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Ode aos vagalumes

A noite é dos gatos, diz o ditado, mas, em Na Noite Escura, bem poderia ser dos vagalumes, que emprestam sua luz à cada página. Designer italiano premiadíssimo, Bruno Munari (1907-1998) teve esse livro recusado por diversas editoras. Uma prova de que nem sempre há vida inteligente nos bastidores do mercado editorial.

Cheio de recortes e sofisticadas lâminas em papel especial, a obra convida o leitor-mirim a explorar a história com sua criatividade. O que será a luzinha que brilha ao longe no céu? O que fazem as formigas sob o véu luminoso da alvorada? Que segredos guarda a pequena gruta, com seus sinuosos corredores de pedra? Obra onde as imagens permitem múltiplas interpretações, Na Noite Escura é uma prova de que um bom livro também se faz quase sem palavras.

Categoria: Livros, Crianças, Artes

A caixa

Eis uma confissão ecologicamente incorreta: eu adoro embalagens. Tento evitar ao máximo embrulhar coisas para presente ou mesmo trazer para casa os abomináveis saquinhos de supermercado, mas não consigo controlar minha compulsão por caixas. Eu gosto de sentir o estalar de vincos dobrados pela primeira vez. Adoro ouvir o barulho do estilete cortando a fita plástica. Acho um barato descobrir as engenhosas dobras que fizeram simples folhas de papel assumirem os mais inusitados formatos. E sou louca por cheiro de papelão novo.

Tenho dezenas de caixas em casa, o que me rendeu o apelido de “tralhenta”. Caixinhas pequenas guardam bijuterias, miçangas e sachês. Caixas estreitas e compridas dão boas divisórias para pincéis, lápis e canetas. Caixas grandes e rasas ajudam a organizar a bagunça dentro de gavetas, as quadradas e fundas reúnem meus rolos de papel e as redondas viram lindos cachepôs.

Não há nada que um tecido floridinho e um laço de cetim não sejam capazes de fazer para que uma boa caixa volte à vida — e não acabe seu curto ciclo de vida apodrecendo num lixão.


Como num cartão-postal

Quem passa por ali logo cedo, não acredita que se trata da mesma praça dos casaizinhos apaixonados, das rodinhas ao redor do violão, dos fãs do pôr-do-sol. A paisagem matutina era tão diferente da que conheço ao final da tarde que pensei ter entrado na rua errada.

Na calçada, quarenta, cinqüenta rolinhas disputavam com três pombas perdidas as últimas migalhas de quirela de milho. Feliz da vida, um labrador segura sua própria guia na boca, o rabo oscilando de um lado para o outro como um pêndulo animado. Ao lado, o dono, trotando no ritmo dos atletas da terceira idade, com seu calção azul e o agasalho fechado até o pescoço. Mal avista os pássaros, o labrador desiste de se auto-conduzir e sai em desabalada carreira. As rolinhas voam todas para os fios elétricos.

Estou terrivelmente atrasada para o trabalho, mas não consigo recusar o convite de uma pausa. Desço do carro e quase sou atropelada por um grupo de crianças em uniforme escolar vermelho, correndo como uma manada em época de estiagem. Atrás, vem a esbaforida professora, praguejando enquanto sobe a ladeira, “Devagar, crianças! Devagar! Esperem a tia!”.

Uma senhora vestida de branco passa empurrando um carrinho e arrastando um beague cansado, as orelhas do cão envoltas numa toalha para não arrastarem no chão. A toalha está no avesso, aperto os olhos para ler “ossergorp e medro”. Nunca pensei nessa utilidade para a bandeira pátria. Os cachorros somem de vista, as crianças entram no ônibus – “Calma, meninos, calma! A tia vai contar vocês para ver se não esquecemos ninguém”. A praça fica imersa em silêncio. O sol brilha sobre os prédios, se reflete em carros e vidraças, o ar tem cheiro de grama cortada. É como um cartão-postal com cheiro, mas sem som nenhum.

