— Acho que sim.
— Não são muitas. Compre um pincel macio.
— Um pincel?!?
— Isso. Quando as flores estiverem abertas, passe o pincel nelas. Como se fosse pintá-las. Com cuidado.
— Como se eu fosse pintá-las.
— Exatamente. Passe em quantas conseguir encontrar. Você terá pitangas na próxima florada.
— Mesmo?
— Ah, sem dúvida.
— Só para o caso de o lance da janela e do pincel não ter ficado claro, você poderia me explicar por que tenho de pintar as flores?
— Manja aquele baratinho preto e amarelo chamado abelha?
— Lógico. Eu sei o que é uma abelha.
— E sabe pra quê ela serve além de picar e fazer mel? Ela carrega pólen. Pólen faz flor virar fruta. É tipo um espermatozóide em pó. Como a janela fica fechada, não venta, que é o outro jeito de pintar um clima pra planta. “Um clima”, se é que você me entende...
— Sim.
— Então, como você não deixa a coitada seguir o curso normal da natureza, tem que ir lá e dar uma mãozinha.
— Você está me dizendo que eu tenho de estuprar a flor???
— Meio que por aí.
— Santodeus!
— Tem razão, soa meio forte, né? Vamos tentar outra coisa... Já sei! Pense que você está dando uma força para ela tipo esses sites que juntam casais...
— Namoro.com?
— Isso! Você dá pra flor justinho o que ela queria. Se ela pudesse, diria obrigado.
— Hmmm... Quanto lhe devo pela aula de botânica?
— Nada não. Quando você voltar aqui, me traz um pote de geléia de pitanga que tá tudo certo. Firmeza?

PS: Hoje tem uma Voadeira bem criançuda. Quer brincar?

Comentadores do ocaso

Foi na saída de uma reunião que o vi, amarelo e brilhante como ouro líquido. Por entre os indefectíveis biombos beges, a luz era um convite à contemplação. Achei uma sala com uma janela enorme e fiquei ali imóvel, observando.

Fazia tanto tempo que eu não parava para ver um pôr-do-sol que já tinha me esquecido dos narradores. Basta o dia estar claro e você conseguir uma vista privilegiada do horizonte — uma praça ou a janela de um prédio mais alto — para que apareça algum Galvão Bueno do ocaso. É sempre a criatura que diz coisas como "olha que luz!" ou "reparou no laranja que está no fundo?". A coisa só acaba depois que o sol sumiu ou que alguém comenta "puxa, e a gente aqui, trabalhando...".

Ouvi dizer que, em Copacabana, os comentadores do ocaso terminam a narração com aplausos. Não duvido. Já vi gente bater palmas até em pouso de avião. Já no teatro, falam alto ao celular. Vá entender.

PS: Hoje estréia Experiência nova lá no blog da Bons Fluidos. Espero que eu não queime meu filme...

Ratinhofobia e outros medos

“Péssimo, rabiscado, roído por ratos.” Quem em sã consciência compraria um livro assim? Bom, a menos que você não tenha “isolofobia”, o medo da solidão, vai adorar Grande Livro dos Medos. De pavores reais a medos inventados — você já foi atingido por “ondestoufobia” ou “hipopotomonstroesquipedaliofobia”? —, o ratinho medroso faz sua relação.

Êpa, rato? Socorro!

Categoria: Livros, Crianças

Num passe de mágica*

Anton tem um grande turbante e sai por aí querendo fazer coisas desaparecerem. Primeiro, tenta com uma árvore, mas ela é grande demais. Depois, arrisca o truque com Lucas e, uau!, o amigo desaparece! Ou teria sido transformado em um pequeno passarinho? Anton sabe fazer mágica e tirar boas risadas dos leitores.

Nascido em Göttingen, na Alemanha, Ole Könnecke mostra como um bom livro infantil não precisa de uma história mirabolante nem de ilustrações sofisticadas para agradar aos leitores mirins. Na dúvida sobre o que comprar de presente no Dia das Crianças? Anote aí: Anton Sabe Fazer Mágica — e faça milagre com seu dinheiro.

*Versão sem cortes de resenha publicada na edição de outubro da revista Nova Escola.

Categoria: Livros, Crianças

O balé

Segunda-feira cedo, carros por todos os lados, a orquestra de buzinas ensaia seus acordes e meu mau-humor dá o primeiro sinal de vida enquanto levo uma fechada pela segunda vez. O semáforo fica verde e a fila ainda anda mais alguns milímetros antes de parar, os motores quentes sob uma chuva fina que não pára.

Olho pelo vidro embaçado da raiva contida e vejo duas palmeiras dançando ao vento. Mas lá fora não venta. Olho para a garoa que cai num ângulo de 90 graus tão perfeito que não resta dúvida. Nada de vento. Volto às palmeiras, mas elas não estão mais lá: agora, tremelicam suas folhas rasgadas uns vinte metros à minha frente. O semáforo fica vermelho.

Então, elas passam por mim. Com as raízes presas num saco de estopa e os troncos bem amarrados à caçamba de uma picape, as palmeiras parecem moleques brincando na chuva, balançando os braços e espirrando água em redor. O semáforo abre.

Acompanho-as com os olhos o mais que posso, até vê-las sumirem num cruzamento, num gracioso pas de deux.

