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O caçador de Piracicaba

– O que tem para o almoço?

Vai por mim, se você fosse convidado para comer na casa do meu avô Wilson, essa seria a última coisa que deveria perguntar. Todos já estariam à mesa – minha mãe, a segunda menor maria-chica, com os grandes olhos verdes arregalados. Da cozinha, viria um cheiro de comida queimada, talvez um barulho de louça quebrando. Segundos depois, minha avó surgiria solene, carregando uma travessa fumegante. A essa altura, a fome já teria calado as perguntas. Para as dúvidas que persistissem, a resposta inescapável: "Come que faz bem."

Numa dessas sacanagens do destino, justo eu, que não mato nem barata, fui ser neta de um caçador. Adorava ouvir as histórias que minha mãe contava de sua infância, quase sempre pontuadas por expressões de asco, como da vez em que meu avô levou para casa um sagüi. Assustado com todas aquelas crianças por perto, o bicho se desvencilhou das mãos de seu Wilson e foi se encarapitar no braço da minha mãe, que berrava "um monstro, um monstro, acudam!". Aquilo, sim, é que era infância!

A cada seis meses, meu avô se metia com os amigos num barco dos mais mequetrefes e subiam todos o rio Piracicaba, indo sair, deus sabe como, no Mato Grosso do Sul. Mas isso faz cinqüenta anos, quando a única preocupação do mundo era, malemá, salvar as baleias. Semanas depois, ele voltava para casa com uma caixa de isopor cheia de nacos de carne, tudo limpo e sem pele, para não dar a menor pista de a que bichos pertenceram.

Graças à esperteza de seu Wilson, o cardápio da família Cesar incluía desde animaizinhos fofos – coelho, codorna e paca eram os mais comuns – até ingredientes que passavam longe das mesas tradicionais, como capivara, tartaruga, javali, veado, cobra e jacaré. Não espanta que minha avó se saísse tão mal entre as panelas, talento que, logo se vê, herdei com louvor.

Alguns anos depois que meu avô morreu, tive acesso a um de seus pertences mais disputados entre meus tios: uma pata de onça parda, grande o bastante para ser transformada em um cinzeiro bizarro. Segurei-a desconfiada, com uma idéia estranha surgindo lá no fundo do meu cérebro. Quando fui virá-la, minha mãe arrancou-a de minhas mãos. Ninguém tira da minha cabeça que, embaixo da pata, bem no meio da almofadinha da onça, havia um carimbo de Made in Taiwan.

Categoria: Egotrip, Animais

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Comentário de: Nelson Email · http://www.nelsoncorrea.com/wordpress
Grande seu Wilson. Sábia sua mãe. Tem certas fantasias que não podem virar realidade. É como encanto, não pode perder a magia.
Gostei.
Ah, obrigado pelo pelo lugarzinho ali no canto. ;-)

E não é que você tem razão? Ah, o lugarzinho: jurava que já estava lá, acredita?
PermalinkPermalink 08.03.08 @ 22:10


Comentário de: Renato Alt Email · http://www.aperteoalt.blogspot.com
Carol, pelamor... Se você descobrir que a tal onça (ou a pata dela) era mesmo taiwanesa, não me conta. A tal caixa de isopor carnuda não me deixaria dormir nunca mais...

Ah, Renato, esse segredo morreu com o ômi. Acha que ele deixaria a netaiada toda descobrir que a pata fora comprada?
PermalinkPermalink 09.03.08 @ 00:50


Comentário de: Branco Leone Email · http://brancoleone.wordpress.com
off-topic: sobre o texto na Bons Fluidos, a sincronia dos assuntos é tanta que até botei um post no meu blog. Dá uma olhada. E tem um link pra uma receita de compostagem.
Beijo.

Estou na maior torcida para a sua composteira ter um destino mais digno que a minha, Branco.
PermalinkPermalink 09.03.08 @ 01:57


Comentário de: nine Email
OI carol!
seu avo devia parecer aos olhos da "netaiada" uma espécie de Indiana Jones dos tropicos..E a tal cx de isopor... é de arrepiar,comer sem saber o que...!mas me lembrou que qdo meu filho era pequeno e iamos passar as ferias anuais com o avo dele paterno que criava coelhos ,nos afastavamos a criançada para nao ver a"matança" e depois inventavamos animais estranhos para justificar a carne no almoço,.. "frango d'agua" e outros..mes passado meu filho veio passar uns dias comigo ,e eu contei para ele ,ele ficou chocado ,depois me arrependi ,bem fez sua mae em nao contar sobre a pata ..bjs

Ah, mas essa era justamente a intenção do meu avô, Nine. O que era carne branca, ele dizia ser frango; se fosse vermelha, era vaca. Só depois que a molecada comia é que ele revelava: "Vocês acabaram de comer sucuri". Isso é que é comida-surpresa, hein?
PermalinkPermalink 09.03.08 @ 09:40


Comentário de: Ralph Email · http://www.esculhambanet.com
Minha mãe sempre me contava histórias meio semelhantes de caça.
Meu avô materno junto com sua família minha avó mais os 7 filhos (ok falta de tv), no meio da Serra de Ubatuba, bem na parte mais alta, isso digamos a 55 a 45 anos atrás, tempo que a estrada era toda de terra ainda e que ir para a praia era um desafio digno de Rally Dakar.
Ali no meio da Serra que é uma floresta bem fechada, caçava de tudo para comerem, onça pintada, paca, tatu, peixes de rios da serra, raposas, gambázinhos (sim ela chama o gambá de gambázinho, vai ver já se familiarizou com o coitado né;).
E morando no meio da serra estas e muitas outras aventuras eram contadas, como no dia em que minha avó acordou com imensa cobra sobre as pernas durante a noite.... e juram que não era de meu avô e sim das do mato, das bravas mesmo rs rs rs.