Então, as maritacas resolvem descer das árvores...


Dona Rita

Escrevi recentemente sobre minha costureira, dona Rita, sem imaginar que costureira que costura é espécie em extinção. Pregar botões e zíperes, ok, fazer barra de calça, vá lá, mas criar roupas, assim, do nada, isso é coisa pra gente com muita imaginação.

É mesmo muito bom investir em uma costureira de bairro quando elas são sufocadas pelas grandes confecções e shoppings. Na prática, no entanto, a coisa requer um pouco de paciência. Como qualquer ação sustentável, aliás.

Não espere chegar em uma dessas insípidas franquias de costura, com uma atendente que lança seu pedido no computador e outra que tira suas medidas e diz que tudo vai sair os olhos da cara e ficar pronto na semana que vem. Vai por mim, o ateliê da dona Rita não se parece em NADA com um lugar desses.

Para começar, o portãozinho que nunca fica trancado nem placa tem. Ao atravessar o corredor, chega-se a uma porta (sempre escancarada), de onde se tem uma visão parcial da ante-sala do inferno: rolos de linha emaranhada, retalhos pelo chão, pilhas de roupa que vão até o teto, araras envergadas de tantos cabides cheios de peças para ajustar, um radinho a pilha que pega duas rádios ao mesmo tempo, uma senhora no provador tentando driblar os alfinetes de um vestido, outra do lado de fora, reclamando de um serviço que não ficou pronto... Tudo isso junto e mais dona Rita com seu ar bonachão, mãos na cintura e uma fita métrica no pescoço, dando a risada mais gostosa do mundo.

Ter uma costureira sustentável é assim. Deixo as roupas lá e esqueço delas por uns bons dois meses, quando então ligo e sou informada de que elas ficarão prontas em vinte dias. Se pressiono, dona Rita ri e se sai com a máxima: “Tô com muita costura, menina...”. Mas nem ligo. Quando tudo fica pronto, está com a minha cara e feito no maior capricho. E, além de tudo, custa a metade do preço.

Amém, dona Rita!


Sem lembranças

Está na programação genética das meninas: adolescentes fazem agendas. Mais que um mero relato dos dias, esses diários guardam toda sorte de penduricalhos que se puder imaginar. Fotos recortadas. Bilhetinhos de amigas. Frases de celebridades. Cartas, recortes de jornal, flores secas, quadrinhos, papéis de bala, desenhos, pensamentos soltos. Adesivos e clipes coloridos de vários tamanhos. E toda sorte de coisas que “O” carinha da vez tocar: o palito do picolé que ele tomou, a raspinha do lápis que ele usa, uma folha de papel com o nome dele escrito novecentas e vinte e três vezes. Com o tempo, as páginas têm tantas coisas pregadas nelas que já não se fecham mais – até que ficam tão arreganhadas que é preciso envolvê-las com um elástico.

E é aqui que eu faço minha confidência: eu nunca consegui fazer isso. É claro que tive agendas, mas não sem muito, muito sofrimento. A coisa começava no Natal do ano anterior, quando eu ganhava uma, duas, às vezes, até três agendas de presente. Lembro de uma que tinha a capa de tecido com delicadas florzinhas vermelhas e de outra que vinha com aroma de morango. Eram tão lindas, mas TÃO lindas... que eu não conseguia usá-las. Nem abria as folhas, com medo de o cheirinho evaporar mais rápido.

Como boa adolescente, eu guardava toda a tralha de lembrancinhas e bilhetinhos. Era tanta coisa que ocupava três caixas grandes. Tudo devidamente organizado por cor e tamanho, catalogado por mês e separado por ano. Ficava tão melhor assim do que naquela explosão de páginas desbeiçadas...

