A fada banguela
Assim que mordi o chiclete, senti um caroço na boca. Passei a língua nos dentes da frente e, batata, o incisivo que dançava para frente e para trás, enfim, tinha caído. “Coloca embaixo do travesseiro para a Fada dos Dentes”, sugeriu minha mãe, animada. Eu não tinha a menor idéia de por que um ser com tantos poderes mágicos se interessaria por um dente-de-leite de meio centímetro. Vai ver, as fadas eram banguelas. Fiquei imaginando aquelas mulherzinhas mínimas, luminosas e aladas, com a boca parecendo um chuchu e resolvi entregar para a coitada da fada minha primeira relíquia de infância.
No dia seguinte, encontrei um jogo de damas debaixo do travesseiro. Tinha um tabuleiro pequeno, feito de madeira, e peças pretas e brancas finamente esculpidas. Aquilo despertou meu empreendedorismo infantil. Se um incisivo de nada valia um jogo de damas, o que a Fada dos Dentes não daria por um canino? Ou um gordo pré-molar? Resolvi acelerar a queda do segundo incisivo para checar o sistema monetário élfico.
Um mês depois do primeiro dente-de-leite, perdi o segundo. “Olha, mãe, outro! Vou colocar para a Fada dos Dentes!” Ela ergueu as sobrancelhas levemente espantada e disse que talvez a fada só se interessasse pelo primeiro. Será que a minha Fada dos Dentes já tinha completado sua dentadura? Se isso fosse verdade, eu teria de arranjar um jeito de fazer escambo com outra fada. Então, num momento de inegável talento para os negócios, botei o dente debaixo do travesseiro da minha irmã.
Eu ainda não tinha me dado conta de que a fada só vem à noite, então, checava o travesseiro a cada meia hora. Minha mãe logo percebeu que o berço da filha caçula tinha virado pregão. Achei melhor deixar minha cliente em paz por 24 horas, até que ela se decidisse pelo investimento. Dormi sonhando que tinha quatro sisos e todos eles nasciam. Foi lindo.
No dia seguinte, no lugar do dente-de-leite, encontrei um papel dobrado. “Querida menininha, muito obrigada por seu dente. Vou levá-lo para o Rei das Fadas abençoá-lo. Você terá um sorriso lindo quando crescer. Beijinho” E ainda vinha com fadinhas desenhadas dos lados. Aquelas banguelas muquiranas...
Posts similares:
O senhor dos castelos
Segure o fôlego para uma breve pausa.
Como dois irmãos*
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Obrigada, querida! Adorei te rever ontem!
Brgada!
Adorei essa da procuração!
Também vivo com 4 gatos. Ou melhor, eles me deixam viver no apartamento deles, sob a condição de que eu faça festinha de madrugada, troque a reia e compre comida. São uma graça. :-)
E sobre essa do dentinho... adorei a idéia! Meus pais são totalmente anárquicos e iconoclastas, de modo que nunca tive essas "curtições" infantis. Até a Disney eles fizeram questão de desconstruir pra mim. Por isso, me prometi que será diferente se algum dia visse a ser mãe. Vou anotar essa do bilhetinho para o caso de usar no futuro. :-)
Bjs.
Claro que pode! Este é um blog anárquico e iconoclasta! Quais os nomes dos seus 4 inquilinos de quatro patas?
Mas pense bem né, Carol, imagina o quanto não tá saindo um tratamento odontológico hoje em dia... Então, se a benção da fada funcionasse mesmo, sairia um bom negócio.
Logo se vê que bênção de fada não funciona muito: tenho quatro obturações... Vai ver, a varinha anda precisando de umas baterias novas.
Bjs.
Ah, Carol, adorei os nomes da sua prole! Esses gatinhos que a gente pega estropiados na rua são os que ficam ainda mais carinhosos quando crescem, não é?
me diverti com seu texto!!!
Criança e dureza, hein? E você fazia jus ao título!!
Eu??? Era um amor! Quietinha, não dava trabalho pra ninguém, passava o dia todo brincando com Lego e quebra-cabeça.
Ei! Não lembrava disso! Vou já falar com a minha Fada dos Dentes. Ela está uma arcada dentária inteira em dívida comigo!
Essa menininha da crônica dá mais pra fadas.
Você não está subestimando as menininhas de seis anos, Juliano? Sua mãe não vivia falando no dente do juízo?
Você perguntou se os humanos aqui em casa se comportam... sei lá, você acha que eu me cmporto?
Beijocas
Vejamos: você derruba bibelôs das estantes só por diversão? Afia as unhas na poltrona da sala? Escala cortinas? Se suas respostas forem não, puxa, você se comporta bem até demais, hahahahaha!
beijo
Hehe, ela também adorou, lilla. Só eu é que não gostei nada de encontrar papel em lugar de brinquedo, nhé.
A fada do dente nunca me deu nada, minha história é muito mais trágica, minha mãe mandava jogar em cima do telhado pra nascer outro forte e bonito e o primeiro ela fez um pingente que qdo ela foi pra praia do pinho (sim, dos pelados) ela perdeu por lá... buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Eu entendo você perfeitamente. Meus outros dentes também foram parar no telhado, Ingrith!
Mas isso de morder telhado eu nunca ouvi falar. Talvez porque precisaria ser um Babe Ruth pra conseguir arremessar meus dentes para o alto do prédio...
_
Acho que são as pombas que ficam com os dentes arremessados nos telhados. POr isso elas conseguem comer até hot-dog sem engasgar!
Meus cisos têm vindo cruelmente tardios e traumáticos...e dentistas sabem bem aterrorizar qualquer fada.
beijos!!
Dentistas são os ogros das fadas, tadinhas...
ela gosta de desenhos japones e do Miyavi!!!! Obrigaduuuuuu...pelo espaço
Beijus
Pelo menos, eles se salvaram de chamar Pikachu, Sandra!
...
Ei! Faz sentido!
[Pingente de dente??? Que tradições bizarras são essas da Cidade Grande?]
Bem, eu não sei a SUA fada, mas a minha até que era grandinha, sabe?, com mais de um metro de altura, quase um gigante para a pessoinha de seis anos que eu fui. Mas depois dessa comparação bizarra das fadas com pombos, acho que conheço alguém que não receberá a visita da Fada dos Dentes por umas duas gerações...








RSS feed