Bom um dia conto a história completa até pq este blog é da dona Carol e já to alugando aqui demais rs rs r
Beijo Carol, continue sempre com este ótimo blog :-)

Adorei a história, Ralph! Sinta-se em casa por aqui: pode contar causo, segredo, fofoca, pode até botar o pé em cima da mesinha da sala.
PermalinkPermalink 09.03.08 @ 17:10


Comentário de: Alcione Email · http://sarapateldecoruja.blogspot.com
Tenho um pai que foi caçador. Foi pq ele dizimou toda a fauna da região!
Quando ele chegava com aquelas pacas, macacos e outras coisas mais para comer, eu só falta vomitar!

Isso explica o nome do seu blog?
PermalinkPermalink 09.03.08 @ 23:39


Comentário de: Alcione Email · http://sarapateldecoruja.blogspot.com
kkkkkkkkkkkkkkk
Não. Ele não matava pássaros! rsrsrs
Dá uma olhada na HOME do meu blog e verá a explicação.
Bjão!

Ufa, pelo menos isso!
PermalinkPermalink 10.03.08 @ 20:44


Comentário de: Alexandre
Vixi, mais uma coisa em comum entre nós...
Meu avô (pai da minha mãe), que Deus o tenha, tb era um serial killer ou tinha dessa sindrôme de matar bichinhos fofinhos... E não só isso... na minha familia tinha dessas coisas que o menino tinha que mostrar sua masculinidade. Eramos obrigados a assistir ao assassinato. Meu ultimo foi numa véspera de Natal(acho que em 1984), ajudei meu avô a embebedar o perú foi engrassado ver a ave cambaleando pelo quintal. Logo depois meu avô e tio se dirigiram ao chiqueiro... a criançada foi atrás achando que iria de participar de mais uma coisa engraçada como a situação do peru... Rapidamente ele pegou o leitãozinho que tinha sido a atração da casa qdo chegamos. Pediu para meu tio segurar as patas de tras do bicho e enfiou a faca bem debaixo da perna dianteira do bicho atingundo-lhe o coração. O bicho grunhiu alto... A algazarra da criançada parou imediatamente e o cheiro de sangue pairou no ar... Os olhos arregalaram.
Saímos todos correndo, tristes, para contar para minha avó o que meu avô havia feito e para nossa supresa, qdo nos aproximamos ela estava com o peru pendurado no varal colhendo o sangue que escorria do pescoço sem cabeça. Não pude comer mais nada depois daquelas cenas...
Muito tempo depois fui pescar com meu pai, em 1991 qdo moravamos no Mato Grosso. Essa foi engrassada. Depois que meu pai caiu dentro do barco de pernas pra cima machucando a nuca, Depois de tanta pinga ingerida. Voltamos pra casa e no caminho paramos num lugar curioso. O que aqui em SP poderiamo chamar de açougue, fomos broncamente atendidos por um senhor que nos ofereceu um cardápio curioso, jacaré , cobra, veado campeiro, cordeiro e paca. Meu pai pediu uma peça de cada e chegou contando pra todos que nós haviamos caçado aquelas coisas. Dessa vez fiz questão de provar cada um e até hoje sou apaixonado por carne de jacaré. Pena que não é facil de se encontrar. Se alguém souber onde posso encontrar por favor. email-me.
bjo

É lamentável que crianças sejam obrigadas a presenciar essas matanças, né? E, no entanto, essa é uma atitude bem comum, especialmente na zona rural, onde carne é motivo de festa. É por isso que detesto a ceia de Natal, com toda aquela fartura obcena e montes de bichinhos mortos. Um dia, ainda tomo vergonha na cara e viro vegetariana...
PermalinkPermalink 11.03.08 @ 14:00


Comentário de: Ricardo Email
Gostei muito desse texto . Aventuras são , para mim , uma das essências da VIDA , assim mesmo , com letras maiúsculas . Se não for assim , passamos a viver (?)em um estado semi-vegetativo , de ir para o trabalho , e voltar para casa , todos os dias , até que um dia nos vamos para sempre . E o que ficou ? Nada ! Há um livro do qual gosto muito e chama-se "Ensaios Céticos " .Seu autor é Bertrand Russel , filósofo , mas que escreve de uma forma cativantemente simples . Se não leram ainda , sugiro-lhes que o façam . Carol , desculpe o comentário longo . Sei que preciso ser mais sucinto . Aprenderei.

Gostei da sugestão do livro, Ricardo, não conhecia. E relaxa quanto ao tamanho dos comentários. Aqui pode tudo.
PermalinkPermalink 11.03.08 @ 17:57


Comentário de: Ricardo Email
Obrigado Carol .

Às ordens!
PermalinkPermalink 11.03.08 @ 20:38


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