Minha coleção de agendas em branco ia muito bem até que minha mãe a descobriu. “Que lembranças da sua adolescência você vai guardar desse jeito?”, me disse com aquele tom de voz dramático do tipo “onde foi que eu errei?”. Respirei fundo e comecei a colar, papelzinho por papelzinho, cada uma das recordações. Em uma semana, já tinha botado em dia uns três anos da minha vida.

Quinze anos depois, fazer agendas é raridade – ainda mais num mundo onde computadores de mão são vendidos a preço de banana e papel, a peso de ouro. Olho para minha volumosa coleção, as lombadas quase arrebentando, e sonho que cada lembrança daquelas ainda está tão viva em minha mente quanto na caligrafia. Só assim para conseguir mandá-las para a reciclagem. Como qualquer papel.

PS: Hoje tem criação na Voadeira. Já deixou sua imaginação voar por lá?


O passeio florido

Escrito por um dos maiores ilustradores brasileiros – autor de mais de 400 capas de livros e de 120 obras infanto-juvenis –, Pelos Jardins Boboli já surge como um clássico. Com um acabamento primoroso e um texto fluido, trata-se de uma análise profunda e detalhada sobre a arte de ilustrar livros infantis e juvenis.

Em 176 páginas, o ilustrador Rui de Oliveira aborda desde noções de composição e desenho até o impacto que texto e imagem produzem no leitor mirim. O nome do livro é uma alusão ao Jardim Boboli, em Florença, um lugar exuberante mas sem flores, cujo passeio por suas ruas e alamedas estimula a sensibilidade e o olhar contemplativo.

Imperdível.

Categoria: Livros, Crianças

Descubra-se, darling!

Tem ou teve bicho de estimação? Então, pegue o primeiro nome dele e anote num papel. Aí, some com o último nome da rua onde você mora. Pronto: se quiser ser travesti, já tem um nome de guerra!

Acabo de descobrir que trabalho com She-ra dos Sertões, Tigrão Agio e Rita Aranha (fazem ponto na Praça da República), Duquesa dos Samurais (especialista em orientais), Bela Caraíbas (na Baixa Augusta), Rany Dol e Lady Purpurina (direto do trio elétrico da Parada Gay), Nina de Queiroz (atende no Café Photo) e, o melhor de todos, Sheron Cotoxó (sabe-se Deus de onde!).

Ficou com nojinho? Ah, beibi, você pensa que está no armário, mas vive mesmo é numa cristaleira: está to-do-mun-do vendo! Então, querida, se joga!

Bitoca da eterna,
Cherry Corá

Categoria: Comportamento, Humor

Diagnóstico e cura

Só quando uma mulher passou rindo é que me dei conta de que eu estava um pouco fora de mim. Com meu dedo-batuta, eu regia uma orquestra invisível e cantava e balançava a cabeça e fechava os olhos enquanto cantava. Puro êxtase.

É que, dias atrás, fuçando meus CDs, lembrei do arrebatamento que Edith Piaf me causava quando adolescente. Época em que ainda não existia o contador de reproduções do iTunes. Esse, sim, eu descobri recentemente: o programa sabe direitinho quantas vezes você ouviu as músicas que estão armazenadas nele. Cada uma! Que computador mais esperto, sô! Deve ser treinado...

O contador serviu para me mostrar que sou oficialmente obsessiva. Sou capaz de passar uma tarde inteira ouvindo a mesma música, baixá-la no celular e ouvi-la enquanto caminho e ainda sonhar com ela. Senão, vejamos. Sous Le Ciel de Paris eu já ouvi 97 vezes. Milord, 78, empatada com Padam. La Foule vem logo atrás, com 75 reproduções. Isso porque eu encontrei os CDs há dois dias. Se continuar nesse ritmo, chego aos quatro dígitos em uma semana.

