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Como num cartão-postal

Quem passa por ali logo cedo, não acredita que se trata da mesma praça dos casaizinhos apaixonados, das rodinhas ao redor do violão, dos fãs do pôr-do-sol. A paisagem matutina era tão diferente da que conheço ao final da tarde que pensei ter entrado na rua errada.

Na calçada, quarenta, cinqüenta rolinhas disputavam com três pombas perdidas as últimas migalhas de quirela de milho. Feliz da vida, um labrador segura sua própria guia na boca, o rabo oscilando de um lado para o outro como um pêndulo animado. Ao lado, o dono, trotando no ritmo dos atletas da terceira idade, com seu calção azul e o agasalho fechado até o pescoço. Mal avista os pássaros, o labrador desiste de se auto-conduzir e sai em desabalada carreira. As rolinhas voam todas para os fios elétricos.

Estou terrivelmente atrasada para o trabalho, mas não consigo recusar o convite de uma pausa. Desço do carro e quase sou atropelada por um grupo de crianças em uniforme escolar vermelho, correndo como uma manada em época de estiagem. Atrás, vem a esbaforida professora, praguejando enquanto sobe a ladeira, “Devagar, crianças! Devagar! Esperem a tia!”.

Uma senhora vestida de branco passa empurrando um carrinho e arrastando um beague cansado, as orelhas do cão envoltas numa toalha para não arrastarem no chão. A toalha está no avesso, aperto os olhos para ler “ossergorp e medro”. Nunca pensei nessa utilidade para a bandeira pátria. Os cachorros somem de vista, as crianças entram no ônibus – “Calma, meninos, calma! A tia vai contar vocês para ver se não esquecemos ninguém”. A praça fica imersa em silêncio. O sol brilha sobre os prédios, se reflete em carros e vidraças, o ar tem cheiro de grama cortada. É como um cartão-postal com cheiro, mas sem som nenhum.

Então, as maritacas resolvem descer das árvores...



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Comentário de: Emilio Email · http://estou-sem.blogspot.com
É uma pena que esses cartões postais fiquem só na nossa mente, porque as palavras, por melhores que sejam, não conseguem refletir tudo.

Tem razão, Emilio! Eu lamentei muito que não tivesse uma câmera por perto... Daria um filminho muito simpático, né?
PermalinkPermalink 25.09.08 @ 17:13


Comentário de: Nine das meninas Email
ah Carol queria ter visto!Adoro ver crianças em desabalada carreira,sobretudo com adultos atras.Elas parecem maritacas ou sera as maritacas que parecem com crianças na hora do recreio?esse texto foi uma polaroid urbana.parabens!bjs

Parecem maritacas, mesmo, Nine! Ao menos, o barulho é igual, hehehehe...
PermalinkPermalink 25.09.08 @ 17:44


Comentário de: renivaldo Email · http://condutordeletras.blogspot.com/
olha, quase me vi dentro da paisagem, olhando os pássaros e as crianças... Parabens Carol, bjs

Obrigada, Renivaldo!
PermalinkPermalink 25.09.08 @ 18:38


Comentário de: Ana Rosa Email · http://vdcotidiana.blogspot.com/
Legal você se permitir mesmo atrasada, um momento tão mágico.
Eu ia aproveitar e ficar sentada no banco da praça, hahahah

Deu vontade de fazer isso, Ana, mas o relógio não deixou: se eu sento, não saio mais dali.
PermalinkPermalink 25.09.08 @ 19:21


Comentário de: Garfield Email
Sempre as maritacas para acabarem com o silêncio. rsrsrsr Adorei o texto. Tudibom.

Hehe, elas são terríveis, Garfield!
PermalinkPermalink 26.09.08 @ 08:37


Comentário de: Andréia Email · http://www.licorcomrebu.blogspot.com
Ai que lindo. Eu tb tive um momento estético desses ontem e tô aqui pensando se blogo ou não blogo (tão sem tempo). Você me fez decidir: BLOGAREI!
Bj

Ahhhh, Andréia, faltou deixar o link do tal momento estético, né? Atiçar a curiosidade de jornalista devia dar cadeia...
PermalinkPermalink 26.09.08 @ 10:02


Comentário de: Aline T.H. Email · http://casadocacete.blogspot.com
Que lindo, Carol. Eu escrevi mais ou menos sobre a mesma coisa aqui no Rio essa semana - a Lagoa, que a gente esquece de olhar no meio dos engarrafamentos e do dia a dia...

Beijos.

Manda o link! Manda o link!
PermalinkPermalink 26.09.08 @ 16:58


Comentário de: Bia Email
Cheiro de grama cortada é algo que marca mesmo...

Não é? Deviam envasar!
PermalinkPermalink 29.09.08 @ 09:22


Comentário de: Tita
Depois dessa, vai para o trabalho até mais leve, não?
Como é bom reparar e se dar ao luxo (em SP sim) de parar uns instantes para perceber a vida fora de toda agitação das nossas cabeças.
A vida no verde, nos animais, na rotina das pessoas...e numa praça!
Ai ai...energizante!
Delícia seu texto, Carol!
Passeei junto contigo nessa.
Beijo

Ulha, que legal, Tita! É sempre bom ter companhia!
PermalinkPermalink 29.09.08 @ 14:50


Comentário de: Ricardo Email
Muito legal esse texto . Minha mente decolou porque gosto muito de tudo o q vc descreveu . As pessoas vivendo em paz, o cachorro correndo atrás dos pássaros , a turma de estudantes e seu alarido , e ainda tem as maritacas,além de seu estilo de escrever que nos faz parecer estar vendo "in loco" a cena . Parabéns.

Obrigada, Ricardo! Mas senti tanta falta da minha máquina fotográfica... Onde vou arranjar de novo um beagle com as orelhas presas por uma bandeira do Brasil?!? Pena...
PermalinkPermalink 30.09.08 @ 11:46


Comentário de: Aline T.H. Email · http://casadocacete.blogspot.com
Querida, taí o link:

http://casadocacete.blogspot.com/2008/09/pessoas-num-engarrafamento.html

Beijos!!!

Que lindo! Amei!
PermalinkPermalink 05.10.08 @ 21:41


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