O feitiço do rio*
Em Manaus, quem não ouviu falar em Amando Cordovil, homem de riqueza e fama tão grandes quanto seu orgulho? Em pleno ciclo da borracha e às vésperas de estourar a Primeira Guerra Mundial, ele toca com mãos de ferro sua empresa de cargueiros, enriquecendo com o transporte de borracha e castanhas.
Quando sua mulher morre no parto, ele passa a alimentar uma relação de raiva e distanciamento do filho Arminto. Único herdeiro, o rapaz é criado pela índia Florita, que lhe traduz as lendas da região “nas noites de solidão da infância”. Enfeitiçado pelo olhar de Dinaura, a silenciosa órfã que vive com as Carmelitas, Arminto se divide entre se entregar ao desejo ou tocar os negócios do pai.
Com uma narrativa hipnotizante, Milton Hatoum mistura realidade e ficção na bela novela Órfãos do Eldorado, seu quarto livro baseado no Amazonas que ele tão bem conhece e representa.
Você concorda com a Amazônia retratada nos livros didáticos?
Milton Hatoum – Não conheço essa Amazônia. A Amazônia com a qual eu lido é urbana: 80% da população vive em cidades.
Como encara o desmatamento na região?
Hatoum – Sinto muito quando o mogno é derrubado, mas sinto mais ainda quando um bairro inteiro fica sem água, a poucos metros do maior rio do mundo. É uma precariedade total.
E as escolas, como são?
Hatoum – A maioria das escolas não tem biblioteca. Soube que o prefeito de Coari derrubou uma biblioteca pública para construir um estacionamento. Por aí você vê o nível.
Qual sua opinião a respeito da adoção de seu livro Dois Irmãos por alguns professores?
Hatoum – É uma dádiva para o autor quando os professores gostam de seu livro. Eles conseguem fazer uma leitura orientada, mais cuidada.
O que acha do ensino de literatura nas escolas?
Hatoum – Poderia ser mais vivo. É difícil para um jovem de hoje começar a ler por Iracema ou Dom Casmurro. Se fosse professor, começaria pelos contos do Machado de Assis, que são maravilhosos e têm oito, 15 páginas. Por que insistir em A Pata da Gazela? É importante trabalhar com livros que não afugentem o jovem.
*Versão original de reportagem publicada na revista Nova Escola deste mês.
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