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A Irmandade das Poltronas Azuis

– Aonde as senhoras vão?
– Vamos doar sangue.
– Já está fechado.
– Mas fecha às 19h!
Ele fez um gesto com o queixo indicando um grande relógio do outro lado do saguão. Marcava 19h00m25s.
– Ainda não são nem sete e um!
– Mas já está tudo fechado.
– Moço, a gente veio DOAR sangue. Tem certeza?

No cérebro do vigia, um axioma se esticou sem pressa para encostar em outro neurônio, quase desistiu no caminho, mas, meio sem querer, fez a sinapse. O vigia hesitou por mais alguns segundos. Por fim, a burocracia cedeu ao bom senso. "Desçam lá", ele disse numa voz cansada. "Mas, se não tiver mais ninguém, vocês duas vão ter que sair." Como se minha idéia de passatempo perfeito fosse ficar perambulando num hospital vazio.

Eram 19h01m15s quando chegamos ao pequeno guichê da Fundação Pró-Sangue. Dois jovens funcionários se preparavam para ir embora. "O que vocês querem?", perguntou o rapaz. Pensei em responder "Dois Big Macs pra viagem", mas me contive. "Queremos doar sangue." Na cabeça do funcionário, um neurônio fez uma sinapse preguiçosa, pesando quantos minutos fora de seu expediente seriam necessários para fazer o cadastro de duas mocinhas. Deu uma olhada desconfiada para a colega, mas ela já pegava o RG da Marina, doadora veterana, e nem lhe deu atenção.

A Fundação Pró-Sangue dá conta de 24% da coleta de todo o Estado de São Paulo, 7% do país. Ainda assim, seus estoques vivem no limite: para que não falte sangue em cirurgias e hemodiálises, são necessárias cerca de 15 mil doações por mês, um número bem difícil de alcançar até mesmo em época de campanha intensa. Pouca gente pensa em doar sangue quando sai de férias ou se prepara para um feriadão. Foi justamente por isso que escolhemos a véspera do Carnaval.

Depois de preencher o cadastro inicial, o doador passa por um teste de anemia – uma picadinha na ponta do dedo – e pela checagem de pressão e temperatura. "Isso aqui lê pensamentos", brincou a enfermeira que deslizava um estranho aparelhinho pela minha testa, na verdade, um rápido e preciso termômetro. Chega então a hora da entrevista, quando uma enfermeira escarafuncha sua vida sexual e pergunta até a cor do seu sutiã. Só depois de passar por todos esses estágios é que fomos liberadas para a sala de doação.

É num amplo espaço repleto de poltronas azuis que se encontram super-heróis de todos os tipos. Eles não têm cinto de utilidades nem uniforme colante, mas não se importam em compartilhar seus superpoderes a cada três meses.

Não durou nem vinte minutos e logo já estávamos liberadas. Saí de lá com 400ml a menos nas veias e a sensação solene de fazer parte de uma seita secreta. Algo como a Irmandade das Poltronas Azuis.


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Comentário de: André Loureiro Email
Azuis, marrons ou brancas, seja qual for a cor da poltrona, a irmandade existe e persiste graças a boa vontade de poucos...
Não sei se são super-heróis, mas são conscientes de que com um gesto muito simples e alguns poucos mls, a menos, como os super-heróis fazem a diferença e apesar de não resolverem o problema, fazem a sua parte.
Talvez a forma mais simples de fazer o bem sem olhar a quem!!!

Rato, você veio! Que honra!
PermalinkPermalink 04.02.08 @ 09:11


Comentário de: Danilo Maia Email · http://www.submundodasenior.blogspot.com
Eu também sou doador.

Uma vez, um colega foi doar sangüe e o pessoal "embarrerou" só porque ele não usa preservativo com a própria esposa!!! Isso mesmo mesmo com a esposa.

Suspeito que façam isso para proteger os receptores, Dã. Mas que é meio constrangedor, isso é.
PermalinkPermalink 04.02.08 @ 19:55


Comentário de: Ozzy, the Wizard Email · http://ozzylandia.wordpress.com
Também sou doador.
Tô precisando dar uma voltinha por lá, inclusive.

Eu bem que suspeitei que o Trio Guindástico fosse doador! Falta só o Paulo confirmar.
PermalinkPermalink 04.02.08 @ 21:49


Comentário de: Marília Email · http://maroma.wordpress.com
Puxa, que legal!!
Doar sangue é um gesto muito nobre!
Parabéns a vocês!

Daqui a três meses tem mais, Marília!
PermalinkPermalink 05.02.08 @ 00:12


Comentário de: Marcelo Lucidi Email
Tem uns colegas que já doaram sangue pra ver se tinham alguma doença venérea

Isso explica o por que de tantos cartazes alertando aos doadores que não doem se quiserem fazer exame de sangue para detectar doenças sexualmente transmissíveis.
PermalinkPermalink 06.02.08 @ 17:12


Comentário de: Ulisses Adirt Email · http://incautosdoontem.blogspot.com
Na minha última doção eu não doei... fui barrado pela infermeira que escarafunchou minha vida sexual...

Ah, Ulisses, essas enfermeiras são mais indiscretas que cachorro policial. E têm um faro ainda mais apurado.
PermalinkPermalink 06.02.08 @ 17:20


Comentário de: Marina Email
Pois é Carol, fiquei muito feliz em ter aceito o convite, mesmo que não façamos a diferença pelo menos tentamos, e é assim, cada vez que formos doar levaremos alguém que nunca foi, assim aumentaremos esta corrente do bem!!!!
Valeu, minha mais nova amiga!!!!
Adorei!
Beijos

Eis que surge a doadora veterana! Boa idéia: vou levar um acompanhante sangue bão quando for doar novamente!
PermalinkPermalink 07.02.08 @ 11:45


Comentário de: Marina Email
Isso mesmo pessoa, assim quem sabe conseguiremos levantar esta bandeira branca!!!!

Branca? Só vi vermelho saindo pela mangueirinha...
PermalinkPermalink 07.02.08 @ 14:28


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