A estiagem
Se você precisar de um jardineiro em Piracicaba – na hipótese improvável de não conseguir lidar sozinho com suas próprias plantas –, basta dar uma volta no quarteirão para encontrar umas crianças regando begônias, um rapaz franzino empurrando um cortador de grama ou um vizinho remexendo no jardim, com sua senhora por perto gritando "dá uma podadinha na amoreira também, Tião?".
Agora, ouse manter meia dúzia de violetas em São Paulo para ver a fúria divina se materializar em tudo quanto é tipo de praga possível, dos bíblicos gafanhotos aos pulgões menos litúrgicos. Num dia, são algumas mosquinhas brancas na romanzeira, no outro, umas lagartinhas até simpáticas na avenca e, logo, tem-se uma infestação. Quando você finalmente entrega os pontos, não acha um bendito jardineiro nem nos classificados. Depois de três meses procurando, chego à conclusão de que é mais fácil sapos caírem do céu do que encontrar alguém versado nas artes do ancinho e do rastelo.
Por tudo isso, você pode imaginar minha alegria quando, dia desses, vi um homem curvado sobre um canteiro de lírios, jaleco verde e cabelos faltando no cocoruto, cercado de ferramentas. Gesticulava enquanto tinha o que parecia ser um animado papo com uma das flores. Enfim, um jardineiro!
Bastou chegar perto do canteiro para minha fantasia de plantas bem-cuidadas murchar. Agachado, o senhor falava com um rapaz enfiado no fundo de um buraco no chão. Os dois terminavam a instalação de uns fios subterrâneos e reclamavam das condições de trabalho, já deviam ter sido rendidos por outra equipe que ainda não tinha chegado. "Sabem onde posso encontrar um bom jardineiro?" O mais velho levantou a cabeça e me olhou com a calma dos eletricistas que odeiam árvores. Passou uma ferramenta para o colega, cuspiu de lado e perguntou: "Pra quê?".
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De amargar, né, Renato?
Santodeus, Michel, e existe alguém chamado Sebástio? Tião é dos apelidos mais comuns que existem no interior em geral – e em Piracicaba em particular. Pensei em trocá-lo por "môr", mas não seria tão, digamos, regional.
Tenho um amigo que conversa com as plantas do jardim, mas isto sempre ocorria coincidentemente depois que ele tomava éle-ésse-dê.
Acho que não eram necessariamente práticas de jardinagem.
Eu converso com plantas, tomo conselhos e escuto pacientemente as reclamações sobre poluição, mudança de clima, solo infértil etc.
Há um Jasmin na minha janela um pouco sarcástico e, sempre que estou apavorado com algum problema (no computador principalmente) ele diz "Calma, cara!... As coisas são assim mesmo...Depois pioram".
Plantas. Tanto tempo de convivência conosco que ficaram pessimistas. A queda das folhas não ocorre mais por causa do outono, mas por estresse mesmo.
Hehe, eu também lembrei do "Magnólia" quando escrevi, Ozzy. Pô, manda uma muda desse jasmim pra São Paulo! Preciso tanto de alguma coisa me dizendo "Calma, cara!"...
Inteligente esse manjericão, hein? Falou rapidinho o que muito escritor de auto-ajuda leva um livro inteiro para explicar.
Matei duas samambaias: uma de sede e outra afogada; matei um mini-cacto afogado; e estou quase conseguindo matar uma avenca... restam poucas folhinhas, as outras já caíram...
Afemaria, uma serial killer de plantas! Menina, você parecia tão pacífica! Água é um troço difícil mesmo de controlar, mas, às vezes, as bichinhas estão morrendo é por falta de sol. Ou será que tem gato, faxineira ou colega de quarto boicotando você? São os maiores suspeitos...








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