Manual do Livro Infantil Imbecilizante
Por mais que eu ame escrever e adore crianças, nasci sem talento para a literatura infantil. Já arrisquei alguns rabiscos, cheguei até a fazer esboços para os personagens, mas desisti depois de notar que minhas histórias davam sono até em mim. Ainda que pudesse fazer muito sucesso num nicho pouco explorado de literatura-sonífero, desisti da carreira de escritora e, hoje, sou uma bem-sucedida leitora de livros infantis.
Após anos folheando de Monteiro Lobato a Adriana Falcão, de Maurício de Souza a Neil Gaiman, desenvolvi um radar especial para livro ruim. Trata-se de uma combinação de faro de perdigueiro com visão de raio-x, capaz de atravessar capas duras e orelhas bonitinhas, escrutinando textos e ilustrações em busca de um dos sete pecados do que chamo de O Manual do Livro Infantil Imbecilizante.
1. Diminutivinhos
“A Menininha era muito boazinha e comia toda a comidinha que sua mamãezinha fazia.” Não estranha que tantos diminutivos tenham vindo de um autor menor.
2. Nomes bobos
“Dona Borba Leta resolveu procurar sua amiga La Garta, que vivia debaixo de uma folha.” Quem seria os outros A Migos? O Gato Miau e o cachorro Auau?
3. Rimas miseráveis
“Sentiu o coração/ Doce canção/ No peito palpitando/ Vibrando!!!” Haja emoção para destruir a poesia com apenas quatro versos.
4. Criança-adulto
“Não vou, porque vai acabar com a minha auto-estima.” Pelo menos, os pais dessa garotinha não vão precisar gastar os tubos com terapia e a analista. Só Calvin e Mafalda conseguem tornar engraçadas falas de adulto na boca de crianças.
5. Final moralizante
“Moral da história: obedeça sua mãe, ela sabe o que é melhor para você.” Nas fábulas, o final moralizante tem até seu charme, mas usar a literatura para cagar regra é coisa de autor que nunca aprontou uma arte ou contou uma mentira cabeluda.
6. Releitura de fábula
“Chapeuzinho pegou seu skate e seguiu pela floresta de arranha-céus.” Será que não existe mais uma boa idéia nova? Deixem Perrault e os irmãos Grimm em paz, sô!
7. Diagramação histérica
Os livros nunca estiveram tão histéricos: vivem cheios de hiperlinks, curiosidades, saiba mais, fotos, ilustrações, linha do tempo e um sem-fim de penduricalhos. Depois, reclamam que a molecada não gosta de ler: cadê a literatura?
Posts similares:
Existe vida inteligente depois de Monteiro Lobato?
Ziraldo gosta de crianças... bem longe!
Palco iluminado
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Ah....é sério que suas histórias têm o dom de dar sono??? Então estou precisando de umas pra contar lá em casa para a criançada...
Tadinhas, elas não merecem...
Ah, Ricardo, não tem matéria minha na Vida Simples de março... Vai entrar uma notinha só na edição de abril. Te aviso aqui quando sair. Mas em março tem novidade quentíssima na Bons Fluidos... Tchãntchãtchãtchããããããããm...
puta livrinho IDIOTA de criança de 2 anos de idade, e um monte de homem barbado sair lendo pensando que eh um bruxinho...
Uau, Tanso, você detesta, MESMO, o bruxinho, hein? De fato, não é uma obra-prima – foi ficando cada vez mais prolixo, por exemplo –, mas acho que ele não se encaixa em nenhum dos itens do Manual.
[Final moralizante + releitura desnecessária + apresentação histérica = Hollywood mostrando o pior de si. Ou seja: também funciona com adultos.]
A única diferença é que, para adultos, leva o nome de auto-ajuda.
Gabriel, muito boa sua colocação. Veja bem, não acho que só um ou outro item do Manual faz um livro ser ruim: é quando uma obra reúne vários desses "pecadinhos" que ela se torna, no mínimo, dispensável. Isso porque, de maneira geral, livro infantil custa caro. Com tanta coisa boa no mercado, creio que só falta informação para que as pessoas façam escolhas literárias melhores.
Abraços.
Gosto muito de uma frase do Ernani Ssó, ele próprio autor de um ótimo livro infantil, o Contos de Morte Morrida, que acabou de ser lançado pela Companhia das Letrinhas. Diz Ssó: “Prefiro os livros infantis aos adultos porque são mais difíceis de escrever”.
