Banner do Barão de Itararé





Dona Francinery

– E então, o que vamos fazer?
– Só lavar e secar bem.
– Claro. E depois?
– Depois, nada. Só quero lavar e secar bem.
– Mas não vamos cortar?
– Não. Só lavar e secar. Quero deixá-lo ao natural.
– Nem as pontinhas? Está um pouco queimado nas pontas. E cortar ajuda a crescer mais rápido...
– Não precisa. Eu não quero que cresça mais rápido. Isso me obrigaria a cortar mais vezes e eu, definitivamente, não quero cortar.
– Então, vamos ficar com esse cabelo mesmo.
– Bem, ele já me acompanha há 29 anos. Acho que me apeguei, sabe?

Dona Francinery pegou uma mecha do meu cabelo com uma indisfarçável expressão de asco. Olhou as pontas detidamente, fez um muxoxo e fomos para a pia. Minha falta de criatividade capilar foi punida com vigorosos puxões e arranhões. Por fim, ela tirou o excesso de água com a delicadeza de um escalpe, passou o secador, puxou, desembaraçou, escovou. Lágrimas de alegria escorreram dos meus olhos quando, cinqüenta minutos depois, a tortura acabou.

Resolvi exercitar minha liberdade de movimentos e fui dar uma volta no shopping. As pessoas me olhavam com interesse. Às vezes, cochichavam coisas. Inveja pura, claro. Ao passar por mim, uma garotinha disse: “Mãe, o que aconteceu com ela?”. Corri para o espelho.

Eu tinha a aparência perfeita de quem acabou de brigar com um aspirador de pó – e saiu perdendo. O que antes eram tímidos cachos e ondulações agora se fundiam em uma maçaroca desfiada e quebradiça, emplastrada de spray modelador. No alto da cabeça, Dona Francinery havia feito uma instalação: contrariando a lei da gravidade, a franja parecia querer se desgarrar do meu cocoruto e levantar vôo a qualquer momento.

Quanto mais eu molhava a franja para baixá-la, mais espetada ela ficava. Lembrei de um truque da época em que fui garçonete e passei sabonete líquido para domar as mechas. Em poucos minutos, eu consegui encharcar a camisa, deixar o cabelo ensopado, ficar cheirando a ypê flores do campo e jogar pelo ralo os R$ 58 – cin-qüen-ta-e-oi-to-pi-las, um roubo! – que deixei no salão.

Da próxima vez eu corto. Juro.

Categoria: Egotrip, Humor, Diálogos


Posts similares:
Cabelo lisinho: dica da melhor maneira de alisá-lo
O banho anual
Tintura, alisamento, corte… 10 mitos e verdades sobre cabelos!

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentário de: Ingrith Email · http://blogdaingrith.blogspot.com
hauhauahuhauah

Putz, minha mãe tem uma teoria que gays são os melhores cabelereiros, mas qdo eles estão atacados e melhor nem chegar perto!!!

Acho que minha mãe não sabe dessa história, rs

O Michel não concorda com sua mãe, Ingrith...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 14:57


Comentário de: lilica Email
É por isso q só mamãe põe a mão no meu cabelo.
E nem cobra nada!

Ô, mordomia! Só porque não moro mais em casa de mamãe, não tenho direito a recorte e cole capilar... Cole? Ops.
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 15:05


Comentário de: ana maria Email
O duro foi achar que estava arrasando, né bela...
Uma vez eu pintei os olhos, esqueci e cocei... Vi que todos me olhavam... - Devo estar um arraso, hoje - Depois que me olhei no espelho, quase caí de costas...
Bjs.

Hahahahaha, é por isso que eu passo longe de toda e qualquer maquiagem...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 15:57


Comentário de: nine Email
OI Carol,que engraçado! adorei a "briga com aspirador",desculpe se é um acontecimento veridico.Essa cabelereira tem uma mente de torturadora...Eu tenho um cabelereiro gay e sou feliz com ele,qdo vou com outro so me arrependo!
PS.Ana maria? gosto dos seus comentarios,o dos bombons foi otimo!bjs

Dona Francinery deve ter feito treinamento de guerrilha no Bope!
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 16:06


Comentário de: Bia Email
Meh, 58 pila pra lavar e secar o cabelo!??!

