De papo cheio*
Você mora em apartamento e vive de olho nos passarinhos? Adora sabiás, mas morre de pena de vê-los em gaiolas? Oferece quirela de milho e os únicos bicões que aparecem são pombas domésticas? Então, esta reportagem é para você.
“Às vezes, a pessoa está colocando a comida certa para o passarinho errado”, ensina Johan Dalgas Frisch, um dos maiores especialistas em aves do Brasil. “Sabiá, por exemplo, é bicho preguiçoso. Voa baixo, vai só até o segundo andar.”
Frisch acorda com as galinhas só para colocar comida para os pássaros que vivem na praça em frente a sua casa. “Recebo mais de 200 maritacas por dia nesse meu ‘restaurante’ improvisado”, conta. Aprenda com ele a fazer os pássaros virem voando até você.
TÉRREO
Os convidados: Beija-flor, juriti, pardal, pica-pau, rolinha e sabiá-laranjeira.
O cardápio: Mamão, pitanga, amora e jabuticaba são um banquete para esses pássaros. O pica-pau adora abacate. Ofereça também sementes de girassol.
ANDARES BAIXOS
Os convidados: Beija-flor, bem-te-vi, maritaca, sabiá-laranjeira e tico-tico.
O cardápio: Ponha mamão e banana. Se tiver bicho de estimação, atente ao bem-te-vi, que rouba a ração. Deixe a vasilha do seu cão ou gato longe das janelas.
ANDARES ALTOS
Os convidados: Bem-te-vi, maritaca, papagaio, sabiá-do-campo e sanhaço.
O cardápio: Além de banana, mamão e sementes de girassol, dê arroz cozido frio, sem sal, cebola, alho ou óleo. Quanto mais soltinho, mais o bem-te-vi vai gostar.
Barre as pombas domésticas
Não dê miolo de pão nem quirela de milho. Cuidado para confundir a pomba doméstica com as primas asa-branca, juriti e rolinha, que são pombas de classe.
Não assassine seus clientes
A cada três dias, deixe os bebedouros de molho em uma colher de água sanitária diluída em um litro de água. Isso elimina os fungos que podem matar seus clientes.
Deixe as abelhas desbaratinadas
A cada três dias, suspenda a água com açúcar por 24 horas. As abelhas precisam de quatro dias para decorar o caminho da casa delas para a sua.
*Versão sem cortes de reportagem publicada esta semana na revista AnaMaria.
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Um abraço
Eles são muito bons mesmo, Francisco. Dedicam a vida à pesquisa de espécies e seus hábitats. Um trabalho lindo, autodidata e solitário.
Hehe, e, dependendo da espécie, fazem também um barulho daqueles!
E, aproveitando, lembro ao Emilio, comentarista anterior, que cocô de passarinho é excelente adubo pra plantinhas, com a umidade perfeita. portanto, sem estresse que talvez alguém aproveite.
Abs.
Bem lembrado, Ana! Titica de galinha, por exemplo, é um dos melhores adubos que existem.
Mas passei por aqui para protestar; responde meus emails!!!
Estou com saudades,
Bjo
Mas eu respondo todos os seus e-mails, flor! Você é que não responde os meus... Snif!
(brincadeirinha...!)
_
Que mente maligna!
Que inveja docê, Ingrith! Eu bem que gostaria de ter bem-te-vis na minha janela, mas, com um monte de gatos de olho, vai ser difícil convencer a passarinhada...
Hahahahahahaha, é a única explicação, Nine!
2) As pombas domésticas fazem faxina para as pombas de classe?
1) Éca, arroz sem tempero já é ruim, imagina sem tempero e frito? Tadinhos dos passarinhos, Michel... 2) Só para as pombas de classe que moram na cidade grande. As que moram no interior vivem num lugar limpinho sem precisar de ajuda.
Guindejos
Adorei esse beija-flor, Tiago! Fiquei curiosa para saber que flor é essa que tem a minha cor preferida e ainda consegue atrair passarinhos...
Veja só, um passarinheiro profissional por aqui!
Eu gosto de pombas domésticas, afinal, foram domesticadas, isso não é fabuloso?
Segue abaixo matéria pra pensar.