Não sei o que desperta minha obsessão. Às vezes, é um bemol – adoro bemóis. Pode ser uma estrofe inspirada, como em Desconsolo (134 reproduções), na voz de Monica Salmaso, “E vou lastimar/ Lastimar profundamente/ Tudo que eu fui e não sou mais”. Ou como em Novamente (128 reproduções), de Nei Matogrosso “Não há limite no anormal/ É que nem sempre o amor/ É tão azul”. A questão é que não basta ouvir a música: tenho de botá-la no repeat dezenas de vezes até que letra, melodia e cada mínimo acorde grudem no córtex cerebral.

A psicanálise diz que reconhecer a psicose é o primeiro passo para a cura. O segundo é definir um limite máximo de reproduções de uma mesma música no iTunes: 157 num mesmo mês. E não se fala mais nisso.


A bomba-relógio

– Não coma isso!
– Ué, por quê? É amora. A árvore está carregada...
– Isso aí é porquera, minha filha! Não presta, não.
– Como não? É fruta! Minha mãe sempre diz que fruta faz bem...
– Tá contaminada, menina! Não põe na boca!
– Contaminada? Com quê?
– Com fuligem, poeira, poluição... A gente está perto da Marginal, não tá vendo?
– ...
– Essa porquera gruda tudo na fruta e vira uma bomba!
– Wow. Uma bomba?
– É, uma bomba-relógio!
– É uma frutinha tããããããão pequenininha...
– Mas faz mal! Não tá escutando, não? Pára de comer essa porcaria!
– Nhammm, mas está tão boa essa bomba-relógio, hmmm, e mais essa, essa e essa aqui...


De quem te ama

Paixão é como bebê: a gente fica que nem besta o dia todo, não consegue trabalhar direito e ainda se mete a fazer declarações de amor. Declarações PÚBLICAS de amor, que fique claro, afinal, estamos falando de coisas deliciosas, arrebatadoras, encantadas. Que tiram a gente do sério para, minutos depois, nos fazer sorrir. Que nos fazem sonhar e acreditar que podemos ser melhores. Coisas que nos aquecem por dentro. Então, lá vai.

Eu amo você. Amo saber que, neste exato momento, você está aí, do outro lado da tela, gastando preciosos minutos para ler o Guindaste. Amo ler seus comentários e ir criando sua imagem na minha cabeça, como um personagem de um livro que ainda não foi adaptado para o cinema. Amo receber seus e-mails, torpedos, cartas, smiles, scraps. Amo imaginar que você me lê em segredo enquanto o chefe não está, que me lê em silêncio, sem comentar, que ri (ou se emociona, vá lá) com o que lê. Que mudou alguma pequena coisa em sua vida porque leu aqui algo de que gostou. Que pensou no Guindaste quando viu ou ouviu alguma coisa. Que me mandou um link dessa coisa. Que recomendou um post para um amigo. Que copiou um texto e colou no seu Orkut. Que criou coragem para escrever um conto, uma crônica, uma saga inteira. Amo muito tudo isso.

Sem você, isso aqui não teria a menor graça.

Aí está. Cafona, previsível e meloso. Como toda boa declaração de amor tem que ser, ora bolas!


PS: A todos os que me mandaram torpedos, e-mails, scraps e comentários de aniversário: obrigada! Nine, adorei as Desventuras de Carol Costa, ninguém nunca tinha me dado um presente desses! Dã, a garrafinha e a carta com tecla SAP são geniais! Estão aqui do lado do computador, me fazendo companhia enquanto escrevo!

Categoria: Blogosfera, Egotrip

Colegas de escritório

Namorei um rapaz que passava horas sozinho num minúsculo escritório cinza, cheio de arquivos metálicos e paredes sem quadro, no prédio mais mixo e infeliz da rua. Me sentia desolada toda vez que ia visitá-lo naquele lugar tão pouco acolhedor.

