Perto do coração selvagem
Samambaias, fícus, peperônias e avencas compartilham meu teto há onze anos, desde que decidi levar uma vida longe do interior. Mantê-las bonitas e verdejantes é uma questão de honra. Ainda mais quando minha mãe vem me visitar, com seus dedos verdes e olhos de lince, capazes de encontrar pulgões e cochonilhas numa velocidade próxima à da luz.
Já cometi loucuras em nome das plantas. Na madrugada em que meus tomates caíram da janela depois de um vendaval, desci as escadas chorando para ir resgatá-los. Subi com um punhado de terra como quem carrega um sobrevivente. Também sofri horrores quando minha muda de mangueira secou, por puro despeito.
Depois dessas tragédias, transformei minha casa em lar temporário para as árvores. Recolho as mudas mais estropiadas que encontro e arranjo para elas meus melhores vasos e as maiores minhocas. Mantenho sempre cheias de água as garrafas Pet que uso para regar minha pequena lavoura – em menos de 24 horas, o cloro da água da torneira evapora e deixa de incomodar as plantas. Limpo folha por folha quando a poluição começa a encher as mudas de fuligem, mantenho a terra afofada e garanto que todas as plantas tenham sua cota mínima de sol, nem que para isso tenha de fazer um balé diário com os vasos. E, quando chove na rua, borrifo as folhas com água. Para que elas se lembrem de sua vida selvagem.
Mesmo com toda essa dedicação, sei que as árvores são como adolescentes: quando você se dá conta, já não cabem nas roupas de criança, não querem mais ouvir histórias antes de dormir e estão sempre com fome. Quando minha amoreira deu sinais de puberdade, os longos galhos alcançando o teto e saindo pela janela, soube que era hora de me despedir. Botei o vaso no carro e levei-o para um lugar onde a árvore pudesse crescer e descobrir o que é abrigar pássaros, esquilos e lagartixas. Ela está enorme e cheia de líquens. As folhas têm fuligem e os pássaros mal deixam as frutas amadurecerem. Ninguém falou que ser adulto é fácil.
PS: Já passarinhou na Voadeira hoje?
Onde está o texto em que conto a história de um senhor que perdeu a casa na cratera do metrô?
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Você está no lugar errado. Você está matando sua parte selvagem. Lá no interior também é bom. :-D Já morei muito tempo no interior e sinto saudades de lá. E hoje, com a comunicação em todo lugar, você pode trabalhar de lá.
Ri muito com seu texto imaginando as cenas, água sem cloro, balé de vasos, chuva com poluentes, ótimo.
Abraços e sucesso,
Nelson, não posso dizer que sinto saudades propriamente, porque não gostava tanto assim de morar num lugar onde o esporte preferido era falar da vida alheia. Mas gostaria muito de voltar a morar em casa, de ter um pedaço de chão para plantar minhas árvores e fazer uma horta, de criar meus gatos soltos. Um dia eu ainda ganho na loteria e compro uma casa numa vila bem simpática, com uma jabuticabeira colossal bem na entrada. Vai ser lindo.
Ok, me rendo. É essa a parte legal do interior: casa e quintal. O problema é que aqui no Brasil estamos fazendo um amontoado de gente em um único ponto. Quero a casa do interior, mas também quero o teatro e o museu da megalópole. E você sabe que ter isso de volta, só começando tudo de novo. Nossas grandes cidades demorarão mais de 200 anos, se começarmos agora, para nos oferecer isso novamente.
Vamos em frente.
Abração,
É isso, Nelson, exatamente isso: quero a casa do interior, mas também o teatro, o museu, as baladas, o supermercado aberto até de madrugada, as padarias 24 horas, as livrarias gigantescas, as dezenas de Sescs, as lojinhas da Vila Madalena...
Aqui no quintal de casa apesar de não ser um grande quintal, temos uma amoreira, uma goiabeira, um pézinho de caju que é meio jacú por que da poucos frutos e um pé de fruto do conde (é do vizinho, mas como está empenado pro meu lado do muro, pego os frutos rs).
Coisa boa ter o verde presente! :-)
Puxa, eu nem conheço e já amei seu caju jacú! Tenho trinta vasos em casa, incluindo uma romãnzeira carregada e uma pitangueira que, exatamente agora, está cheia de flores. A folhagem da sala eu preciso espanar duas vezes por semana e, a cada três meses, passar um paninho úmido que sai preto de poluição. Tadinhas das bichinhas, né?
Moro em Pirituba, com umquintal enorme. è verdade que está tudo cimentado, mas a casa não é minha, então não posso apitar. Mas meu noivo (o internacionalmente famoso Diego) mora na Penha e tem até chapéu-de-sol no quintal!
E nem vem falar de trânsito que eu sei que vc não liga de pegar metrô! rsrsrsrs
Beijocas a todos
O internacionalmente famoso Diego agora também é internacionalmente invejado, Lú! Ô, delícia que é ter quintal!
E olha que me forcei para cuida-la, para testar se essa coisa de planta é mesmo de família. Dedução: essa coisa de ficar plantando,molhando e adubando, definitivamente não é a minha praia.