Beijos
02/05/2008 - 14h14
Bio-intolerância: águias nobres, pombos imundos, humanos preconceituosos
Natalie Angier
Do Science Times
Outro dia olhei pela janela e senti uma náusea delicadamente temperada com indignação. Bicando no meu alimentador de pássaros estavam dois cucos de cabeça marrom, um macho e uma fêmea, e eu sabia o que aquilo significava. Muito em breve a gorducha e fertilizada fêmea iria colocar seus ovos no ninho de algum outro pássaro, com a expectativa de que seus ingênuos hospedeiros fossem chocar, alimentar e educar seu barulhento e esfomeado jovem em negligência e até mesmo para a morte de seus próprios.
"Ei, seus parasitas, tirem seus bicos de minhas sementes", pensei raivosamente. Aquele alimentador é para os bons pássaros, os pássaros dos quais eu gosto -cardeais, trepadeiras, chapins, abelharucos com crista, pica-paus, tentilhões dourados. É para os pássaros trabalhadores, com fibra moral suficiente para criarem suas próprias famílias e ainda parecerem fotogênicos. Não é para parasitas sorrateiros como vocês.
Eu bati na janela mas os pássaros não se moveram, e enquanto eu fiquei ali pensando se deveria correr para fora e assustá-los, seus bicos pareceram engrossar, seus olhos tornaram-se mais negros, e eu poderia jurar que eles estavam tagarelando, "Tippi Hedren, vá embora."
Em suma, eu estava sofrendo de um severo caso de bio-intolerância: o persistente desejo irracional de estar rodeado apenas por aquelas espécies que todos aprovam, excluindo quaisquer animais, plantas e outras formas de vida consideradas ofensivas.
Não era o meu primeiro episódio da doença, e evidentemente eu não sofro sozinho. "Através da história, houve animais difamados e animais admirados," disse John Fraser, um psicólogo de conservação do Wildlife Conservation Society. "Existem os animais dos quais você não gosta e descarta como pequenos vermes marrons, e os animais cujos atributos você quer possuir": ser um tigre, um urso, o lobo líder da matilha.
A bio-intolerância é diferente do impulso de evitar organismos que podem nos machucar ou transmitir doenças, como mosquitos e hera venenosa, ou defender-se de pestes domésticas tradicionais como camundongos e baratas. Particularmente, é a antipatia que direcionamos a criaturas que vivem ao ar livre e geralmente cuidam de suas próprias vidas, mas isso acontece de uma maneira que consideramos rude, irritante, egoísta ou desprezível.
Os esquilos são glutões, os corvos são como os valentões do colégio, os pardais caseiros são tediosos e se parecem com camundongos quando se sacodem pelo chão. Como amamos aqueles nobres falcões e águias que nos abençoaram fazendo seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes. Como lhes imploramos que se banqueteiem livremente com os pombos que nos amaldiçoam ao fazerem seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes.
Algumas vezes nossa bio-intolerância é meramente situacional. Durante uma entrevista sobre hienas pintadas, por exemplo, um pesquisador da Universidade da Califórnia, Berkeley, referiu-se desdenhosamente aos gnus, frequentemente caçados pelas hienas, como "gnus-burguers". Por quê? Porque assim que um gnu é capturado, disse o cientista, ele fica parado com uma passividade de vaca e aguarda seu próprio despedaçamento. Compare isso com a zebra, disse o pesquisador, que reage lutando e chutando e, se puder, quebrando a mandíbula do predador.
"Todos nós temos uma tendência a interpretar excessivamente as coisas que vemos," disse Marc D. Hauser, professor de psicologia e biologia evolutiva da Universidade de Harvard e autor de "Moral Minds". "Eu me recordo claramente, quando fui pela primeira vez ao Amboseli National Park para estudar macacos vervet, da rapidez com que desenvolvi fortes sentimentos contra a personalidade dos macacos -aqui estavam os grandes e bravos, lá estavam os fracos que se escondem nos arbustos e agem de forma patética."
Em outros tempos, nós agimos para favorecer nossos heróis locais ou arruinar nossos bodes-expiatórios escolhidos, cujo maior pecado, na maior parte das vezes, é serem excepcionalmente bons em seus esportes. Tentamos proteger dos esquilos nossos alimentadores de pássaros, arrancamos ervas-daninhas de nossas floreiras, chamamos o Controle de Animais, e quando tudo isso falha, pegamos nossa espingarda.
Stephen C. Sautner, do Wildlife Conservation Society, citou o caso de um amigo e ávido admirador de pássaros que tem uma colônia de Martins púrpura em sua propriedade. "Ele passa muito de seu tempo fazendo armadilhas e atirando em estorninhos e pardais ingleses", disse Sautner, "dois pássaros que descreve como 'diabólicos'".