Na tentativa de emprestar um colorido às tardes de silêncio e solidão, levei para ele três plantinhas. Uma delas era uma samambaia bem cabeluda, que apelidei de Elba Ramagem. No único pedacinho de mesa onde batia uma réstia de sol, coloquei o Barbosa, uma planta carnívora que tinha toda pinta de ser menino. Fechando o trio de novos inquilinos, deixei a Adelaide na entrada, uma pequena e prestativa árvore-da-felicidade que ficou incumbida de anotar todos os recados quando meu namorado estivesse fora.

Um mês depois, Elba começou a apresentar sérios problemas de queda de cabelo. As folhas ficaram amarelas, depois marrons e, por fim, a despeito de todas as minhas ameaças, caíram até só restarem uns caules nús. Abalada com a morte precoce da colega de trabalho, Adelaide ficou pálida e começou a definhar. Só Barbosa seguia em frente, ainda que tivesse um ar de funcionário público entediado.

Com medo de outra tragédia, dei para Adelaide uma licença-médica e levei-a para minha casa. Ela se recuperou bem, cresceu no cargo e, depois de anos de bons préstimos, foi promovida a um vaso-dúplex na sala da minha quitinete.

Barbosa continuou sua vidinha de escritório. Às vezes, passava semanas sem ver nem mosca morta, mas seguia em frente – afinal, tinha um emprego estável, seu lugar ao sol e um patrão que nunca pegava no pé dele.

Um dia, cheguei ao escritório e encontrei Barbosa azulado. Parecia asfixiado, as folhas estavam molengas, o caule, cheio de veios negros, a terra ainda úmida da última rega. Olhei de perto e vi que ele tinha algo preso na maior de suas sete bocas carnívoras.

– O que você fez com o Barbosa?!?
– Ah... você viu só que coisa? Achei que a planta estava cansada de comer esses mosquitinhos de nada e dei uma refeição mais substanciosa para ela. Encontrei uma mariposa morta no hall... Acho que a planta não gostou muito.

E eu que achava que só peixe morria pela boca...

PS: Hoje tem uma Voadeira meio cegueta. Já viu?


Lampião apagado

Fiz sinal para o táxi tão logo vi o carro branco apontar no alto da ladeira. Ele deu seta e parou no farol. Abri a porta do carona – detesto ir no banco de trás –, esperei que um surpreso taxista tirasse sua pasta do banco e me sentei.

– Aposto como você não está acostumado a levar mulher na frente, né? É que eu não gosto de ir atrás quando estou sozinha. Acho tão estranho...
– Para onde vamos?
– Pode virar a primeira esquina à esquerda, assim que o farol abrir. Rapaz, mas está uma dureza conseguir táxi hoje! Passaram três antes de você, todos cheios. Não sei se é o horário ou se a coisa está mesmo boa para vocês... Outro dia, fiquei quinze minutos esperando um táxi desocupado e, quando achei um, uma moça deu sinal na minha frente e entrou antes. Fiquei uma arara! Você não vai ligar o taxímetro? Olha que eu não pago, hein? Ué, tem alguma coisa errada...

Tive aquela sensação meio vaga de quem acabou de ouvir uma piada que fez todos rirem, menos você. Meu cérebro tentava processar o mais rápido possível onde foi que eu perdi o fio da meada quando reparei que o taxista segurava o riso. Mal sinal. Eu era a piada.

– Cadê seu taxímetro?
– Não tenho...
– Mas que raio de táxi é esse sem taxímetro? Como vou saber quanto vai dar a corrida se você não marcar no taxím...

Um minuto depois, lá estou eu de volta à rua, vendo dobrar à esquerda um carro de uma empresa de controles de garagem com um motorista muito, muito engraçadinho.

O que posso fazer se o carro era branco?


