O treinamento de incêndio
Hoje, teve treinamento de incêndio. Às duas da tarde, uma luzinha começou a piscar na parede, depois, veio uma sirene estridente. Eu achei que todos fossem sair correndo em pânico, mas só ouvi alguém dizendo “ah, treinamento de incêndio de novo!” antes de as pessoas começarem a levantar bem devagar. Uma colega que está com um baita barrigão e umbigo de tender foi reclamar com a brigadista que onde já se viu fazer uma grávida de oito meses descer dezessete – de-zes-se-te! – andares só para fingir que o prédio estava em chamas, mas a moça da Cipa olhou para ela com uns olhos bem redondos e a grávida foi para as escadas.
A saída de incêndio estava cheia de pessoas paradas nos degraus, que nem na fila da cantina, mas só que quando é sua vez você não ganha coxinha, suco e fruta e sim mais outro degrau e outro e outro. Como estava lotada, fiquei espremida entre um sujeito de boné, uma senhora que se abanava e repetia “isso é ridículo!” e a grávida. O moço da frente era alto e tinha uma mancha de nascença na nuca que parecia o mapa da África. Fiquei imaginando gnus correndo pela camisa dele, mas não deu tempo de ver um guepardo porque a fila andou e começamos a descer. Guepardos são muito da hora.
Demorou um bocado para chegar no térreo. A grávida dizia “dezessete andares, francamente”, mas não dava para voltar porque em cada porta havia uma brigadista muito séria olhando a gente andar. Achei melhor me comportar direitinho.
Depois de um tempão que eu não sei dizer quanto porque meu celular ficou na bolsa lá em cima, todo mundo chegou ao pátio. Os brigadistas usavam camiseta vermelha e se deram as mãos. Parecia que iam abraçar o prédio, o que não fazia muito sentido porque, afinal, era pra fingir que o lugar estava pegando fogo. Dois moços discutiam que “aquela farsa burlesca” tinha atrasado o trabalho deles, “quero ver quem vai pagar hora extra” e que aquilo era um absurdo. “Quando termina esse circo?”, perguntou o mais novo, mas um brigadista estava atrás dele e os três começaram a bater boca, um dizia “estamos salvando vidas” e “isso é um desrespeito” e os moços respondiam “desrespeito é deixar os leitores sem revista”. Juntou gente para ver, fizeram rodinha, foi o maior legal.
Aí, o chefe da Cipa apareceu distribuindo castigo pra todo mundo, “um bando de marmanjos, que coisa mais infantil!” e os três foram pra sala do RH. Uma moça falou “a gente não pode nem reclamar nesta empresa?” e o chefe mandou ela pra cima também. Logo os elevadores foram ativados e todo mundo subiu de volta para seus andares.
Quando eu crescer, quero ser chefe da Cipa!
PS: Este texto é inspirado nas aventuras de O Pequeno Nicolau, dos geniais Jean-Jacques Sempé e René Goscinny.
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Mas Carol, dezessete degraus é tão pouco. Ou seriam 17 andares? Aí sim, neste caso eu ficava trancado no banheiro dizendo que tava com diarréia, hehehe.
Opa, obrigada pelo toque, Emilio. São 17 andares, mesmo, 391 degraus contados na ponta do pé. Já corrigi no texto, valeu!
Depois de uma longa e tenebrosa temporada sem net, voltei a ler o guindaste!
Pô, já estava em crise de privação, morrendo de saudades daqui!
Carol, melhor que chefe da Cipa é encarregado da Qualidade:
- Cobra todo mundo
- Faz mil cursos, pra se manter atualizado
- Fica o dia todo fazendo apresentação no PowerPoint, daquelas bem coloridas, "por que gestão à vista é coisa séria"
- Se não stá no PowerPoint, está fazendo gráficos muito loucos no Excell
- Ou então lendo uns texto maiores legais na net
- Auditoria? Bico! E tem cada auditor gato, menina...
rsrsrsrs
Eu A-D-O-R-O o meu trabalho!
Saudades de vc, Carol, Beijocas!
P.S.: Falando em auditores gatos, semana passada minha empresa foi auditada pelo sósia perfeito do Sayid do Lot. (suspiro) Ai, Ai....
Oba, Lu de volta! Menina, como faço pra minha empresa ser auditada pelo sósia do Sayid? Ele tortura quem sai da linha? Tem algum colega que se pareça com o Sawyer? Ai, senhor...
E pobre da grávida!
Pior que diretor de escola, né?
Que estranho...
Meus colegas me disseram que, quando o prédio foi evacuado de verdade por causa da cratera nas obras do metrô, foi a coisa mais civilizada do mundo. E ainda ficaram uns loucos no andar para filmar a desgraça. Afe!
Caramba, Nine, que currículo! Eu nunca presenciei nada, nem incêndio, nem terremoto, nem acidente de carro, nem tombo na rua, nada. Mas sempre fui uma das primeiras a chegar nos lugares em que desastres aconteciam, culpa da minha profissão, claro. Ainda não cheguei no As Férias do Pequeno Nicolau, mas já comprei todos!
E quer ser da Cipa ainda? Vc gosta de emoções fortes, né?
Ah, mas na velocidade em que desci aqueles 17 andares, mal deu para sentir. Se fosse incêndio de verdade, eu seria um churrasquinho numa hora dessas.
Na empresa que trabalho não tem treinamento de incendio.. isso que somos em mais de 4000 funcionarios, outro dia pegou fogo.. ai o povo acabou saindo pela porta normal.. sendo que atras deles tinham porta de emergencia que não foi utilizada.
Tinha 1 bombeirinho pois a brigada não foi acionada...
Espero que aqui ainda tenha esses treinamentos para nós podermos xingar... pois se isso não acontecer e algo mais sério ocorrer, podera ter vitimas.
Abs
Por aqui, não foi inútil, não, Eric. Graças aos freqüentes treinamentos, conseguiram evacuar o prédio em poucos minutos quando foi, de fato, necessário.
Ah, Ricardo, não tenha dúvidas, eu vou descer em segundos os tais 17 andares!
Um bombeiro por aqui! Bacana é seu trabalho, Jordão! Parabéns!
Bem lembrado, Décio. Melhor eu treinar desde já para não ser pisoteada pelos brucutus...
Sorte que foi só um treinamento, se fosse real acho que estaria voando pés de plantas do 17º andar pela janela!
Claro que só os tomates chegariam inteiros por já estarem acostumados! hehe
Beijo,beijo,beijooo!
Adorei a voadeira!
Ah, Tiago, mas ser um Carolino Costa não é tão divertido quanto entrar num prédio em chamas, resgatar gatinhos de árvores ou tirar crianças de escombros... Ei, você leu sobre os tomates suicidas! Agora fiquei emocionada! E ainda lê a Voadeira! Ô, Tiago, obrigada pela companhia!
adorei seus textos, esse de treinamento deve ser uma chatice mesmo, coitada da grávida...
beijos
Puxa, Lila, que delícia receber uma leitora de AnaMaria por aqui! Não repare na bagunça, viu? Entre, sente, fique à vontade. Vai um cafezinho?
Eita povo que gosta de trabalhar!
Beijocas!
Ei, eu não te vi descendo as escadas, dona Amanda!
Carol, inspiradíssima. Muito bom!
Minha Cortarzinha! Viajei, ri, amei. Estive lá...mágico. Parabéns!
Epa, gostei dessa coisa de cortaziana! Êêêêê!








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