Faltar, não falta, Ingrith. Aqui mesmo no Guindaste, sempre tem resenha de bons livros infantis, é só procurar aqui. Acho que falta informação, mesmo. Livros infantis ficam restritos às revistas de educação, ou seja, se você não for pai nem professor, não vai ter acesso. E dá para contar nos dedos de uma mão os bons blogs de literatura infantil. Não é de se estranhar que, num mercado assim, proliferem os livros-brinquedos, aqueles que fazem tudo, menos estimular a imaginação e o hábito da leitura.
Mas a informação no total é boa.
Ralph, procurei embasar ao máximo cada tópico, para não parecer implicância gratuita. Mas, claro, não dá para dissociar o gosto pessoal do que cada um prioriza num livro infantil. Mesmo assim, você entrou e participou do debate. Isso, sim, é um baita ganho para a discussão da qualidade da literatura infantil. Obrigada pela colaboração!
Saiu uma matéria grande, sobre como se preparar financeiramente para uma viagem, na edição de fevereiro, que tem a matéria de capa sobre Deus, Ricardo. Ei, fique por horas e horas e horas! Você é super bem-vindo aqui!
Boa lembrança, Omblogsman! Gosto também da frase do Saramago que abre seu único livro infantil, A Maior Flor do Mundo: “As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas”.
Esta de parabéns.
Queria saber se tem um banner para eu postar no meu blog linkando o seu.
Abraços.
Ralph
Obrigada, Ralph. De fato, não vejo muita graça em ficar falando sozinha: todos ganham com essa interação que o blog permite. Especialmente quando há leitores participativos como você, que aceitam o convite de participar do debate. Quanto ao banner, nunca me pediram, Ralph, mas posso fazer um para você, claro!
Muitos
Anos
Invisível,
Ludicamente (e
Desavergonhadamente)
Evitando o
Verdadeiro
Endereço.
Remeta
Delicadamente
Ao
Decodificado
Oba!
Bem
Rápida
Informação.
Gracias!
Agora,
Deves
Aguardar.
C.A.R.O.L. C.O.S.T.A. [definição] = Criadora Astuta de Raras Observações, Lépidos Comentários, Obscuras Sabedorias e Tácitos Absurdos
C.A.R.O.L. C.O.S.T.A. [provérbio] = Coma As Rabanadas Ou Leve Consigo, Ou Sofrivelmente Terás Abrigo.
C.A.R.O.L. C.O.S.T.A. [notícia] = Começa Amanhã o Racionamento de Ovomaltine e Leite. Carol, Otimista, Servirá Torresmo Amanteigado.
C.A.R.O.L. C.O.S.T.A. [profecia apocalíptica incompreensível] = Conclamados Arcanjos Rolam Onde Lêmures, Cansados, Observam a Suprema Tangerina Amazônica.
http://megaman4.tabulas.com/2004/12/30/@644685/
[Perceba do que você se esquivou: mesmo com dois "O's" de bobeira em cada frase, nenhuma delas contém "Orgasmo". Fica para a próxima.]
M.I.C.H.E.L. [réplica] = Mas, Incrível! Como Hei de Escrever Ligeiro?
Não sei se elas gostaria de descobrir que algumas de suas obras se encaixam em muitos desses tópicos...
Pois é, Marina, mas a intenção não foi fazer polêmica gratuita e, sim, propor um olhar mais atento ao que damos para as nossas crianças lerem.
Caso possa me linkar em seu blog também ficaria honrado.
Abraços e tudo de bom.
Ralph
Vou acompanhar seu blog mais de perto, Ralph, pode deixar!
Há tempos o politicamente correto tomou conta do universo infantil, Renato. A Pequena Sereia da Disney, por exemplo, não morre no final, como acontece com a personagem no conto original de Hans Christian Andersen. Engraçado que as crianças que ainda são enganadas com histórias de cegonhas que trazem bebês são as mesmas que assistem cenas de sexo nas novelas ou de violência nos telejornais.
Gostei dos acrósticos do Michel.
Legal! Legal!
Pena que meu nível de criatividade esteja no nível "quase", e muito longe do "ainda".
fui
Que bom! Se tivesse mais um leitor para responder desse jeito, levaria o dia todo pensando nisso!
Tudo bem, fica só entre nós, Michel. Boca de siri.
Li um de seus textos outro dia, linkado no blog do Marmota, que por sua vez, foi linkado no Inagaki... meu deus, fiquei viciada! Estou chegando 1 hora mais cedo no escritório só pra fazer o carinhosamente batizado "giro-blog".
