Sem lembranças
Está na programação genética das meninas: adolescentes fazem agendas. Mais que um mero relato dos dias, esses diários guardam toda sorte de penduricalhos que se puder imaginar. Fotos recortadas. Bilhetinhos de amigas. Frases de celebridades. Cartas, recortes de jornal, flores secas, quadrinhos, papéis de bala, desenhos, pensamentos soltos. Adesivos e clipes coloridos de vários tamanhos. E toda sorte de coisas que “O” carinha da vez tocar: o palito do picolé que ele tomou, a raspinha do lápis que ele usa, uma folha de papel com o nome dele escrito novecentas e vinte e três vezes. Com o tempo, as páginas têm tantas coisas pregadas nelas que já não se fecham mais – até que ficam tão arreganhadas que é preciso envolvê-las com um elástico.
E é aqui que eu faço minha confidência: eu nunca consegui fazer isso. É claro que tive agendas, mas não sem muito, muito sofrimento. A coisa começava no Natal do ano anterior, quando eu ganhava uma, duas, às vezes, até três agendas de presente. Lembro de uma que tinha a capa de tecido com delicadas florzinhas vermelhas e de outra que vinha com aroma de morango. Eram tão lindas, mas TÃO lindas... que eu não conseguia usá-las. Nem abria as folhas, com medo de o cheirinho evaporar mais rápido.
Como boa adolescente, eu guardava toda a tralha de lembrancinhas e bilhetinhos. Era tanta coisa que ocupava três caixas grandes. Tudo devidamente organizado por cor e tamanho, catalogado por mês e separado por ano. Ficava tão melhor assim do que naquela explosão de páginas desbeiçadas...
Minha coleção de agendas em branco ia muito bem até que minha mãe a descobriu. “Que lembranças da sua adolescência você vai guardar desse jeito?”, me disse com aquele tom de voz dramático do tipo “onde foi que eu errei?”. Respirei fundo e comecei a colar, papelzinho por papelzinho, cada uma das recordações. Em uma semana, já tinha botado em dia uns três anos da minha vida.
Quinze anos depois, fazer agendas é raridade – ainda mais num mundo onde computadores de mão são vendidos a preço de banana e papel, a peso de ouro. Olho para minha volumosa coleção, as lombadas quase arrebentando, e sonho que cada lembrança daquelas ainda está tão viva em minha mente quanto na caligrafia. Só assim para conseguir mandá-las para a reciclagem. Como qualquer papel.
PS: Hoje tem criação na Voadeira. Já deixou sua imaginação voar por lá?
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Opa, gostei dessa coisa de docinho, Renivaldo! Nhammmmmm...
Legal lembrar.
Eu também, Ana! E papel de bala, figurinha, cartinha...
(Agora dá licença que um amigo quer me mostrar a coleção de embalagens de cigarro dele.)
Hahahahaha, você não imagina do que nós somos capazes! Tive uma amiga que colecionava absorventes (não usados, claro)!
Bjo.
Minha mãe diz que eu passava horas organizando os copos por ordem de tamanho, os brinquedos por cor e o Lego por número de pelotes de cada pecinha... Sou um caso perdido, né?
Ulha, que legal, Nine! E quanto custa o ingresso?
Enooooormes!
Mas já foram para o lixo, sem dó nem piedade!
Nãooooo! Assim, sem sair nem uma lagriminha, Má?
Tive minhas agendas tb... Como forma de anotação desde q o colégio começou a instituir a coisa, mas como obra de arte dos 12 aos 22 no final da faculdade... Elas eram gigantescas e depois precisavam daqueles elásticos grossos para poder fechá-las. Eram sempre de marca de roupa e caríssimas, menos uma q eu resolvi montar com tecido branco de bolinha vermelha... Ficou linda e foi a última.
Depois precisei mudar e tive q me livrar delas, mas antes peguei as coisinhas q mais marcaram e guardei na caixinha de recordação com todas as cartas trocadas durante toda a minha vida, as pedras da vesícula q tirei, palidinho do primeiro drink q tomei em toda a vida e coisas assim... Tb guardei os clips enormes e fofos q até hj uso os q sobraram.
Hj ainda tenho a agenda de papel, pois parei de confiar nas tecnologicamente avançadas, qdo uma deu pau e perdi tudo!!! Não são necessariamente de marca, mas precisam ter um dia por página. Não me interessa agendas q tenham três linhas para o domingo, já q este dia da semana existe para jornalistas. A única coisa q vai pra dentro delas, mas depois pra minha caixinha são os ingressos: exposições, cinema, teatro...
Que coisa, Danielle, minha última também foi branca de estampas vermelhas pequenininhas. Será que é a maldição da agenda branca que faz a gente parar?
Bjs.
De uma coisa tenho certeza, Ana: minha letra piorou muito!
Até hoje tenho o hábito de escrever o que sinto ou como foi meu dia.
Não mais em agendas floridas, não mais colando as figurinhas que vinham na revista Carícia, mas com todos sonhos e desabafos que qualquer menina-mulher tem.
Lindo demais seu texto.
Você emociona, nos leva de volta no tempo.
Adorei.
Beijos
Que delícia, Tita! Deve ser muito gostoso continuar a fazer um diário! Eu não consigo, até porque, hoje, boto tudo no computador...
Tomara que sim, Ricardo!
Olha Carol, sinceridade, adoro agenda para escrever, mas nem compro porque não escrevo porcaria nenhuma das agendas de papel.
Vou para uma reunião e saio com o papel em branco. Tá tudo na cabeça. E depois, os gadgets eletrônicos são os meus preferidos.
:-)
Hmmm, não sei, Nelson. Para mim, o Guinda não se parece nem um pouco com minhas agendas secretíssimas. Mas faço como você: evito o papel e boto tudo no palm top!
Tive umas três só eu acho... a última foi com 17 anos. Até comecei uma com 18, mas sei lá, perdeu a graça. Uma pena, pq me fazia tão bem, passava horas escrevendo, colando figurinhas, juntando papéis de bala e tudo mais que fizesse lembrar daqueles dias. Hoje revejo tudo com muito carinho, tenho vivo na memória o que aconteceu, como me sentia, o que eu pensava... Tá, só faz dois anos que parei de fazer agenda também, vai! Mas sei que quando eu tiver uns setenta anos e achar aquelas agendas, vou me sentir da mesma forma. :]
Adorei teu post, Carol!
Até que você resistiu bem, Bia. Parei com as agendas bem antes, com 15 anos...









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