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Madames e mucamos

Entrei no banheiro forrado de mármore e dei de cara com uma cadeira em frente à última porta. Estava meio quebrada, com o encosto torto e o assento gasto. Cinco minutos depois, uma senhora entrou e se sentou. Não tirou os olhos do chão. Na falta de um lugar onde descansar depois da refeição – melhor chamar de marmita-engolida-às-pressas –, é para o banheiro que ela vai. Fica lá, sentada por nem meia hora, acompanhando o entra-e-sai de pessoas que não precisam usar redinha no cabelo nem uma blusa de mangas compridas com LIMPEZA escrito nas costas.

Tenho vergonha de admitir que vivo numa sociedade em que madames e mucamos ainda existem. Vejo babás andando de branco da cabeça aos pés e não entendo a imposição da cor. Quem tem filhos deveria saber que quanto melhor a brincadeira, maior a sujeira, não?

Levei três anos para convencer a Val de que não era pecado almoçarmos na mesma mesa. “Na casa das outras patroas, eu como em pé, na cozinha, Carol”, ela diz, já habituada a dispensar o “dona” antes do meu nome. "Mesmo? Passa a salada, por favor?"

Com os taxistas é mais fácil: assim que o carro pára, eu simplesmente sento no banco da frente. Nem dou tempo de eles levantarem o pino da porta de trás. Aprendi com um homem, claro – mulheres não gostam de sentar no lugar do carona porque temem que os taxistas pensem que elas estão dando mole. Eu deveria ser a garota mais xavecável do bairro e, no entanto, já tive mais debates acalorados sobre radar eletrônico e recapeamento de asfalto do que sobre meu estado civil. Cantada, mesmo, nem de pneu.

Categoria: Comportamento

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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentário de: ana maria Email
Pois é, as vezes dá a impressão que o escravagismo ainda permanece. Basta ver como são tratadas algumas domésticas.
Gostei muito do seu texto anterior, sobre o gatinho... pena não tê-lo capturado. Tenho 9, cujo relacionamento é muito engraçado, de tapas a lambidas, todos convivem numa boa, especialmente em dia de chuva, todos amontoados.
Abraços.

Ai, eu adoro bodoque de gato, Ana! Ô, delícia! E quando eles deitam todos sobre a gente? Ainda não inventaram coisa mais gostosa do que ser soterrada por um monte de gatos ronronantes e quentinhos...
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 16:49


Comentário de: Fê ( aquela que odeia -11 ) Email
CAROL....amei seu blog....e tb adorei a coluna na Bons Luidos...
grande garota...arrasouuuuuuuuuuuuu

beijinhos
eu

Obrigada, moça-do-zóio-zur! PS: O que você tem contra o -11, hein? É um número tão bonito...
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 17:01


Comentário de: nine Email
Oi carol!Nao ando no banco da frente de taxi,nao me sinto a vontade(coisa de geraçao ,nao de classe),mas adoro conversar com taxistas,ja conversei sobre filosofia e os insights do cara eram otimos.Nao tenho emp,justamente porque nao me sinto bem com a situaçao.mas voce tem razao ainda vivemos na "senzala e casa grande".Conheci uma pessoa recentemente ,que parecia uma boa pessoa e tal ,mas que me soltou que nao fala mais com a irma ,porque ela casou com um negro!!eu fiquei pasma..

Temos muito em comum, Nine: também não tenho empregada (só uma faxineira, que vem uma vez por semana) e adoro conversar com taxistas. Aliás, já tirei altas histórias deles, algumas até viraram post. Quanto ao exemplo da pessoa que você citou, infelizmente, é mais comum do que parece. O ser humano é muito precário...
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 17:55


Comentário de: Ralph Email · http://www.esculhambanet.com
Triste realidade.
Espero que um dia preconceitos referente, a raça, credo, cor, nível cultural e trabalho terminem.

Odeio ver pessoas do dito "alto escalão" se achando melhores que as outras pessoas, olhando torto, nariz empinado.

