O cardal
Não preciso nem de um minuto no banheiro para sair às turras com o cardal. Cardal é um troço feito para tirar as pessoas do sério nas primeiras horas do dia — porque para tirá-las do sério nas outras há coisas mais eficientes, como congestionamentos, operadores de telemarketing e portas-giratórias de bancos. Trata-se de um aparelhinho maligno que aquece a água do chuveiro. Não é mais econômico, nem mais prático, tampouco mais eficiente do que uma ducha normal, mas está à mão, grudado na parede do meu banheiro desde que moro aqui.
“É o melhor sistema de aquecimento para banheiras”, me recomendou a antiga proprietária no dia em que fui ver o apartamento. Ela sabia o que dizia. Assim que bati o olho na banheira, tive certeza de que aquele apartamento era meu, prontocabô. O tempo passou, eu enverdeci e, hoje, quase tenho vergonha de dizer que tenho uma perdulária banheira em casa.
Então, no dia-a-dia, eu simplesmente ignoro aquela tigelona branca esmaltada com oito dutos massageantes. O problema é que, a cada vez que ligo a água, o cardal não me deixa esquecer de meu passado de desperdiçadora contumaz. Ele demora a esquentar a água, tenho que manter o fluxo regular na torneira e basta que um vizinho dê a descarga para que o “sistema inteligente de desligamento” me deixe ensaboada, tiritando de frio, rezando para a água voltar a esquentar.
Isso daria um filme de terror doméstico, não fosse ainda pior: eu não posso tirar o cardal. “Ixi...”, comentou o primeiro pedreiro que levei em casa para me dar um banho mais mundano. Quem já teve de fazer uma mísera instalação elétrica ou pintura de parede em casa sabe o que um “ixi” de pedreiro quer dizer. Em português claro, significa “vai dar trabalho, vai demorar, vai fazer sujeira e, sim, vai custar caro”. Uma coisa realmente animadora. “Precisa quebrar tudo até a garagem, onde está o registro geral”, sentenciaram, um a um, cada pedreiro que trouxe em casa tentando driblar a crise emergente.
Espero que o senhor Cardal morra de reumatismo. Debaixo de uma ducha gelada. No mínimo.
PS: Hoje tem uma Voadeira super produzida! O quê?!? Vai me dizer que você nem reparou?
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Hmmm, meio maligna essa tática, né?
Ai, Nine das Meninas, estou na mesma: tenho uma baita banheirona em casa e morro de vergonha de tomar banho nela! Ainda bem que o inverno não apertou por aqui, né?
Oba, valeu, Renivaldo!
Nem sabia que esse serzinho existia!
Existe, sim, Tita, mas só para atormentar a vida das pessoas que gostam de banhos matinais...
Tenho grandes problemas de comunicação com o seu cardal.
Hahahahaha, ô, dó! Só banho gelado quando vem aqui, né?
Fabio, a Cardal foi em casa e elogiou a instalação que fizemos, com uns fios da grossura de um dedo indo do quinto andar até a caixa de luz do prédio, no primeiro subsolo. Mas não descarto a possibilidade de ser algum problema no sistema hidráulico, porque nisso não mexemos. De qualquer forma, fico feliz por ter mudado de prédio e ter me livrado do bendito chuveiro temperamental...









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