E ainda ficar parecendo o leãozinho da seda!

Nããão, não, lavo no tanque da área de serviço de casa se quero algo diferente!!

AHAhAhAH!

Leãozinho da seda? Póóóóbre de mim, Bia, hahahahaha...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 16:12


Comentário de: Emilio Email · http://estou-sem.blogspot.com
Caramba, Carol, 58 só pra lavar e secar?

E eu que já deixo meu cabelo crescer pra economizar no cabeleireiro, corto umas duas vezes por ano, no máximo, e quando corto, passo a máquina, huhuhuh.

Eu realmente não ligo pro meu cabelo. ;)

Ai, que inveja desse povo que passa máquina...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 16:29


Comentário de: Amanda Email · http://www.todascifras.com.br/
bem lembrado!
preciso cortar o cabelo E fazer uma escova básica semana que vem. não que eu seja lá muuuito preocupada com a estética mas é por um motivo nobre: tenho um casamento pra ir :(

eu preferia uma festa junina...

Eu ESTOU numa festa junina! Enfeitaram a redação com bandeirinhas, tem até barraca de algodão-doce!
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 16:46


Comentário de: Dani
Meu. Trauma. Pior é que tem muitas Donas Francinerys por aí. Tive "a sorte" de pegar uma certa vez.

Beijos

Você conseguiu sobreviver? Há vida após o cabeleireiro? Mêda, Dani...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 17:20


Comentário de: Marília Email · http://maroma.wordpress.com/
Menina, que tristeza!!!

Mas que caro saiu esse cabeleireiro, hein?

Caréssimo! É nisso que dá ir em cabeleireiro de shopping...
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 23:40


belo blo, claro, limpo, bem escrito.
Gostei daqui
Parabens
Maurizio

Obrigada, Maurizio! Venha sempre que quiser, nem precisa bater na porta, viu?
PermalinkPermalink 28.06.08 @ 07:10


Comentário de: beta Email
coitada da carol....ja tive mtos dissabores cabeleiristicos por isso de uns anos pra ca resolvi criar o bicho solto so lavo shampoo e condicionador basicos ...faço o estilo leaozinho da seda mesmo rs e passo longe de senhoras que fizeram curso de hairstyling com edward maos de tesoura......bjinho

Boa, Beta! Vou checar onde se formou a próxima louca que resolver botar a tesoura no meu cabelo...
PermalinkPermalink 28.06.08 @ 12:19


Comentário de: Fernando Cury Email · http://documentotupiniquim.com/
hahaha... corta menina! Mas não sem antes rolar aos tapas com a Dona Francinery.

Ótimo texto! Como são sempre os seus.

Beijo.

Hahahahaha, que coisa mais almodovariana isso de rolar aos tapas! Amei, Fernando! E, er, hmmm, obrigada pelos elogios! Até fiquei vermêia...
PermalinkPermalink 29.06.08 @ 09:41


Comentário de: Renato Alt Email · http://www.aperteoalt.blogspot.com
Carol, eu acho que... epa, peraí!!!! "Da época em que eu fui garçonete"???

_

Hehe, não te contei ainda? Trabalhei oito dias em um restaurante francês. Apanhei tanto do abridor de vinho que acabaram me despedindo...
PermalinkPermalink 30.06.08 @ 13:12


Comentário de: ana maria Email
Olá, Nine!

Gentileza sua, obrigada.
Os textos da Carol têm sempre alguma coisa que nos faz lembrar outra... e assim vamos participando.
Beijão.

Ei, eu ouvi! Eu ouvi! (Iêba...)
PermalinkPermalink 30.06.08 @ 14:40


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)
(Allow users to contact you through a message form (your email will NOT be displayed.))

Post anterior: As comidas secretas

Próximo post: Como ficar verde em 30 Dias - 1*

 

O que é Carol Costa?
Busca







Receba por e-mail
 


Guindaste no
Twitter




Translations by
Maubuch

 

[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]
PageRank