A vida nos ensina muitas lições e aquele que a gente esnoba hoje, pode ser de quem precisariamos para viver ou para algo muito importante amanhã.

Todos são iguais.
E deveriam ser tratados assim.
Ainda bem que algumas leis estão mudando isso, mas falta muita coisa ainda.

Discriminação é crime!

É verdade, Ralph, mas ainda estamos muito longe de vivermos uma democracia de fato. Triste, né?
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 17:58


Comentário de: Patrícia Carvoeiro Email · http://www.plenapausa.blogspot.com
Carol, eu nem sei o que é andar no banco de trás de um táxi. A última vez em que isso aconteceu eu devia ter menos de 10 anos, certamente. Adoro papear com taxistas e já tive ótimas conversas com eles. Aliás, com motoristas e cobradores de ônibus, com atendentes de todo o tipo, até com garotas de programa na Augusta, cortando o cabelo. Também não sei o que é ter empregadas e as faxineiras sempre comeram comigo.
Sou a atéia que mais leva a sério o bla bla bla do "coma do meu pão e beba do meu vinho" (é isso? Bom, algo assim).
E fazer babé usar roupa branca é a coisa mais cafona do mundo. Meu pai, português conservador, fazia questão que a empregada dele (meus pais moravam em casas separadas) usasse aqueles vestidos pretos com bolsos e golas brancos. Eu queria morrer, sumir, quando ia à casa dele. Tinha 9 anos e era a típica Mafalda, fazia mil discursos inflamados contra aquela encenação.
Meu, eu escrevi no meu blog exatamente sobre as festinhas infantis de meio milhão de reais (a matéria que a Monica Bérgamo deu domingo). E agora li seu post. :P

Beijos!

Putz, Patrícia, o uniforme preto de babadinho branco também é de amargar, né? Tinha me esquecido dele. Vou lá no seu blog xeretar o post sobre as festinhas milionárias!
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 19:01


Comentário de: Ricardo Email
Me identifiquei com seu texto imediatamente . Na casa de meus pais , nenhuma funcionária faz suas refeições separadamente de nós. Todo mundo junto , e conversando . Claro que , aquelas mais novas, se sentem inibidas , mas isso passa rápido . Meus irmão , irmãs , e eu, nos encarregamos disso , fazendo brincadeiras e gozações com todo mundo . É muito legal .Com o tempo elas se acostumam , e se sentem totalmente à vontade , e nós todos adoramos isso .Ninguém é melhor do que ninguém , independentemente de posições sociais , ou de grana, ou de qualquer outra coisa . Abração prá vc Carol .

Pois é, Ricardo, é uma mudança cultural para os dois lados. Elas estão tão acostumadas a serem tratadas como cidadãos de segunda linha que estranham as primeiras tentativas de proximidade. Tive que insistir muito até conseguir que a Val me fizesse companhia nas refeições – depois, até que ela se acostumasse a conversar comigo sem arrematar tudo com "sim, senhora".
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 20:24


Comentário de: Marília Email · http://maroma.wordpress.com/
É triste, mas eles se conformam com esse sub-tratamento que sub-pessoas dão a eles...

Pois é, mas eu me nego a aceitar que as coisas sejam assim. Já cansei de ser censurada porque minha faxineira nunca tem hora para entrar. Alguns amigos acham que isso não "impõe respeito". Por que deveria exigir que chegue às 8h uma pessoa que precisa tomar dois ônibus e andar um bom trecho para chegar até a minha casa? Acho meio desumano, sabe? Contanto que ela deixe minha casa limpa, pode chegar a hora que quiser. Tem funcionado muito bem há três anos.
PermalinkPermalink 13.03.08 @ 23:50


Comentário de: Lelé Email · http://www.lelebcn.com
Aqui em BCN, ninguém vai no banco da frente. Não só por falta de costume, mas também porque tanto o taxista como os clientes não querem muita conversa. Uma pena, ainda mais porque me sinto só nos poucos táxis que pego. Ótima reflexão (como de costumbre).