A mantegueira

Estava quase terminando de preparar um lanchinho rápido antes de voltar a trabalhar quando me dei conta do que fazia. Eu tinha gasto uns bons segundos passando o pelote de manteiga na borda da mantegueira, retirando-o com a pontinha da faca e devolvendo-o ao montante de manteiga. Se sobrava um pouco na faca — sempre sobra —, eu refazia a sequência até que a faca estivesse quase tão limpa quanto antes de ter sido usada. Já tinha repetido tudo duas vezes quando meu cérebro me sussurrou: “Por que você ainda faz isso?”. Tái uma boa pergunta. Por que raios ainda me preocupo com quanto de manteiga vai sobrar na borda da mantegueira?

Venho de uma casta de mulheres metódicas e perfeccionistas. Minha avó é tão obcecada por ordem que a sala de visitas dela se parece com a capa de uma revista de decoração. Tudo impecavelmente limpo, as prateleiras organizadas e uma pilha de livros esparramada em cima da mesinha de centro. Meticulosamente esparramada.

Foi com minha mãe que aprendi o lance da mantegueira. E, como boa perfeccionista, para ela, isso tem explicação: é que a manteiga que sobra na borda do pote fica ressecada e ninguém quer mais. Como colocar a faca de manteiga dentro do copo de leite é uma profanação do templo sagrado que é a pia da cozinha, então, a única coisa sen-sa-ta a fazer é passar vinte minutos driblando a manteiga para devolvê-la, íntegra, ao pote. Isso, obviamente, se você não for perfeccionista — porque se for alguém realmente metódico, já deve ter descoberto, há muito tempo, qual é a quantidade exata de manteiga necessária para se passar na mesma fatia de pão, da mesma marca, que você compra na mesma padaria, todos os dias, no mesmo horário. O que torna a coisa toda da mantegueira uma solução para incompet, digo, principiantes.

Mas estou à beira dos trinta (sexta viro balzaca!). Hoje, posso dizer que sou uma mulher em pleno domínio de minhas faculdades mentais. Não sou mais a garotinha que tinha medo de levar bronca por deixar manteiga na borda do pote. Tenho minha própria cozinha e um pote de manteiga só pra mim. Posso deixar a manteiga na borda do pote por quanto tempo eu quiser. Posso até desdenhar o sistema e botar a faca de manteiga dentro do copo. CHEIA de manteiga. Sem dar explicação para ninguém. Este é um país livre, afinal.

Passei a faca no pote e tirei um tolete de manteiga. Daria para fazer uma receita de risoto para quatro pessoas com tudo aquilo. Raspei a faca no pote e fiquei olhando o pelote. Impávida. Vitoriosa. Aquilo não iria me abalar. Enfim, depois de anos de massacre perfeccionista, eu era uma pessoa capaz de deixar a manteiga na borda. Talvez até consiga parar de virar rótulos de shampoo, tirar vincos de tapetes, deixar a tampa do vaso levantada e sair de casa sem arrumar a cama.

Então, passei a faca na borda da mantegueira, tirei o pelote, devolvi ao centro, raspei a faca de novo na borda, tirei a manteiga que sobrou...


Pode vir

— Pode vir. Pode vir.
— Ahhhhhh, nem pensar!!!
— Carol, eu não estou falando que pode vir? Acha que eu vou te deixar cair?
— Você, talvez não. Mas eu não ponho fé neste carinha aqui...
— Já falei que não precisa se desesperar, Carol. Sou professor há vinte anos. Agora, dá meia volta e começa de novo.
— Eu não estou me sentindo bem...
— Tá sim. Você está é com frescura. Volta e começa dali atrás.
— Juro. Acho que estou com câimbra...
— Onde?
— Bem aqui, ó, no meu restinho de coragem.
— Ara, Carol, para de manha e bota esse cavalo pra saltar.
— Mmmm...
— Anda logo!
— ...
— Isso, está vindo bem. Pode vir, pode vir...
— Ahhhh!!! Você subiu o obstáculo!!!
— Ai, que coisa, não faz isso! Você atrapalhou ele! Vai fazer tudo de novo!
— Não posso, professor...
— O que foi agora?
— Tá doendo.
— Onde?
— Na minha capacidade de auto-preservação. É sério.
— Escuta aqui, ô, mocinha. Você não vai embora enquanto não saltar sobre aquele obstáculo ali. Ou vai sair da minha turma e vai voltar pro iniciante. Estamos entendidos?
— ...
— Então vai com o cavalo prali, se prepara e vê se não caga tudo!
— ...
— Ok, vem, pode vir. Abre mais a curva. Tá indo bem, isso, agora é só não atrapalhar o cavalo. Pode vir, tá baixinho, não subi o obstáculo. Isso, vem, vem, vem... Aê, garota! Conseguiu! Viu só, não foi tão difícil, foi?
— ...
— Carol, pelamordedeus, tira essa cara de pânico! Respira, mulher!
— mmm...
— Tá bom, pode chorar. Eu não conto pra ninguém. Uma baita marmanja com medo de quarenta centímetros, faça-me o favor...