Ou então eu acabo de comprovar a minha tese de adolescência: sou adotada!!!
Bjo
Acho que essa coisa de dedo verde só se manifesta depois que a criatura é largada para morar sozinha, assim, jogada aos leões. Só então as plantinhas resolvem dar uma força e param de murchar por qualquer coisinha.
Ao que parece, você ainda visita sua "filha" amoreira regularmente... é verdade?
A parte do harmonia é por sua conta, Renato... Recentemente, eles assassinaram um pé de chama-dinheiro lindo que eu tinha. Mas eles não contavam com minha astúcia: espetei uns trinta palitos de churrasco no vaso. Agora, eles não usam minha planta de caixa de areia nem com muita força de vontade! Quanto à amoreira, visito a moça regularmente, sim. Seria muito triste cuidar desde pequenininha e depois largar no mundo.
Aqui em casa temos um pedaço de quintal que daria para criar muitas flores, frutas e joaninhas, mas meu pai insiste em dizer que o máximo que vou coneguir é infestar a casa de ratos. Mas eu não desisto fácil, e continuo insistindo.
Beijos!
[um dia ainda consigo fazer um blog!- sou estudante de publicidade e a-d-o-r-o escrever!]
Não precisa se desculpar, não, Gabriella, a maioria dos leitores é mesmo mais tímida, não costuma deixar comentários. O que é uma pena, porque adoro conversar. Mas diga para seu pai que plantas não atraem ratos – a menos que você esteja plantando,em grande escala, trigo, milho e outros cereais, o máximo que as plantas conseguem atrair são insetos e passarinhos. No meu caso, nem mesmo os passarinhos. Quanto ao blog, menina, é tão fácil e rápido e gostoso e tudo o mais... Tem Blogger e Wordpress que permitem a criação gratuita de blogs e são super simples de administrar. Você não vai levar nem quinze minutos para fazer um. Vai lá!
acabei de chegar da rua e roubaram meu celular, lá na Pompéia. Vê se pode, essa cidade?
Mas então,
acredita que já matei um cactus? Mas foi sem querer, foi porque eu... reguei demais o coitado. Sim, sou muito contraditório. Hahahahahahaha!
Que chato isso, Thiago! Mas não te machucaram, não, né? São Paulo, às vezes, pode ser uma cidade bem hostil.
Trinta e dois agora, Nine: finalmente encontrei um jardineiro velhinho e talentoso, que botou minhas plantas nos trinques e ainda me trouxe duas mudas de orquídeas. As cochonilhas brancas você mata passando um pano com óleo mineral (qualquer um). Ficam meio melecadas, mas as pragas morrem. Se forem cochonilhas beges, daquelas mais durinhas, aí é bom tentar uma mistura de água com fumo de corda e sabão de coco. Tem um cheiro dos infernos, acho que as pragas morrem de tão fedido que é! Agora, os tomates. Veja bem, me desaconselharam horrores a plantar tomates, mas fui teimosa e plantei. É minha vez de desaconselhar alguém: eles dão pragas, Nine, montes de pragas. Não é à toa que são os recordistas em agrotóxicos. Uma hora aparece um pó branco nas folhas, quando você consegue combatê-lo, os brotos começam a cair, aí, você descobre que tem um fungo na terra e aduba, depois, surgem umas lagartinhas brancas, enfim, é uma trabalheira danada. E precisam de estacas, porque ficam umas plantas de mais de 1,50m. Tem certeza de que ainda quer tomates?
Ah, isso não é problema, Nine: meu canteiro tinha meio metro de profundidade e mesmo assim os tomates foram pra frente. Duro vai ser achar pé de mozzarela de búfala...
Mas ih, minha vida anda um caos, sabe? Isso foi meio que a cereja em cima do bolo. Bom, fazer o quê, né, agora vamos esperar que tudo melhore.
Quanto a São Paulo ser uma cidade às vezes hostil, é verdade, sim. Mas hoje em dia qualquer cidade é: de Botucatu a Montreal, tem gente mal-intencionada em todo lugar, cabe a nós tentar fazer desse planeta um lugar um tantinho melhor.
Eita, vou ficar na torcida para que sua má fase passe logo, Thiago. Saravá!
Seria honrra de mais para um pobre rapaz!
Prometo ser de espécie rara e de brinde posso pensar até em levar um vaso desenhado pelas minhas mãos que aqui se prestam a digitar,nossa hoje estou muito "poetadebosta" Opá! Vou adubar minhas espadas de São Jorge, RÁÁÁÁ!
Honra é ganhar um vaso personalizado, Tiago!
Mães... Quanto mais crescem, mais colo querem...
Beijo pra Bia! Pra Carol, só um abraço, porque ela não visita a mamãe tanto quanto deveria.
Isso porque eu voltei de lá não faz nem quinze dias...
Olha que é só sua mãe, e não minha!!!!
A minha é um chuchu...rsrsrsrrsrs
A minha é uma mandioquinha!
Você está indo bem, Má!
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