Ulha, visitas internacionais, que chiquê! Que pena essa história do táxi, Lelé! Andei tanto a pé e de ônibus por aí que nem me lembrei de táxi... !Gracias por la visita!
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 06:26


Comentário de: Luciana Carneiro Email
Bom dia Carol,

Nunca tive empregada, só faxineira, uma vez por semana, mas era uma relação meio esquisita. Eu trabalhava em dois empregos de 6 horas, então pouco para em casa. A chave ficava com ela e nos comunicávamos por bilhetes, tipo "acabou o sabão em pó" ou "comprei os produtos de limpeza que você pediu mas o dinheiro não foi suficiente. Acertar com o dono do mercadinho". Mas era pura falta de tempo, não de interesse. Mesmo por que eu sempre gostei de cozinhar e sempre deixava pra elas fartos pedaços do que quer que fosse que eu fizesse.

Normalmente eu ficava com a menor parte, já que vivo de dieta e sofro de proscratinação gastronômica, aquele péssimo custume de deixar vários últimos pedaços na geladeira...

Beijocas e um bom dia a todos

"Procrastinação gastronômica" é sen-sa-ci-o-nal, Luciana!
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 07:43


Comentário de: Ricardo Email
Concordo com vc , Carol. É difícil para elas , mas depois tudo fica mais fácil , e a convivência baseada no respeito m[útuo e recíproco , melhora muito os relacionamentos . Bração procê, como vc costuma dizer ,e eu a achar sensacional.

Mandou bem, Ricardo!
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 12:01


Comentário de: Alex Castro Email
oi carol... como vc sabe, ando lendo seu blog.... e queria muito que vc lesse minha nova historia, ela tem tudo a ver com essas suas ideias... me dah seu email q eu te envio um convite pro blog restrito onde a historia estah postada.... beijos, alex

Obrigada pela visita, Alex! Leio sua história com prazer: por favor, mande o convite para carolcost78@hotmail.com.
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 12:40


Comentário de: Renato Alt Email · http://www.aperteoalt.blogspot.com
É, Carol... Aos poucos, mais pessoas vão se tornando invisíveis. Primeiro são aquelas pelas quais passamos na rua, que estão sob marquises e que eventualmente pedem alguma ajuda, recebendo como resposta uma reação já quase fisiológica que é o "tá ruim, companheiro". Em seguida são pessoas como a senhora que você descreveu, que limpam o que sujamos, desfazem o que fazemos... como em Clube da Luta.

Depois, são os vizinhos...

Temo que a qualquer momento nos tornemos invisíveis aos nossos próprios olhos.

Sue comentário me lembrou de uma ótima pesquisa sobre a invisibilidade social, tema do livro Homens Invisíveis. O autor, o psicólogo Fernando Braga da Costa, passou meses trabalhando entre os garis da USP para constatar a indiferença com que eles são tratados to-dos-os-di-as.
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 12:50


Comentário de: Alcione · http://sarapateldecoruja.blogspot.com
Puxa, é verdade. Ainda existe essa distância.
Mas aqui em casa é um pouco diferente. Não tenho empregada doméstica e sim, uma diarista que vem só qdo preciso. Ela não me chama de dona. Me chama pelo meu apelido e enquanto trabalha (e bem!), ficamos conversando. Ela me pede conselhos, me dá conselhos e no final do ano me surpreeendeu com um presente de Natal! Eu tbm lhe dei um, mas sempre dou cosias a ela. Mas me surpreendeu ela ter me dado aquele presente, uma peça de artesanato, feito por ela mesma.
Mas nem todo mundo é assim.

Puxa, que legal ganhar um presente feito por ela mesma! Eu costumo dar presentes para a Val, alguns que eu mesma faço, como um pingüim de resina e um gatinho de papel machê. Ela adora meus recados porque sempre vêm acompanhados de desenhos. Mas nunca ganhei presente dela. Nhé...
PermalinkPermalink 14.03.08 @ 16:46


Comentário de: lena Email
vc e muito bacana! o mundo precisa de gente assim. beijos!

Assim como, malucas e surtadas? Tem certeza?!?
PermalinkPermalink 10.06.08 @ 10:49


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