Festa do interior
Logo na entrada, um cartaz anunciava uma festa de arromba ao som da Banda Leizer. No barracão, oito pequenos ventiladores tentavam inutilmente dar conta de um calor dos infernos. Com jóias da família, bocas e olhos pintados e pique de Jovem Guarda, senhoras exibiam vestidos dignos de Oscar – isso se a cerimônia se passasse em Laranjal Paulista, é claro, que ninguém aqui tem dinheiro para ir pros exterior, viu, minha filha?
Ao meu lado, um grupo de cinqüentonas se abanava intensamente com leques coloridos. Um senhor se curvou para uma delas com uma mesura. A pista estava cheia. Um homem alto dançava valsa com uma velhota gordinha que não tirava os olhos do chão. Uma dupla dava uns passos de gafieira, dando caneladas nos casais vizinhos. Outro casal arriscava uma salsa bizarra enquanto duas mulheres se divertiam num forró. Um careca dançava com uma toalhinha no pescoço, parando de tempos em tempos para secar o cocoruto e as têmporas, no que era silenciosamente reprovado por sua dama, que fechava os olhos, mas continuava a milonga. No palco, a vocalista arranhava um bolero interminável. O baile estava só começando.
O repertório oscilava entre o mela-cueca desbragado e a dor de corno suicida. "Moleca, molequinha sapeca vem me dengar." "O meu coração, meu sorriso é seu, aiaiaiaiaiiiii, pelamordedeus não me deixe assim, aiaiaiaiaiiiiii..." "Você não vale nada mas eu gosto de você, tudo que eu queria era saber por quê." Aqui, Wando é considerado cult.
Fui arrastada para a pista. Em cinco minutos, levamos duas cotoveladas, um pisão e nove empurrões. Mal a música acabou, um segurança se materializou do meu lado. Vinha com a carranca típica da profissão. "Aqui não pode fazer essas coisas, não. Vocês dois procurem um lugar mais adequado para namorar."
Olhares de censura me receberam de volta à mesa. Meu crime foi ganhar um selinho em baile da terceira idade. Sou mesmo uma despudorada.
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Gafieira....
Em pensar que aqui próximo tem um destes clubezinhos, o famoso "RALA BUCHO".
Beijo Carol.
Rala bucho?!? Fantástico! Eu mereço mesmo o fogo do inferno...
Deveria ter ido num pancadão...
Foi em Laranjal Paulista, ninguém mandou, né? Eu deveria era ter ido num show do DJ Maluco, autor da célebre "Quem vai querer a minha pirikita, a minha pirikita, a minha pirikita?".
Me lembrei quando tinha 16 anos na piscina do clube... ah, deixa prá lá. :-)
Piscina do clube? Conta! Conta! Conta!
Vou te dizer, fazer bobices é permitido somente no deserto garotinha!!!!
Eu não tive escolha, Marina... Juro.
Ela é muito "prefrentex" para esse tipo de ambiente. Acho que ela vai continuar indo nos shows de rock lá do centro cultural SP!
Beijocas
Ah, Luciana, se sua mãe é prafrentex, tá no lugar errado! A coisa mais muderrrrna que tem em baile da terceira idade é velhinha de cabelo roxo – elas não entendem que a tintura nunca fica preta sobre fios brancos...
Como vou contar essa história aqui?
Foi só um devaneio. Seu segurança me fez lembrar que outro, lá no clube, tinha até direito de querer me tirar. Só não podia sair.
Deixa prá lá.
Você não sabia que quem atiça curiosidade de jornalista não vai pro céu? Isso sim é sacanagem!
Claro que faz. Foi lá que eu entrei nele.
Essa foi muito boa!!
Pior é que eu não fazia idéia dessas proibições, Alcione! A pista é sagrada: não pode fumar, beber nem se beijar no lugar onde bailam os velhinhos.
Talvez o baile não tenha sido a melhor noitada da sua vida, Carol, mas pelo menos garantiu um bom começo de semana pra quem passa pelo Guindaste...rs
Beijos!
É que você não viu quais eram as outras atrações do mês: Barriga e Banda, Sela Dourada e Cama Verde. Não é uma maravilha?
Nem te conto, Ingrith! Tinha até um trio de dançarinos profissionais, contratados só para tirar as senhoritas. Chiquérrimo, né?
E pensar que essa geração de velhinhos já se beneficia de remédios para impotência e afins, né? Saudades também, menina! Precisamos marcar um chopp de boas-vindas para os novos vizinhos, não acha?
Estou navegando, procurando vizinhos.
Te espero pra um café n´O Mundo tem inscrições sempre abertas!.
http://inscricoessempreabertas.blogspot.com
beijinhos
Adorei o café poético. Façamos mais vezes, hein, Eliana?
Ô, Ulisses, eu adorei a festança! E o veneninho que eu destilo sempre acaba se voltando contra mim, então, sou quase inofensiva. Me acompanha nessa dança?








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