Saúde na ponta dos dedos*

De ansiedade a cólica ou dor de cabeça, o alívio para uma porção de problemas de saúde pode estar nas suas mãos. Desde 1.300 a.C. que a China conhece o poder terapêutico da auto-massagem. Conhecida como do-in, que significa “primeiros socorros” em chinês, essa técnica funciona apertando alguns pontos específicos do corpo, que ajudam a baixar a febre, controlar a tensão ou amenizar os efeitos de uma ressaca daquelas. Aqui vão soluções para alguns dos problemas mais recorrentes:

Diminuir os sintomas da TPM
Primeiro, aperte o ponto das mãos (vide quadro acima). Depois, apalpe a região interior abaixo do ossinho do tornozelo e vá traçando um caminho até a planta do pé, na altura da almofadinha do dedão. Repita algumas vezes esse trajeto, apertando ponto a ponto. Por fim, meça três dedos de altura acima do ossinho do tornozelo: vai dar na canela, bem em cima do osso da perna. Aperte essa região. Refaça o procedimento todo no outro pé.

Manter a ansiedade sob controle
Com o indicador, o dedo médio e o polegar, massageie delicadamente a região da testa que fica entre os olhos e o começo do nariz. Faça movimentos circulares com os três dedos, como se quisesse fazer um gatinho dormir. Outro bom ponto para tocar se estiver ansiosa é a campainha da orelha: com o indicador e o polegar em pinça, aperte essa região em movimentos curtos e rápidos. Depois, repita o movimento na outra orelha.

Acabar de vez com a ressaca
Se você sentir necessidade de vomitar, mas não conseguir, aperte o ponto da mão descrito no tópico da febre. É normal que ele esteja bem dolorido e que a reação do corpo seja rápida: em pouco tempo, você conseguirá colocar para fora o que está incomodando o estômago. Para dar uma acalmada na dor de cabeça que surge depois de umas cervejinhas a mais, aperte o canto interior da unha do dedão do pé. Faça também no outro pé. Mantenha-se bem hidratada o dia todo.

*trechos de reportagem publicada esta semana na revista AnaMaria.

Categoria: Reportagens

Culposo

Ainda bem que tinha uma cadeira por perto. Eu precisava sentar. Minhas pernas tremiam. “Nossa, Carol... que cara!” Então, desisti de tentar encobrir meu crime sem testemunhas.

— Matei um passarinho. Atropelado. Uma rolinha.

O que se seguiu a minha confissão me deixou ainda mais desorientada. É claro que não imaginava que as pessoas fossem encobrir o rosto e apontar para mim, entre soluços e desaforos. Mas esperava alguma reação emotiva. Qualquer uma.

— Ah, não fica triste. Acontece. Passarinhos são bichos meio bobinhos...
— Não a-cre-di-to que você está mal por causa disso! É só uma pomba idiota!
— Você não viu nada. Semana passada, atropelei um cachorro na estrada. Quando vi que ele ia atravessar, já não dava mais tempo. Tentei desviar, mas não deu, coitado. Precisa ver como ele ficou...

Tentei ficar com raiva das pessoas, mas não pude. Eu só conseguia me lembrar da explosão. Do vazio de dirigir quando a cidade mal acordou e, depois, da explosão silenciosa de penas. Minúsculas penas cinzentas caindo como flocos de fuligem pelo vidro da frente. Bem devagar. Como num filme em câmera lenta. A explosão silenciosa e as peninhas cinzentas. Tão pequenas...

Coisa de jeca

Antes mesmo de começar a postar, já tinha tomado uma decisão: o Guindaste seria o mais caipira possível. Sem muitos recursos tecnológicos, gadgets e outras maravilhas internéticas. Quanto mais próxima eu me sentir de você, quanto mais à vontade você se sentir aqui, melhor. Esté é um blog jeca!

Aqui, se serve cafezinho virtual, mas o dedo de prosa é real. É por isso que faço questão de responder cada comentário deixado aqui. Para mim, eles são tão importantes quanto escrever os textos. Se suas sugestões, críticas e pensamentos ficassem sem resposta, isso aqui seria um monólogo muito sem graça.

O problema é que ser jeca na era digital tem seu preço. Para cada comentário replicado, mando um e-mail com o link da resposta. E, como não quero que um programa faça isso por mim, copio e colo cada nome, e-mail e link – daí às vezes chamar você por outro nome, mandar para o link errado ou até mudar seu sexo.

Estou atrasada com nossa conversa nas caixas de comentários, mas não é por querer. Por isso, não estranhe se, nos próximos dias, receber um monte de e-mails com links para comentários antigos, dos quais você já nem se lembrava. É que conversa boa pode até ter umas pausas, mas nunca tem ponto final!

Categoria: Blogosfera, Egotrip

Conectados*

“Tenho 15 anos, deveria estar na escola, ou perdendo a virgindade, enchendo a cara, andando de skate, ou sejá lá o que fazem os garotos da minha idade”, lamenta-se Johnny Online. Mas o jovem e sua amiga Kestrella não podem fazer nada disso porque foram atacados pelo vírus Sinistro, que incorpora aparatos tecnológicos aos corpos das pessoas. A garota tem um celular fundido a sua mão direita e Johnny, bem, ele não tem rosto – onde deveriam estar olhos, boca e nariz, o adolescente tem uma tela de cristal líquido, onde seus pensamentos de pixels aparecem em forma de letras, sons e imagens.

Perseguidos pela Polícia Genética, os híbridos lutam para serem reconhecidos e respeitados num mundo pós-ciberespaço. Narrada por um vaivém de vozes, Híbridos tem todos os ingredientes de um best-seller: perseguições, suspense, fantasia, seres surreais, linguagem rápida.

Com tanto apelo à juventude, é bem provável que acabe indo parar em um download ilegal pela internet.

*Versão sem cortes de resenha publicada neste mês pela revista Nova Escola.

Categoria: Livros, Crianças

 

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