Nós sempre temos uma história para justificar nossas ações mais agressivas contra animais não desejados. O animal é uma espécie invasora como o estorninho, e não pertence a este lugar. Ou é uma espécie nativa como o cuco, mas sua abrangência foi estendida de forma não natural através do desmatamento. Ou ele gosta de nosso lixo e de nossos parques descuidados e por isso tem uma injusta vantagem sobre criaturas mais exigentes.
Não importando o que as auto-justificativas apontem, disse Marc Bekoff, autor de "The Emotional Lives of Animals" e professor emérito de biologia na Universidade do Colorado, "eu vejo isso como um engano no qual criamos uma situação onde os cucos se disseminam, as raposas-vermelhas comem pássaros em extinção, e então decidimos, bem, agora temos que sair e matar os cucos e as raposas".
Nossa tendência à bio-intolerância, segundo especialistas, surge de várias características humanas salientes. Por exemplo, estamos equipados com uma teoria de mente frequentemente hiper-ativa -a convicção de que os que estão à nossa volta têm suas próprias mentes, objetivos e desejos, e que nossa obrigação seria antecipar o que eles farão em seguida. Criamos narrativas elaboradas partindo das mais frágeis linhas de raciocínio: veja, o corvo azul está tentando desalojar o cuco do alimentador. Poderia o corvo saber que o cuco é um parasita de ninho e por isso tentar expulsá-lo da cidade? "Nós interpretamos o comportamento animal através de lentes e moralidade humanas", diz Fraser, o psicólogo de conservação.
Relacionado ao impulso humano de vermos a nós mesmos ao natural está a insistente idéia de que a natureza nos pertence, e que temos o direito e os meios de controlá-la. "No passado, quando falamos sobre explorar a natureza, isso era visto como uma coisa boa," disse Fraser. "Agora percebemos que essa postura é contra-producente para o sucesso da raça humana."
Em lugar algum nosso senso de "droit du roi" (direito divino) sobre a natureza está mais evidente do que em nossa postura paradoxal em relação aos animais de fazenda. De um lado, eles são as amadas figuras de nossa infância. Do outro, muitas de nossas comparações mais pejorativas nasceram no curral: seu porco nojento, sua vaca preguiçosa, seu frangote, que bando de ovelhas.
Grupos de conservação, que acompanham os posicionamentos públicos relativos a animais, reconhecem estar sempre em busca do próximo Ídolo Animal -uma criatura ecologicamente importante e que invariavelmente acaba se tornando grande, esplendorosa, carismática e amável.
Se você tem dois pássaros importantes da mesma região da América Latina, disse Fraser, um sendo uma arara vermelha similar a uma jóia voadora que consegue vocalizar como um humano, e o outro um petrel marrom, barulhento e que pinta o litoral com excremento, adivinhe qual delas estará no próximo calendário de arrecadação de fundos?
Não que posturas públicas não possam ser alteradas. Morcegos, por exemplo, foram por muito tempo considerados daninhos, mas hoje em dia, no despertar do altamente popular livro infantil "Stella Luna", eles enfrentaram um ar mágico, como o comedor de mosquitos Tinkerbells que, se você tiver sorte, em breve montará residência no seu terreno. Ate lá, afaste-se daquela casa de morcegos, pardal! Não me faça apertar o gatilho.
Sensacional o artigo, Thiago! Faz todo o sentido do mundo. Eu sempre adorei os pardais e nunca entendi o porquê de as pessoas execrarem os bichinhos. Só por que são comuns? Por que não têm penas exuberantes nem cantam bonito? Ratos também, não vejo nada de asqueroso neles. Para mim, são tão fofinhos e espertos quanto esquilos ou hamsters. Mas confesso que ainda estou buscando um ângulo mais atraente nas baratas...
Eu também acho corvos lindos, Nine. E corujas, então? Com aquele ar tão cheio de mistério... Sou uma bichófila inveterada!
Eu adoro os urubus, Clarissa. Sou que nem Tom jobim, que dedicou até um CD para eles. Eles são meio feiosos de perto, mas têm um papel fundamental na natureza e voam tão bonito... Trabalho num andar bem alto e vejo eles da janela, voando quase sem fazer esforço. Parecem tão tranquilos...








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