O cardal

Não preciso nem de um minuto no banheiro para sair às turras com o cardal. Cardal é um troço feito para tirar as pessoas do sério nas primeiras horas do dia — porque para tirá-las do sério nas outras há coisas mais eficientes, como congestionamentos, operadores de telemarketing e portas-giratórias de bancos. Trata-se de um aparelhinho maligno que aquece a água do chuveiro. Não é mais econômico, nem mais prático, tampouco mais eficiente do que uma ducha normal, mas está à mão, grudado na parede do meu banheiro desde que moro aqui.

“É o melhor sistema de aquecimento para banheiras”, me recomendou a antiga proprietária no dia em que fui ver o apartamento. Ela sabia o que dizia. Assim que bati o olho na banheira, tive certeza de que aquele apartamento era meu, prontocabô. O tempo passou, eu enverdeci e, hoje, quase tenho vergonha de dizer que tenho uma perdulária banheira em casa.

Então, no dia-a-dia, eu simplesmente ignoro aquela tigelona branca esmaltada com oito dutos massageantes. O problema é que, a cada vez que ligo a água, o cardal não me deixa esquecer de meu passado de desperdiçadora contumaz. Ele demora a esquentar a água, tenho que manter o fluxo regular na torneira e basta que um vizinho dê a descarga para que o “sistema inteligente de desligamento” me deixe ensaboada, tiritando de frio, rezando para a água voltar a esquentar.

Isso daria um filme de terror doméstico, não fosse ainda pior: eu não posso tirar o cardal. “Ixi...”, comentou o primeiro pedreiro que levei em casa para me dar um banho mais mundano. Quem já teve de fazer uma mísera instalação elétrica ou pintura de parede em casa sabe o que um “ixi” de pedreiro quer dizer. Em português claro, significa “vai dar trabalho, vai demorar, vai fazer sujeira e, sim, vai custar caro”. Uma coisa realmente animadora. “Precisa quebrar tudo até a garagem, onde está o registro geral”, sentenciaram, um a um, cada pedreiro que trouxe em casa tentando driblar a crise emergente.

Espero que o senhor Cardal morra de reumatismo. Debaixo de uma ducha gelada. No mínimo.

PS: Hoje tem uma Voadeira super produzida! O quê?!? Vai me dizer que você nem reparou?


A cigarra cheia de ci*

Guimarães Rosa (1908-1967) sabia brincar com as palavras como poucos. Em suas obras-primas como Grande Sertão: Veredas ou Corpo de Baile, é possível atestar a habilidade que ele tinha para construir aliterações e neologismos. Em Zôo, o escritor Luiz Raul Machado reúne frases e poemas sobre animais que estavam dispersos na obra de Guimarães.

Até adultos se deleitam com pérolas como “Um leão ruge a plenos trovões”, “A zebra se coça contra uma árvore, tão de leve, que nem uma listra se apaga”, “Um pingüim: em pé, em paz, em pose” e “O caramujo no seu ujo, e o caranguejo, ejo”. O resultado, habilmente traduzido em um livro-objeto pelo ilustrador Roger Mello, não poderia ser mais feliz.