Começa no Inagaki, passa pelo Marmota, giro rápido no Gravataí, olhadinha básica no Virunduns, passada de olhos no Dama e acabo aqui, onde invariávelmente passo um bom tempo. Adorei os textos dos gatos, aliás, estou adotando a definição de gato-sumô, em substuição ao "garfield em grey-scale" que eu definia o Léo, meu mamute que mia.
Beijocas
Wow, Inagaki, Marmota, Gravataí, Virunduns, Uma Dama não Comenta... estou em ótima companhia, hein? Seja bem-vinda, Luciana! Pode entrar, bota o casaco ali na mesa, não liga pros gatos, não, que eles adoram visita. Aceita um cafezinho?
Que bom saber, ByAna. Obrigada!
Obrigada, Vera! Os exemplos que usei são uma mistura de vários trechos de livros. Fiz isso justamente para que a autoria não pudesse ser reconhecida, uma vez que a intenção não era ridicularizar nenhum escritor. Pelo mesmo motivo, não posso divulgar de onde retirei cada trecho.
Uau, Ju, que original seu comentário! Epa, mas acho que já li algo parecido também a respeito de quem faz crítica de cinema, artes plásticas, teatro, dança, futebol...
Muito espirituosas suas observações. Sou jornalista,escritora de Literatura Infantil e tenho batido muito na mesma tecla: literatura pra criança não tem que ensinar nada, não tem que ter moral, não tem que ser politicamente correta... Tem que ser gostosa de ler, de ver, de curtir! Faço parte de uma confraria de escritores em Brasília: Casa de Autores. Muitos de nossos "moradores" dedicam-se à LIJ e vão adorar sua análise do que ouso chamar os sete pecados capitais de quem acha que escreve pra crianças e jovens!
Grande abraço!
Puxa, Alessandra, bem que podíamos montar um time, né? Quem sabe assim a gente tem mais força para batalhar por livros infantis mais bem escritos? A molecada merece qualidade editorial!
Obrigada
Carla Patricia
Adoraria ler sua história, Carla! Mas cá entre nós: filho pedindo bis de história que a gente inventou sem a menor pretensão é uma delícia vai? Apareça sempre por aqui, ok?
muito pertinente sua observação sobre livros infantis. Lancei um e confesso que cometi alguns de seus sete pecados, mas como todo pecado é bom, não me arrependo. Porém, talvez repense e faça diferente, num próximo.
Sou professora (formada em educação Física e pós graduada em psicopedagogia)e sempre trabalhei com a idade a que vc se refere. As crianças hj em dia estão "adultizadas" (desculpe o termo)na maneira de falar, de se vestir e até se portar. Honestamente? Não gosto disso. Tudo tem sua idade certa e infelizmente, as crianças não vivem mais suas infâncias. Me refiro as que vivem em grandes metrópolis, principalmente.
Quanto a questão moral, tenho que discordar. Penso que não devemos ser maçantes, óbvios, mas se for possível passar algo que contribua com a melhora do mundo, aposto nisso.Se não for assim, então pq criticam tanto as novelas e filmes e os horários que passam? Pq reclamam tanto dos horários impróprios em que as TVs passam suas programações adultas?Se não filtrarmos alguma coisa, nós adultos, quem filtrará? veja bem... não sou a favor de ditar regras o impor normas, cada um escolhe o caminho que quiser. Porém se posso contribuir com bons exemplos, eu os farei. Afinal os heróis em quadrinhos fazem isso e a até a Turma da Mônica, gibis maravilhosos, embutiam sua moral.
Outra observação, reparei que vc responde aos seus leitores daqui com muitas palavras no detestado diminutivo a que vc mesma se referiu,ok? nada contra, apenas pareceu contraditório...rsrsr... na Paz.
bjs
De qualquer forma, adorei participar desta construção crítica, desta troca, obrigada.
Concordo que as crianças estão "adultizando" mais cedo, Chris. Quanto a moral, também assino embaixo: deve existir uma lição, mas desde que ela seja embutida, como você mesma disse. Colocar moral em tudo é fazer Esopo se revirar no túmulo. Quanto aos diminutivos, em relações de amizade e carinho, como as que tenho aqui, eles valem. Em livros, simplesmente cansam. Muito obrigada pela visita e sucesso com seu livro!








RSS feed