*Versão sem cortes de resenha para a edição de setembro da revista Nova Escola.

Categoria: Livros, Crianças

N-P-K

Depois de passar um mês sem comer carne, outro pulando na cama elástica e mais trinta dias conhecendo meus vizinhos, começa hoje mais uma Experiência Bons Fluidos. Desta vez, o tema é Jardim: como criar e manter um cantinho verde e aconchegante mesmo morando numa cidade cinza e cheia de concreto.

A tarefa não será fácil: são poucos dias para decifrar coisas como “meia-sombra”, “Ph neutro”, “condições de drenagem”, “alporquia” e, mistério dos mistérios, “N-P-K”. Traduzindo em linguagem de gente, a idéia é descobrir porque algumas plantas simplesmente se negam a nos ajudar, como driblar a má-vontade delas e o jeito de fazer isso sem ter uma estufa particular ou gastar um dia inteiro. Porque ter mais verde em casa é legal, mas lazer não é para dar trabalho, né?

Que venham as minhocas!


Arrastando a asa

Pela manhã, fui pegar a escova de dentes e quase o amasso entre os dedos: explorando as cerdas aprovadas pelos dentistas, um bicharoco preto com duas pequenas antenas e um par de asas transparentes passeava na maior curiosidade. Parecia uma formiga — ao menos uma que tomou Biotônico Fontoura desde que era uma rosada pupa. Olhei mais de perto e vi que andava arrastando uma das asas. É, meu caro, é nisso que dá abusar dos esportes aéreos. Peguei um papel, fiz o bicho escalá-lo, desci as escadas — uma queda do quinto andar teria sido fatal com aquelas condições de vôo —, botei-o na planta mais simpática que encontrei e me despedi com votos de melhoras.

À noite, entro no banheiro e qual não é minha surpresa quando dei de cara com mais um amigo alado. “Deve ter um ninho por aqui”, pensei, enquanto me preparava para mais uma expedição ao térreo, mas foi só me abaixar para recolher o visitante que reparei na asa. O formigão arrastava a asa. A MESMA asa. Do lado esquerdo.

Agora me diz: comquipode uma coisa dessas? Ok, tenho um gabinete de banheiro até jeitoso, mas é duro acreditar que o bicho escalou cinco andares só para viver no debaixo da minha pia. Ou seria uma família de bicharocos mutantes, com uma deformação genética na asa esquerda? Vai ver, aquele era o parceiro da fêmea que eu tinha acabado de condenar ao exílio verde. Como um Romeu de seis pernas. Pobre Julieta, solitária entre as plantas do hall de entrada...

Reuni os dois formigões — ou acho que o fiz, porque é claro que o primeiro visitante já não estava mais no mesmo lugar. Não importa, o amor vence montanhas. Deus queira que os dois não escolham passar a lua-de-mel no meu banheiro.


Depois da largada*

Cansadas de só ficar vendo os ciclistas passarem, as tartarugas decidem comprar bicicletas e fazer uma prova só para elas. Depois de driblarem as dificuldades iniciais — subir no selim e tocar buzina podem ser coisas muito difíceis para os seres pequenos de carapaça —, elas finalmente se preparam para a largada. Dez minutos depois, todas estão dormindo. Esse é bem o tipo de coisa que fazem os bichos quando os seres humanos não estão vendo...

O humor sutil do italiano Gianni Rodari (1920-1980) é um convite à diversão de adultos e crianças no ótimo Animais sem Zoológico. Se tartarugas são capazes de organizar uma corrida de bicicletas, o que dizer da girafa...

*Versão sem cortes de resenha produzida para a edição de setembro da revista Nova Escola.

Categoria: Animais, Livros, Crianças

 

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